Pesquisa personalizada

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A espera do filho de José Milton

Primeira parte - O Combate
Segunda parte - Nasce o filho de José Milton

Tempos depois da sua prisão, Linda procurou-me para dizer que achava que estava grávida. Encaminhada ao médico, depois de todos os exames, foi confirmada a sua suspeita. Linda, apesar de ter perdido o companheiro antes de saber da gravidez, ficou exultante com a notícia e passou a sonhar com um menino para ter o mesmo nome do pai, José Milton.

Entramos em contato com sua família, no Rio, e Linda comunicou ao irmão, médico, que esperava um filho de seu companheiro “Cláudio”. O irmão passou a visitá-la, sempre que podia. A partir de janeiro de 1972, Linda ganhava companhia.

Eliane Potiguara Macedo Simões foi presa em 18 de janeiro de 1972, em seu “aparelho”. Na ocasião da prisão, ao tentar a fuga, quando pulava um muro, levou um tiro de raspão na cabeça e caiu de costas.
Não se sabe se, em conseqüência do tiro ou da queda, ficou sem o comando em um dos pés.

Casada com Reinaldo Guarany Simões,
começou a militar na ALN, juntamente com o marido. Em 1970, seu marido foi preso e ela buscou apoio da organização em São Paulo. Depois de vários contatos, foi morar com Lídia Guerlenda por um período e passou a fazer parte de um Grupo Tático Armado (GTA).

Quando presa, usava documentos falsos com os nomes de Jandira Pereira Carnaúba, Lúcia Albuquerque Vieira e Maria Teresa Conde Sandoval.
Seus codinomes eram Joana, Kátia e Estela. Contra ela pesavam as seguintes acusações: assaltos, levantamentos para assaltos e atentados, roubo de carro e seqüestro de um médico para atender Lídia Guerlenda, que perdera a mão, conforme narrado anteriormente.

Ao voltar de minhas férias, quando fui a Santa Maria visitar meus pais,
encontrei o DOI com rotina nova. Todos os dias, Eliane caminhava pelo pátio por longos períodos. Muitas vezes amparada pelas companheiras, outras por membros do DOI. As recomendações médicas eram seguidas religiosamente.

Darcy Toshico Miyaki, que usava documentos falsos em nome de Luciana Sayori Shindo e Áurea Tinoco Endo, e os codinomes de Cristina e Lia, foi presa no Rio de Janeiro.
Darcy viajou para Cuba em 1968, com documentos falsos em nome de Ordélia Ruiz. Nesse país, durante um ano e três meses, participou de um curso de guerrilha. Retornou ao Brasil em junho de 1971, sendo integrada ao Setor de Inteligência da ALN. Residia no “aparelho” de Lídia Guerlanda.

Darcy fora para o Rio, a mando de Yuri Xavier (Big), para cobrir um ponto com Élcio Pereira Fortes (Nelson ou Alfredo).
Foi presa, enquanto esperava o contato, na Rua Ataulfo de Paiva, no Leblon.

Recém-chegada, ainda não participara de nenhuma ação armada. Logo em seguida, foi levada pelos órgãos de segurança a São Paulo, onde foi encaminhada ao DOI.

Em 23 de fevereiro,
foi presa Mari Kamada, que usava os codinomes de Shiruca, Isa, Mira, Lúcia e Di. Contra ela existiam as seguintes acusações: atentado a bomba na Sears da Água Branca, panfletagem armada, roubo de placas de carros, levantamentos para assaltos e para o resgate de um preso que, ferido em uma ação, era constantemente levado a um hospital para tratamento. Mari, inicialmente, militava na ALN, passando depois a atuar no Molipo.

Em 27 de fevereiro do mesmo ano,
foi presa Márcia Aparecida do Amaral, também da ALN, que morava com Mari Kamada. Ela era acusada de tentativa de colocação de uma bomba no Mappin - grande loja de departamentos, no centro de São Paulo -, roubo de veículos, levantamentos para assaltos e atentados, panfletagem armada e pichações.

Márcia usava o codinome de Lila e não portava documentos falsos.

No dia 15 de abril de 1972
, foi presa Rioco Kayano, em Marabá, encaminhada inicialmente para o DOI de Brasília e a seguir para o DOI de São Paulo, área onde militava no PCdoB.

A respeito de sua prisão transcrevo o trecho abaixo, publicado no livro Guerrilha do Araguaia, escrito pelo coronel Aluísio Madruga de Moura e Souza:

“...Rioco Kayano ficou sob suspeita ao descer de um ônibus proveniente de Anápolis-GO. Rioco estava sendo trazida de São Paulo por Elza Monerat, militante componente da Comissão Executiva do PCdoB. Elza, comunista com experiência acumulada desde os idos de 1922, ao concluir que corria o risco de ser identificada durante a triagem que estava sendo feita nos passageiros do ônibus, aproveitando-se de sua idade até certo ponto avançada, entregou sua acompanhante, como se diz na gíria de “bandeja” quando informou, para aqueles que faziam a triagem, ter considerado muito estranha as atitudes daquela moça, Rioco Kayano, convencendo assim o coordenador da triagem que acabou por liberar aquela simpática senhora. E, ficando a desconfiança do que, sigilosamente, fora dito por Elza, Rioco foi horas depois presa em um hotel.”


PS:
Rioko Kaiano casou-se tempos depois com José Genoino, que atuava na Guerrilha do Araguaia

Pouco a pouco, Linda Tayah tinha com ela, na mesma cela, cinco militantes companheiras de subversão. Linda, Darcy, Eliane, Márcia, Mari e Rioco ficariam juntas sete meses,
no DOI, por opção - mais à frente verão porque por opção -, à espera do filho de José Milton.

O DOI aumentou o número de idas ao Hospital das Clínicas.
Era necessário levar Eliane para a fisioterapia, recomendada pelos médicos que a operaram, e Linda para o pré-natal. Uma equipe acompanhava cada uma, em dias e horários variados, para evitar possíveis tentativas de resgate.

Absorvido com os problemas do DOI,
pouco tempo me restava para a família.

Diligências, relatórios e reuniões me levavam a estar permanentemente em contato com os problemas que ocorriam no DOI, que iam
do risco de morte de meus subordinados, passando pela preocupação com a espera do filho de Linda, até a recuperação do pé de Eliane.

Os fins de semana, quando podia, eram dedicados à família. Ia com minha mulher e minha filha, de três anos, a um parque de diversões. Enquanto ela se divertia nos brinquedos, Joseíta atirava com espingarda de rolha e, como tinha boa pontaria, ganhava de brinde muitos maços de cigarros. Na volta para casa, sempre preocupado,
passava pelo DOI para ver o andamento do serviço.

A nossa ida até lá era ótima para nossa filha. Ela brincava com o Cabeção e a Neguinha, cachorros mascotes do Destacamento, corria pelo pátio, passava de colo em colo.

Para os meus comandados, a presença delas naquele órgão era um absurdo,
pois eu estava contrariando as medidas de segurança. Quando chegávamos, alguns presos estavam no pátio tomando banho de sol. Eles poderiam informar às suas organizações que aos domingos eu costumava ir ao DOI acompanhado da família. Este era um dado muito importante, se houvesse interesse em me seqüestrar.

Em um desses fins de semana, quando chegamos ao DOI, Linda, Darcy, Márcia, Mari e Rioco tomavam banho de sol e escutavam música no pátio. Eliane fazia seus exercícios diários, amparada por um integrante do Destacamento. Eu havia recebido os resultados dos exames de Linda e comentara com minha mulher que uma das presas estava grávida.
Joseíta, como sempre sentimental e romântica, se emocionou.

Imaginava Linda, sofrendo com a morte do companheiro e sem o apoio da família que morava no Rio. Há dias, insistia comigo para que a deixasse falar com ela. Eu relutava, apesar de que, no fundo, pensasse ser uma coisa boa.
Nesse dia, ante a insistência dela, apresentei-a, juntamente com minha filha, às seis presas.

Tínhamos no carro muitos maços de cigarro. Minha mulher ofereceu-os a elas, que, no princípio, relutaram em aceitar. Conversaram um pouco e fomos embora. Em outro fim de semana, a cena se repetiria. Assim, aos poucos, foi-se iniciando um relacionamento, no princípio frio e depois muito cordial.
Nas conversas não tratavam de política ou de ideologia. Apenas havia um sentimento de apoio como se fossem vizinhas, separadas por um muro que não as impedia de dialogar.

A presença de minha mulher e de minha filha se tornou uma rotina para aquelas presas, não só aos domingos. Contavam com elas e, no horário do banho de sol, passeavam juntas pelo pátio. Essas moças não somente aceitavam como reclamavam a presença delas. Começaram as aulas de tricô, para fazer o enxoval do filho de Linda, e as aulas de crochê, em que eram feitas blusas para uso das moças. Enquanto isso, minha mulher trabalhava com elas, ensinando-lhes também tapeçaria. As outras, que não gostavam de trabalhos manuais, brincavam com minha filha
. Ela era o ponto alto: gordinha, bonitinha, correndo pelo pátio, preenchendo as horas solitárias daquelas jovens.

Aos poucos, confiança adquirida de ambos os lados, respeitadas as medidas de segurança, começaram as confidências. Linda, falando do seu marido José Milton, do seu “aparelho” simples, mas com conforto, das cortinas de xadrez nas janelas, enfim, do seu lar. Eliane, lembrando, cheia de saudades, do marido exilado no Chile, trocado pelo embaixador suíço, do qual não tinha notícias. Darcy, de sua vida de dificuldades quando fora fazer o curso em Cuba. Mari, Márcia e Rioco de suas famílias e de seus planos para o futuro.

A respeito da narração acima, Ivan Seixas, filho de Joaquim Alencar Seixas,
um dos assassinos de Boilesen, entre outros absurdos, em entrevista a O Nacional, de 01/04/1987, declarou que eu usava os serviços de minha mulher para cuidar das feridas e ajudar as presas torturadas a se recuperarem mais rapidamente. Segundo ele, minha mulher, além da fisioterapia, extraía informações que os interrogadores não haviam conseguido.

Afirmações típicas de uma mente deformada pela ideologia.
Pela causa tudo, até absurdos inverossímeis desse gênero. Nossa empregada preparava aos domingos alguma coisa gostosa, uma torta, um bolo e, às vezes, salgadinhos. Assim, o tempo ia passando e a barriga de Linda crescendo.

Todas já tinham sido interrogadas.
Já haviam passado pelo DOPS. Era chegada a hora de mandá-las para o Presídio Tiradentes, onde aguardariam o julgamento, rotina normal para todos os presos. Linda, no entanto, pediu que a mantivéssemos no DOI, pois tinha certeza de que ali continuaria a ser bem tratada, a fazer o seu pré-natal. Sabia que no DOI teria toda a assistência até o momento do nascimento do filho.

Com a autorização de meus superiores, ela poderia permanecer até o nascimento da criança. As outras iriam para o presídio. Entretanto, Eliane, Darci, Mari, Márcia e Rioco
pediram para continuar fazendo companhia a Linda.

Levando em conta mais o coração do que a razão, contrariando alguns de meus subordinados, levei novamente a situação à consideração de meus chefes imediatos. Com a permissão deles,
aquelas seis presas permaneceram nas dependências do DOI até o nascimento da criança, quando então foram transferidas para o presídio.

Se o ambiente do DOI fosse, como dizem alguns, em livros e em entrevistas, onde os gritos atormentavam os presos
, onde cadáveres eram vistos pelo pátio, por que essas presas preferiram permanecer no DOI até o nascimento da criança?

O
relacionamento delas com pessoal do DOI era cada vez melhor. Comemorávamos seus aniversários e elas participavam de nossas comemorações.

Muitas vezes, almoçavam junto conosco no refeitório. Linda, além do que recebia dos seus familiares, preparava, junto com as outras, o enxoval e nós, os integrantes do DOI,
fizemos uma lista e compramos um presente para a criança.

Finalmente chegara o dia. Linda teve, no Hospital das Clínicas, o seu filho. Era um menino moreno e forte. Mandamos flores, fomos visitá-la e partilhamos da sua felicidade.

Nós, os “assassinos”, “os estupradores de mulheres”; nós, que “obrigávamos as presas a atos libidinosos”, que “arrancávamos as unhas dos presos”, que “torturávamos os pais na frente de criancinhas”, que “provocávamos abortos em mulheres”; nós, os “monstros”, havíamos, durante oito meses, compartilhado da espera do filho de Linda, dando-lhe toda a assistência pré-natal, e participado do tratamento de Eliane.
Nós tínhamos infringido normas de segurança e rotinas do Destacamento para manter juntas aquelas seis jovens que o destino colocara em nossas mãos e que preferiram ficar no DOI até o nascimento da criança.

Matéria extraída do livro "A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasill conheça" de Carlos Alberto Brilhante Ustra - Autorizada a divulgação desde que mantido o texto na íntegra, o nome do site e o do autor.
Site: a verdade sufocada

Próximo capítulo: O Revanchismo

0 comentários: