O desemprego pode ser a principal face da crise econômica, mas não a única. Nos setores em que não houve corte de vagas, empregados de maior remuneração têm sido substituídos por outros mais jovens, que ganham menos. Segundo um levantamento feito pelo IPEA, a pedido do Estadão, em seis meses de crise, a taxa média mensal de rotatividade no mercado de carteira assinada chegou a 3,9%, ante 3,7% entre outubro de 2007 e março de 2008.
A troca de funcionários atingiu 23,4% dos 29,4 milhões de trabalhadores formais na iniciativa privada. Até setembro do ano passado, a análise dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrava que, para cada emprego com remuneração de até três salários mínimos eram contratados outros 25 com salários menores.
Isso permitia reduzir em 13,3% o custo de contratação. Agora, são abertas apenas duas vagas com a demissão de um trabalhador com esse perfil, e o custo para contratar cai 69,4%.
Para diminuir custos, empresas cortam remunerações mais altas e contratam pagando menos
O impacto da crise global no mercado de trabalho brasileiro foi além do corte no emprego. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, setores que não fecharam vagas fizeram uso da rotatividade para substituir na mesma ocupação um empregado de maior remuneração por outro de menor salário, como forma de reduzir custos com mão de obra.
Isso seria como se praticamente um em cada quatro brasileiros com carteira de trabalho assinada trocasse de emprego no período. Na realidade, a proporção é menor. Primeiro, porque muitos mudaram de emprego mais de uma vez. Segundo, porque parte das vagas foi ocupada por pessoas que ingressaram no mercado ou estavam desempregadas. Essa troca, contudo, na maioria dos casos motivada por demissão, implica em salários mais baixos.
"A rotatividade da mão de obra no trabalho é historicamente alta no Brasil, porque nossas empresas não enfrentam restrições para demitir e contratar", diz Pochmann.
Ele pondera que essa flexibilidade tem possibilitado que as empresas se ajustem nos períodos de crise, o que amortece o seu impacto no fechamento de vagas . Mas ressalta que o trabalhador que foi demitido e não conseguiu um novo emprego vai onerar os cofres públicos, porque depende do dinheiro do seguro desemprego, enquanto o que foi contratado para ocupar o seu antigo posto vai ganhar menos. "Para melhorar esse quadro, a economia precisa voltar a crescer", afirma.
Os setores que aumentaram a rotatividade não foram os que mais demitiram empregados formais. O setor terciário, que contempla o comércio e os serviços em geral, manteve o saldo positivo entre contratações e demissões, porém com aumento da rotatividade em relação ao período anterior. No comércio, a rotatividade média mensal subiu de 4,02% de outubro de 2007 a março de 2008, para 4,08%, entre outubro de 2008 e março deste ano.
SEM BENEFÍCIOS
O caixa de supermercado Vanilson Augusto de Oliveira, de 25 anos, sentiu isso no bolso. Há dois anos, perdeu o emprego numa loja de supermercado da capital paulista, onde ganhava cerca de R$ 800 por mês. Após mais de um ano desempregado, conseguiu uma vaga de auxiliar de padeiro, ganhando os mesmos R$ 800, mas não aguentou trabalhar de madrugada. No fim de 2008, foi contratado como caixa por uma rede de supermercados, porém com salário mensal de R$ 600.
Além de receber R$ 200 menos, Oliveira perdeu alguns benefícios que tinha nos empregos anteriores, como plano de saúde e tíquete refeição. "Estou satisfeito de estar empregado, mas o salário deixa a desejar", diz o caixa, que é separado e tem uma filha de quatro anos, que mora com a mãe.
Na indústria, os efeitos da crise levaram ao fechamento de 692,6 mil postos de trabalho entre outubro de 2008 e março deste ano. A rotatividade caiu de 3,26% para 3,02%.
Fonte: O Estadão

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