O consumo das famílias, que durante mais de cinco anos sustentou o crescimento econômico, deve apresentar queda no último trimestre de 2008. Retração faz indústria prever PIB perto de zero em 2009
Uma forte retração do consumo no último trimestre de 2008 provocará uma queda significativa do Produto Interno Bruto, segundo avaliação de analistas. O impacto da crise global é mais forte na indústria, que prevê crescimento zero para 2009.
O consumo das famílias, que representa 60% do cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), registrou queda no quarto trimestre de 2008 ante os três meses anteriores, interrompendo, segundo as contas do Diretor de Pesquisas e Análises Macroeconômicas do Bradesco, Octávio de Barros, um ciclo de crescimento contínuo de 21 trimestres consecutivos (cinco anos). O tombo ficou entre 0,7% e 1,5% — o número oficial será divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, refletindo todo o impacto da crise mundial no dia a dia da população.
Também os investimentos, que os analistas chamam de formação bruta de capital fixo (FBCF), encolheram nos últimos três meses do ano do passado. Pelas projeções do mercado, o recuo foi ainda maior, entre 7,5% a 9,5%, a primeira queda depois de nove trimestres consecutivos de avanço. Em ambos os casos — consumo e investimentos —, a contração decorreu, principalmente, da forte retração do crédito e da deterioração das expectativas de consumidores e empresários. “Muita gente colocou o pé no freio assim que estourou a quebra do banco americano Lehman Brothers. Uma crise de confiança se instalou no mundo e contaminou em cheio o Brasil”, disse o economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles.
Segundo Flávio Serrano, economista-sênior do Banco BES Investimento, as pessoas que estavam pensando em comprar alguma coisa a prazo ou em tomar empréstimos adiaram as decisões. O mesmo ocorreu no caso das empresas, que cortaram investimentos ou diminuíram os desembolsos para a expansão de fábricas, diante da perspectiva de não terem para quem vender no futuro. “O susto foi grande. Não só o consumo e os investimentos desabaram. A produção também recuou de forma significativa, sobretudo a de bens de capital (máquinas e equipamentos)”, assinalou.
Muitas incertezas
Não é à toa, portanto, que o mercado está apostando firme que o PIB dos últimos três meses de 2008 encolheu em relação ao trimestre anterior. Para Octávio de Barros, o tombo foi de 2,5%. Na opinião de Elson Teles, a queda ficou em 2,3%. Menos pessimista, Flávio Serrano previu recuo de 1,6%. Independentemente do resultado, os especialistas afirmaram que o estrago da crise foi tão grande no fim do ano passado, que 2009 começou com saldo negativo. O chamado carry-over (carregamento do ano anterior) será de -0,5% a -0,7%. Ou seja, para que o saldo final do PIB deste ano seja positivo, será preciso que a economia se recupere rapidamente e o suficiente para cobrir esse “déficit”.
Como não acredita que a retomada da economia será ligeira e contundente, o gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, informou que está revendo para zero a perspectiva de expansão do PIB em 2009 — a estimativa anterior variava entre 1,8% e 2,4%. O professor Mauro Miranda, do Ibmec, ressaltou, porém, que, a despeito da queda no último trimestre de 2008, o consumo das famílias neste ano será positivo, puxado pelo aumento do salário mínimo para R$ 465, pela ampliação do Bolsa Família, pela queda da inflação, pelo corte dos juros e pelo crédito, que continua sendo oferecido pelo comércio, mesmo mais caro.
“Certamente, não veremos o consumo das famílias crescendo no ritmo dos últimos anos (acima de 5%), pois as pessoas ficaram assustadas com o desemprego e estão preferindo poupar parte do salário”, acrescentou Miranda. Para Flávio Serrano, do BES Investimento, é possível que o consumo das famílias feche 2009 com incremento próximo de 1%. Quanto aos investimentos, bem mais sensíveis às intempéries, este ano será de queda entre 3% e 4%. A produção industrial também cairá — 3,5%, nas contas do diretor do Bradesco. “Teremos tempos difíceis e de muita incerteza pela frente, apesar de a inflação estar sob controle”, avisou Elson Teles.

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