O revanchismo e as indenizações - última parte
Autorizada a divulgação desde que mantido o texto na íntegra, o nome do site e o do autor.
Primeira parte - O Combate - publicada em 05/05/2009
Segunda parte - Nasce o filho de José Milton - publicada em 08/05/2009
Terceira parte - O revanchismo e as indenizações
No dia 05/09/1972, oito dias depois do nascimento do filho de Linda e José Milton, as presas que acompanharam a espera do bebê foram apresentadas ao Presídio Tiradentes, com o seguinte ofício:
“Ministério do Exército - II Exército - Quartel General
CODI/II Ex/DOI - São Paulo - SP - Ofício Nº 574/72-E/2- DOI”. Em 5 de setembro de 1972 - Do Chefe da 2ª Sec/II Ex
- Ao Senhor Dir de Recolhimento de Presos Tiradentes.
Assunto: Solicitação.
1 O Exmo Sr Gen Chefe do Estado-Maior do II Exército, Chefe do Centro de Operações de Defesa Interna, incumbiu-me de conforme entendimentos verbais mantidos entre o Comandante do DOI/CODI/II Ex e esse Diretor, solicitar-vos que as presas abaixo, ora apresentadas, sejam recolhidas em uma mesma cela, possibilitando, dessa forma, que seja por elas mesmas prestada assistência à Linda Tayah, a qual se encontra, ainda, em estado de convalescença, por ter dado à luz recentemente:
a. Rioco Kayano
b. Márcia Aparecida do Amaral
c. Mari Kamada
d. Eliane Potiguara Macedo Simões
e. Darcy Toshico Miyaki
f. Linda Tayah.
2 Na oportunidade, apresento-vos protestos de consideração.
(Ass) Flávio Hugo de Lima Rocha - Cel - Chefe da 2ª Séc/II Exército - Por Delegação: Carlos Alberto Brilhante Ustra - Maj - Cmt do Destacamento de Operações de Informações.”
Durante um período, enquanto houvesse beneficio para a criança - amamentação, contato físico com a mãe -, o bebê foi mantido com elas.
Observações: Os inquéritos e ofícios foram arquivados nos processos das presas.
Quando foi entrevistada por Luiz Maklouf Carvalho, para o seu livro Mulheres que foram à luta armada, publicado em 1998, Linda omitiu todo tratamento que teve no DOI.
Linda, além de omitir, mentiu quando afirmou que só não abortou seu filho durante as torturas, porque tinha um útero de ferro, e vai mais longe. Na mesma entrevista declarou: “Ele se sentia orgulhoso, achava que tinha cuidado de mim” (referindo-se a mim).
Será que no íntimo ela não reconhece o quanto fizemos por ela?
Linda Tayah ainda declarou a Luiz Maklouf Carvalho que deixou de ser interrogada no terceiro mês de gravidez, mas que permaneceu na OBAN porque o inquérito estava em andamento. Não é verdade. O que acontecia, normalmente, era o encaminhamento do preso ao DOPS, depois de ser ouvido no interrogatório preliminar no DOI. Portanto, após serem interrogadas, tanto Linda Tayah, como as outras presas, seriam enviadas ao DOPS, onde era aberto o inquérito e, se fosse o caso, seriam recolhidas ao Presídio Tiradentes para aguardar o julgamento. Elas, como já afirmei, pediram para permanecer no DOI por saberem que lá teriam melhor tratamento.
"Antes de a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos analisar o caso , praticamente a única informação que constava no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos era que José Milton fora morto em tiroteio no Bairro do Sumaré, ao lado do Cemitério do Araçá, na data citada, sendo enterrado como indigente em Perus, sob o nome falso de Hélio José da Silva" - Direito à Memória e à Verdade - livro lançado, em 2007, oficialmente, no Palácio do Planalto, pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, com pompa e circunstância.
Mas, ao longo do tempo, as versões sobre a morte do companheiro de Linda foram sendo modificadas de acordo com as conveniências e o revanchismo.
1 - Em 1971, no DOI, durante o interrogatório preliminar, ela declarou:
“Só sei que o “Rafael” não conseguiu disparar a metralhadora, assim como eu não consegui disparar o revólver . O policial se lançou no cano da metralhadora e se lançou no meu revólver. Não sei como ele conseguiu, mas se lançou. Sei que o “Rafael” foi alvejado primeiro do que eu, morreu no local mesmo, quase que instantaneamente e eu fiquei ferida na cabeça.”
Observação: Rafael era um dos codinomes de José Milton -
(Este depoimento foi arquivado no inquérito.)
2 - Em 1972, quando ouvida na 2ª Auditoria da Circunscrição Judiciária Militar, na presença do Juiz Auditor, do Conselho Permanente de Justiça, do Procurador de Justiça e de seu Advogado de Defesa, ela declarou:
“Viajava no interior de um automóvel com seu companheiro José Milton Barbosa, pela Rua Cardoso de Almeida, quando se viram diante de uma “operação arrastão”, da polícia. José Milton e “Marcos” estavam armados, logo saltaram do carro e travaram tiroteio com a polícia. Aliás, diz que só viu José Milton acionar o gatilho de uma metralhadora, mas esta não funcionou, e não sabe em que termos houve tiroteio, pois o certo é que José Milton correu e logo foi atingido. A interroganda correu atrás dele, e o viu morto, sendo também atingida, na cabeça, perdendo os sentidos.”
3 - Em 1998, no livro Mulheres que foram à luta armada, de Luiz Maklouf Carvalho, ela afirma:
“... A Ina do Zé falhou. Ele tirou a pistola. Me acertaram um tiro. Quando eu olhei, o Zé estava debruçado no volante, com os olhos entreabertos. Desmaiei, voltei a mim, peguei um cigarro na japona dele e ele saiu todo manchado de sangue.”
Apesar da própria Linda afirmar (1998) que José estava de japona, o livro Direito à Memória e à Verdade afirma que: " o exame da foto encontrada nos arquivos do Dops /SP, mostra que, em pleno verão, José Milton trajava roupa pesada, com grossa japona de lã e calça de veludo, tendo o pescoço suspeitamente envolto em lenço ou cachecol com uma possivel intenção de acobertar sinais de violência."
4 - Segundo o livro Dos filhos deste solo, de Nilmário Miranda, após a aprovação da Lei 9.140/95 - que indenizava mortos e desaparecidos políticos que estavam sob a guarda do Estado - e a constituição da Comissão Especial, que julgaria os pedidos de indenização, foi localizada Linda Tayah e seu filho. Ainda, segundo o livro, Linda fez, na ocasião, as seguintes declarações:
“... Quando voltei a mim, vi José Milton sentado ao volante desmaiado, não percebendo nele nenhum ferimento. ( e o cigarro ensanguentado, declarado em 1998 ?) Puseram-nos em duas peruas diferentes e nos levaram à Oban, para salas diferentes. Eu estava lúcida, embora em estado de choque...” ( mas não estava sem sentidos na declaração da Auditoria Militar, em 1972?)
Depois de tantas versões dadas por Linda e, depois de discutirem até se o José Milton estava ou não de japona no momento da morte, fato confirmado por Linda no livro Mulheres que foram à luta armada, a relatora na Comissão Especial, Suzana Keniger Lisboa, para decidir sobre a indenização, escolheu a última versão de Linda e declarou, segundo o mesmo livro de Nilmário:
“... que é impossível precisar em que estado ele chegou à Oban, mas é certo que de lá saiu morto.”
“Voto pela inclusão do nome de José Milton Barbosa por ter sido assassinado dentro da Oban, antro maior dos torturadores de São Paulo.”
A indenização foi concedida, sem que analisassem tantas contradições.
Site: A Verdade Sufocada - - Extraído do livro "A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasill conheça" de Carlos Alberto Brilhante Ustra

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