POR QUE ELES NÃO CRESCEM?
A acusação de ter cometido agressão sexual em uma boate da Inglaterra revela a face imatura de Robinho – a mesma de outros atletas que saltaram da pobreza para o estrelato
[comentário do Blog: ele, assim como muitos outros brasileiros que se destacam no esporte, não estão preparados para a fama, a glória e a fortuna.
A foto abaixo vale por um discurso e fundamenta o acima afirmado.
Leia mais sobre o vexame de alguns brasileiros clicando aqui.]
Talento precoce do Santos, galáctico do Real Madrid e atual detentor do título de jogador mais caro do mundo no Manchester City, o atacante Robson de Souza, o Robinho, de 25 anos, é sempre lembrado por seu futebol alegre.
UMA FALTA PERIGOSA
Os tabloides sensacionalistas ingleses estão fazendo a festa com a falta de comportamento adequado de Robinho. Ao contrário dele, a moça que o acusa não quer sair do imbróglio chupando o dedo
Em campo, inventa dribles, cria malabarismos e apresenta comemorações inusitadas para seus gols. Quando está jogando, parece um menino, o que nos gramados é das suas maiores qualidades. Na semana passada, descobriu-se que – infelizmente – esse jeito de moleque não se restringe à bola. Depois que tira o uniforme, ele continua a se comportar como um adolescente sem freios. Essa face imatura de Robinho começou a ser revelada na última terça-feira, por uma acusação gravíssima: uma jovem inglesa de 18 anos diz ter sido agredida sexualmente por ele em uma boate de Leeds, cidade vizinha a Manchester, onde o jogador mora com a mulher e o filho. Robinho teve de ir a uma delegacia para se explicar e evitou a imprensa ao longo da semana. Sua vacilação ao comentar a acusação abertamente ajudou a apimentar o caso. Robinho decidiu se calar porque, de fato, trocou carícias íntimas com a moça durante uma noitada. Ele garante enfaticamente que tudo foi consensual, mas resiste tanto a dar detalhes sobre a relação quanto a admitir publicamente a aventura para não expor ainda mais Vivian Juns Guglielmetti, que conheceu aos 13 anos e com quem tem um filho.
A boate onde tudo ocorreu chama-se The Space e fica no centro do agito noturno de Leeds. Com tintas gastas e chapelaria empoeirada, oferece apenas três ambientes: uma pequena pista de dança iluminada de roxo por luzes estroboscópicas, um salão onde fica o bar e, em frente a ele, a área vip, isolada por uma corda de 1 metro e meio de comprimento. Foi lá que Robinho e um grupo de cinco amigos, entre eles o irmão de sua mulher e outro brasileiro, Jô, que joga com ele no Manchester City, consumiram dez garrafas de champanhe no último dia 14. A área vip é um recinto que comporta vinte pessoas, espremidas. Há dois sofás, duas mesas, um minibar e um banheiro. Como está dois degraus acima do salão do bar, oferece visão privilegiada do lugar.
Quando Robinho e seus amigos chegaram, o The Space promovia a "noite dos estudantes", em que universitários têm desconto: pagam 6 libras, no lugar do preço cheio, 10 libras. O grupo entrou de graça, já que, além de ostentar o título de jogador mais caro do mundo, o brasileiro é freguês assíduo da casa. A partir daí, pessoas próximas ao brasileiro relatam a seguinte versão: por volta das 2 da manhã, Robinho chamou a tal moça, uma loira, que estava no piso de baixo, para juntar-se ao seu grupo na sala vip. Os dois começaram a se beijar e a se agarrar.
Depois de deixar a moça, Robinho diz que ela voltou a procurá-lo falando sobre dinheiro. Ele desconversou. Quando o brasileiro foi embora, a inglesa seguiu atrás dele dizendo: "Take me away with you" (Leve-me com você). De acordo com o DJ da casa, após a negativa, ela permaneceu na boate por mais uma hora. Alguns dias mais tarde, o jogador recebeu uma notificação da polícia inglesa informando que ele estava sendo investigado por crime sexual.
Apavorado, abandonou a concentração de seu time – que estava treinando em Tenerife, na Espanha –, pegou um avião e voou para o Brasil. Teve medo de ser preso caso permanecesse na Europa, sem contar com advogados criminalistas. Só voltou à Inglaterra no domingo 25, quando já havia feito contato com Chris Nathaniel, um especialista em ajudar celebridades com problemas de imagem. A polícia queria ir até a casa de Robinho e levá-lo sob custódia à delegacia. Os advogados do jogador alegaram que isso causaria tumulto, por causa da imprensa, e que ele iria por sua conta na data marcada. Na terça 27, dia do depoimento, Robinho chegou à delegacia acompanhado de um advogado e do administrador de seus negócios, Bernardo Assunção. Foram usados dois Mercedes para despistar os jornalistas.
O jogador dirigiu-se até a porta da delegacia – mas, ao atravessá-la, passou a ser escoltado por policiais. Manteve-se, assim, a formalidade da lei. Robinho não foi preso em nenhum momento, mas interrogado e liberado sob o compromisso de não deixar o país. Declarou ser inocente da acusação de "atentado sexual grave" – que, segundo a legislação penal inglesa, inclui "estupro e penetração não consentida, vaginal ou anal, feita com algum objeto ou parte do corpo". Robinho foi obrigado a fornecer material para um exame de DNA. A coleta foi feita com o uso de uma escova dental esfregada em sua gengiva. A realização do exame indica que a polícia encontrou sêmen no corpo ou na roupa da moça.
O jogador tem pelo menos dois elementos a seu favor. Primeiro: não há nenhum episódio de agressividade – muito menos sexual – em seu passado. "Ele jamais estupraria ou abusaria de alguém. Ele foi inocente com essa moça. A ‘maria chuteira’ inglesa fez tudo de caso pensado", diz Wagner Ribeiro, que foi empresário de Robinho durante sete anos. Segundo: o lugar onde tudo ocorreu tem uma fama péssima. VEJA ouviu frequentadores de diversos bares e clubes de Leeds e todos são unânimes: o The Space é reduto das "party girls" (garotas festeiras, na tradução literal, mas que sugere meninas vulgares). Das pessoas ouvidas pela reportagem, nenhuma conhece a suposta vítima do jogador, mas todas relataram um boato desfavorável a ela: depois de ter feito sexo com Robinho, teria sido aconselhada por uma amiga a vender a história para um tabloide sensacionalista, que a teria recusado. Proibidos de falar sobre o assunto, funcionários do The Space tratam o episódio com ironia. "Tudo o que posso dizer é que estava aqui naquela noite e não vi nenhuma menina sair chorando devastada", conta o porteiro do clube.
O constrangimento a que Robinho se expôs com a noitada em Leeds engrossa a lista de vexames protagonizados nos últimos tempos por jogadores brasileiros de sucesso. O envolvimento recorrente de atletas estrelados em episódios escandalosos tem uma explicação de fundo psicológico. Muitos deles não têm preparo emocional nem cultural para lidar com o mundo de dinheiro, sucesso e fama ao qual são apresentados quando vão viver na Europa. O problema origina-se, em geral, numa infância pobre tanto em termos materiais como de valores. Segundo a psicóloga Suzy Fleury, que já trabalhou com os atletas da seleção brasileira, muitos dos garotos que vão tentar a sorte nas categorias de base dos clubes contam com estruturas familiares frágeis. E os que se destacam logo deixam os estudos de lado. A família e a educação são fundamentais para formar a personalidade e a visão de mundo de qualquer pessoa. Quando há falhas nessas duas áreas, o resultado é um adulto despreparado para lidar, entre outras coisas, com a vertiginosa ascensão financeira e social que os jogadores de futebol experimentam no início da vida adulta. "O dinheiro e a fama criam armadilhas muito sedutoras para quem vem de uma condição precária em termos morais, intelectuais e emocionais na infância", explica Suzy.
Há muitos exemplos de jogadores que não conseguem amadurecer. Um dos mais vistosos é Ronaldo, o Fenômeno, que atualmente sua em bicas nos treinos do Corinthians para tentar entrar em forma. Entre 2002 e 2007, era o mais animado integrante do milionário elenco do Real Madrid na hora de organizar festinhas de embalo. Seus companheiros de noitadas eram o inglês David Beckham e o próprio Robinho. Eles não iam a boates: divertiam-se a cada semana na casa de um deles, sempre acompanhados por uma penca de beldades. Ronaldo nunca conseguiu emplacar um relacionamento duradouro. No ano passado, quando sua atual mulher, Bia Antony, estava grávida e ele dizia ter encontrado o equilíbrio, viveu a pior cena de sua vida. Foi parar em uma delegacia do Rio de Janeiro, acusado de dar um calote em três travestis com quem havia passado a noite. O trio ainda insinuou que ele havia consumido cocaína. Ronaldo se desculpou, foi perdoado pela mulher, mas não tomou jeito. Na semana passada, foi a uma boate cara em São Paulo. Encheu a cara, fumou a noite toda e tentou agarrar todas as moças que passaram pela sua frente. Às que recusavam ceder, indagava, trôpego: "Por que você não quer me beijar? Você não é corintiana, pô?".
Outro que levava uma vida desenfreada é Adriano, que em sua fase áurea chegou a ser chamado de Imperador pela torcida do Inter de Milão. Com o colega de equipe Maicon, ele se notabilizou por organizar verdadeiras orgias nos hotéis de luxo de Milão ao longo de 2006. A dupla tinha duas preferências: prostitutas brasileiras e suítes com piscinas grandes. As farras eram tão intensas que, no dia seguinte, as piscinas precisavam ser drenadas para limpar a imundice: uma mistura de latas de cerveja, camisinhas, sapatos e peças de roupa íntima. Adriano chegou à beira do alcoolismo. Declarou publicamente que precisava beber para conseguir dormir. Depois de um ano fora do Inter, o que incluiu um empréstimo ao São Paulo, Adriano está aprontando menos em Milão.
O talento para a encrenca não é exclusividade dos atletas brasileiros, obviamente. O português Cristiano Ronaldo, do Manchester United, é um ícone da imaturidade. Em 2005, foi preso, sob acusação de estupro. Pagou fiança e se livrou do processo por falta de provas. O caso, aliás, vem sendo usado pelos advogados de Robinho para mostrar que a Inglaterra está cheia de mulheres dispostas a fazer sexo com jogadores famosos e, em seguida, levantar acusações infundadas para tentar receber algum dinheiro. Cristiano Ronaldo se livrou do problema, mas no começo deste ano fez mais uma molecagem: arrebentou uma Ferrari de 300 000 dólares em um túnel. Os americanos Kobe Bryant, astro da liga americana de basquete, e Mike Tyson, um dos maiores boxeadores da história, também engrossam a lista dos atletas imaturos.
Quase todos seguiram o mesmo roteiro, da infância pobre, em meio a uma família pouco estruturada, ao estrelato e à fortuna repentinos. Essa é a história de vida de Robinho. Ele nasceu em 1984, no município de São Vicente, no litoral de São Paulo. A família era paupérrima. O pai, Gilvam, trabalhava na manutenção de tubulações de esgoto e costumava exagerar na bebida. A mãe, Marina, era faxineira. Os dois sempre tiveram uma vida conjugal acidentada. Hoje, embora sigam casados, ele mora no Guarujá, em São Paulo, e ela passa a maior parte do tempo em Salvador, na Bahia.
Robinho cresceu jogando bola nas ruas. Aos 7 anos, seus dribles lhe renderam uma vaga para jogar futebol de salão no Esporte Clube Beira-Mar. Treinava em troca do lanche diário. Ele costumava assistir ao exercício das crianças mais velhas apenas para entrar na fila do sanduíche mais uma vez. Seu primeiro empresário entregava cestas básicas à sua família. A vida começou a mudar quando chegou às categorias de base do Santos, onde se tornou profissional em 2002. Passou a ganhar 1 000 reais por mês. Na temporada de estreia pela categoria profissional, com apenas 18 anos, foi uma das estrelas do time que venceu o Campeonato Brasileiro. Pouco antes do título, seu salário passou para 25 000 reais. Valor que seria multiplicado por dez antes de ele deixar o clube, em 2005.
A taça do Brasileiro – e as pedaladas que fez sobre a bola no jogo final, contra o Corinthians – o transformou em celebridade. O Santos o vendeu ao Real Madrid, clube de projeção planetária, por 30 milhões de dólares, o maior valor que um time brasileiro recebeu até hoje por um jogador. Com a camisa do Real Madrid, Robinho foi bicampeão espanhol, mas se ressentia por não ganhar tanto quanto outros atletas do elenco. Seu salário era de 2 milhões de euros por ano, um quarto do que recebiam outras estrelas. Por isso, aceitou a proposta para jogar no Manchester City, da Inglaterra, no mesmo dia em que foi feita. O time inglês pagou 43 milhões de euros por ele. Foi a transação mais alta de 2008. O ex-menino pobre de São Vicente passou a receber 6 milhões de euros por ano, o equivalente a 48 500 reais por dia.
Com o mundo aos seus pés, Robinho pôs em risco sua reputação na busca por alguns segundos de satisfação com uma desconhecida no banheiro de um inferninho inglês. Agora, corre para recuperar sua imagem. A contratação de Chris Nathaniel para lhe servir de anteparo mostra que, culpado ou inocente, ele talvez se emende a partir do episódio na boate The Space. Além de habituado aos meandros da Justiça britânica, Nathaniel é conhecido por ter endireitado dois notórios bad boys do futebol inglês: Rio Ferdinand, do Manchester United, e John Terry, do Chelsea. Nathaniel fala baixo e grosso, só se comunica com Robinho por meio de um intérprete e é pouco afeito a intimidades. Por seu intermédio, foi contratado um detetive para investigar a moça que acusa Robinho. Quando conheceu o brasileiro, Nathaniel disse a ele: "Se você quiser continuar usando amigos como conselheiros profissionais, vá em frente – você é o Robinho, afinal. Agora, se me contratar, vai ter de me obedecer. E, se me obedecer, vai ser não apenas um dos melhores jogadores do mundo, mas um ícone do futebol, como David Beckham". Ganhou o emprego no mesmo dia.

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