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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Brasília, assassino em série

Assassino de mendigos suspeito de outra morte

O servidor do BC José Cândido do Amaral Filho, 48 anos, preso em abril, confessou ter matado dois moradores de rua na Praça do Índio, em 19 de janeiro. Agora, apareceu uma testemunha dizendo ter 100% de certeza de que ele também executou um mendigo próximo à Praça do DI, em Taguatinga, em março de 2006. O acusado nega.

Outra suspeita de execução
Servidor do BC acusado de disparar contra dois mendigos em janeiro, na Asa Sul, é investigado pela morte de outro morador de rua, assassinado com dois tiros na Praça do DI, em Taguatinga, em 2006

O homem que confessou ter executado dois mendigos na Praça do Índio, em 19 de janeiro, é “forte suspeito” de ter matado outro morador de rua, desta vez perto da Praça do DI, em Taguatinga, em 2006. A afirmação é do chefe da Coordenação de Investigação de Crimes Contra a Vida (Corvida), Luiz Julião Ribeiro, responsável pelo inquérito aberto há três anos. A suspeita surgiu após a prisão de José Cândido do Amaral Filho, 48 anos, em abril. A principal testemunha do crime de 2006, responsável pelo retrato falado na época, deu “100% de certeza” de que o analista do Banco Central (BC) é o assassino de Taguatinga. Se confirmado, ele passaria a ser um assassino em série de moradores de rua.

O crime ocorreu na manhã de 2 de março de 2006, em via pública da QNA 12/26 de Taguatinga, próximo à Praça do DI. Segundo as testemunhas, um homem alto, de cabelos grisalhos, aparentando entre 45 — idade de José do Amaral à época — e 50 anos se aproximou de um mendigo que dormia na rua e disparou duas vezes. Um tiro acertou a mão esquerda e o outro, o coração. O autor, bem vestido, fugiu a pé. De acordo com Julião, as coincidências entre os crimes não param na descrição do executor. “As armas têm o mesmo calibre e as vítimas eram moradoras de rua, mas a principal evidência contra ele (José) é o recente reconhecimento da testemunha”, afirmou.

Quatro pessoas presenciaram a morte na Praça do DI, mas apenas uma viu o autor dos disparos de frente. Na época, a testemunha fez um retrato falado para a polícia. O desenho remete aos traços físicos do morador da Asa Sul. “A semelhança chamou nossa atenção. O fato de em ambos os casos as vítimas serem moradores de rua foi a gota d’água para convocarmos a pessoa para o reconhecimento”, contou o chefe da Corvida. No último dia 9, diante de quatro pessoas colocadas uma ao lado da outra, a testemunha não hesitou ao ver o rosto do morador da 704 Sul.

Apesar dos “fortes indícios”, a polícia ressalta que são necessárias outras provas para incriminar o servidor, casado e pai de três filhos. “Temos que levantar outros pontos, como a motivação e por que ele teria se deslocado até Taguatinga”, observou Julião. A vítima foi Cleiton Mendes de Oliveira, 23 anos.

Preconceito
Um homem que não gosta de homossexuais e de moradores de rua. Assim o próprio José Cândido se definiu em entrevista à imprensa no dia de sua prisão, em 28 de abril. “Quando vi os dois mendigos se acariciando, fiquei indignado”, declarou ele, à época. Amigos e colegas de trabalho confirmam o perfil preconceituoso do analista do BC. Conforme apuração do Correio, ele já fez abaixo-assinado contra a passeata gay de Brasília e uma série de comentários sobre homossexuais com colegas de trabalho.

Na visão de Julião, caso confirmada a autoria do crime cometido há três anos, José pode ser considerado um assassino em série. “Nesses casos, geralmente, o homicida acredita que deve eliminar algo que o incomode sistematicamente”, comentou o chefe da Corvida. A chefe da 1ª DP (Asa Sul), Martha Vargas, responsável pelas investigações das mortes de Paulo de Oliveira, 35, e Raulhei Fernandes, 26, na Praça do Índio, pediu comedimento. “É preciso colher mais provas antes de tirar conclusões”, sugeriu. José Cândido teve a prisão preventiva decretada no último dia 17 e segue atrás das grades. Ele passa por tratamento contra depressão e transtorno bipolar e, questionado pelos investigadores sobre o crime de Taguatinga, negou qualquer envolvimento.


Lista de coincidências
Descrição do autor
O analista do Banco Central é alto, tem 48 anos, pele branca, cabelos grisalhos e costuma usar boné e andar bem vestido. Testemunhas da morte de 2006 afirmaram que o autor era alto, grisalho, aparentava entre 45 e 50 anos, estava bem vestido e usava boné. O retrato falado feito no caso da Praça do DI, há três anos, é semelhante à imagem de José.

O horário do crime
Ambos ocorreram pela manhã. Na Praça do Índio, às 6h40, e no DI, por volta das 8h.

As vítimas
As três pessoas mortas eram moradoras de rua e dormiam em praça pública.

A arma do crime
Nos dois casos foi usado um revólver calibre .38 de cano longo. Além da arma do crime de janeiro último, a polícia encontrou outro .38 na casa de José.

A execução
Na Praça do Índio, as duas vítimas morreram com tiros certeiros na cabeça. No DI, o morador de rua recebeu uma bala no coração. Para a polícia, os dois casos remetem a um autor que tenha habilidade com armas de fogo. José Cândido, amante confesso de armas de fogo, fez curso de tiro em 2007.

A fuga
A despreocupação do autor em se esconder chamou a atenção nos dois casos. Na Praça do Índio, o analista do Banco Central chegou de moto, sem capacete. Na praça do DI, o homicida estava a pé com a cabeça coberta apenas por um boné.

Em Taguatinga
Apesar de morar na 704 Sul, José Cândido disse em depoimento na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) que costumava andar de moto em outras cidades, como Taguatinga, região onde o mendigo acabou executado em 2006. Disse ainda que foi ao lugar fazer fotos para um curso de fotografia, feito em 2001.

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