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quarta-feira, 6 de maio de 2009

A história de um combate

Um Combate - 05/12/1971 -

Transcrito do site: A Verdade Sufocada

Por: Carlos Alberto Brilhante Ustra:


No dia 5 de dezembro de 1971, um domingo, eu descansava em minha residência, conversando com o “Velho” Expedito, ouvindo os seus casos da época em que trabalhava como segurança do presidente Getúlio Vargas. Os outros três membros da equipe que dava proteção a mim e a minha família divertiam-se com as aventuras do “Velho”. Ele era um policial experimentado. Já fora da Polícia Federal, da Guarda Civil e agora era da Polícia Militar de São Paulo. Eu confiava demais no “Velho”. Era um “cão de guarda”.
De longe “farejava” e sentia a presença de tudo que fosse estranho. Um grande policial e um devotado amigo que sempre se expôs para nos proteger. Pedro Expedito de Morais morreu, já aposentado, como primeiro sargento da PM de São Paulo.

Eram mais ou menos 16 horas, quando o telefone tocou. O oficial de dia pedia a minha presença urgente. Acabara de haver um tiroteio na Rua Cardoso de Almeida, no bairro Sumaré, entre a Polícia Militar e três terroristas. Na reunião da Comunidade de Informações, na última quarta-feira, eu solicitara ao chefe da 2ª Seção da Polícia Militar que colocasse barreiras para controle de trânsito nos prováveis locais onde os terroristas mais transitavam.

Conforme combinado, após um estudo da Seção de Análise do DOI, escolhemos alguns locais críticos e indicamos as zonas de maior atuação terrorista para que a Polícia Militar montasse as barreiras.

O tiroteio que acabara de ocorrer era fruto do atendimento da Polícia Militar ao nosso pedido e, principalmente, de sua eficiência.

Imediatamente me dirigi ao DOI, tendo ao meu lado, com a metralhadora sempre pronta, o “Velho” Expedito e os outros três membros da equipe. Em pouco tempo me inteirei dos fatos. José Milton Barbosa (Cláudio, Castro ou Rafael), ex-militante do Partido Comunista Brasileiro, sargento expulso do Exército, vinha com sua companheira Linda Tayah (Bia ou Miriam) e Gelson Reicher (Marcos), quando se depararam com a barreira da PM. No carro, transportavam bombas e explosivos, além de armas e munições que usavam em ações e em treinamentos realizados em locais afastados.

Desses treinamentos, participavam com freqüência: Lídia Guerlenda, estudante de Medicina e integrante do Grupo Tático Armado da ALN; Gelson Reicher, também universitário, recém-chegado de Cuba, onde fizera curso de guerrilha; José Milton Barbosa e Linda Tayah, entre outros. Vinham preocupados. No dia anterior, o grupo tivera um problema sério no treinamento. Lídia Guerlenda teve a mão decepada ao manusear, perigosamente, uma bomba de fabricação caseira que explodiu antes de ser arremessada.

José Milton, Linda Tayah e Gelson, todos de um Grupo Tático Armado (GTA) da ALN, apanhados de surpresa, abandonaram o carro. José Milton, com uma metralhadora INA, Linda e Gelson, cada um com um revólver .38, invadiram uma casa e fizeram os moradores como reféns. Gelson Reicher fugiu do cerco polícial pelos fundos da casa. José Milton e Linda, pulando muros, em desabalada carreira e sempre atirando, tentaram a fuga. O tiroteio foi intenso. No final, José Milton estava morto e Linda Tayah, ferida na cabeça, foi presa. O soldado PM Alcides Rodrigues de Souza também foi ferido no braço e na coxa.

José Milton Barbosa usava documentos falsos com o nome de Alexandre Rodrigues de Miranda. Seus codinomes eram Cláudio, Castro, Rafael, Camilo, Rui, Thomaz, Zé, Matos e Alberto.

José Milton Barbosa participou, dentre outras ações, de 8 assaltos a bancos, 5 assaltos a supermercados, 4 assaltos a estabelecimentos diversos, 5 assaltos a carros transportadores de valores e 2 assaltos a indústrias, além dos seguintes atos terroristas:

- Seqüestro do embaixador da Alemanha, quando foi assassinado o agente Irlando de Sousa Régis e feridos gravemente o policial federal Luís Antônio Sampaio e o agente José Banharo da Silva;

- “Justiçamento” do militante Marcio Leite Toledo;

- “Justiçamento” do industrial Henning Albert Boilesen;

- Colocação de bomba na Supergel; e

- Atentado contra a ponte do Jaguaré.

Linda estava em estado de choque. Além de perder o companheiro, estava ferida. Um tiro a atingira na cabeça, tirando-lhe um pequeno pedaço do crânio, sem, no entanto, atingir o cérebro. Imediatamente providenciamos sua internação no Hospital das Clínicas, onde foi operada com êxito.

Após sua alta, considerando a possibilidade de uma tentativa de resgate por militantes da ALN, Linda foi levada para o DOI, onde convalesceu, já que seu estado era bom. A permanência no HC não era conveniente para a nossa equipe, que lá se mantinha de prontidão. Seu efetivo era insuficiente para impedir uma ação violenta por parte dos terroristas que tentassem resgatá-la. Uma ação desse tipo poria em risco a vida de inocentes.

Linda Tayah usava documentos falsos com os nomes de Sueli Nunes e Nair Fava. Seu codinome mais usado era Bia.

Entrou para a militância quando se enamorou de José Milton. Iniciou seu treinamento armado, em locais desertos, com Aton Fon Filho e o próprio José Milton. Aos poucos, Linda foi se adaptando à vida de militante de uma organização subversiva. Passou a participar de “expropriações” (roubos) de carros, juntamente com Aton.

Linda foi presa no Rio por duas vezes, mas, omitindo o que sabia, sempre conseguia ser solta. Naquela época, pouco se conhecia a respeito das organizações subversivas e como agiam, segundo palavras da própria Linda. No início de 1970, Linda Tayah e José Milton, “queimados” no Rio de Janeiro, mudaram-se para São Paulo e passaram a viver em “aparelhos”, na clandestinidade. Seriam mais úteis para a organização em São Paulo, onde ainda não haviam sido “levantados”.

Linda, inclusive, deixou de manter contatocom a família, que desconhecia o seu paradeiro. Em São Paulo, atuavam com Yuri Xavier Pereira (Big), Antônio Sérgio de Matos (Uns e Outros), Lídia Guerlenda (Supra), Eliane Potiguara Macedo Simões (Joana), Gelson Reicher (Marcos) e outros.Contra ela pesavam acusações de assaltos, roubos de carros e levantamentos para futuras ações. Linda era uma das militantes que, com José Milton e Gelson Reicher, treinavam lançamento de bombas e granadas com Lídia Guerlenda.

Atuaram nessa cidade por um ano, quando foi presa em dezembro de 1971.

Matéria extraída do livro "A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasill conheça" de Carlos Alberto Brilhante Ustra

Autorizada a divulgação desde que mantido o texto na íntegra, o nome do site e o do autor.

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