Pesquisa personalizada

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Simonal e o filme

Filme sobre Simonal: entre torturadores e torturados

O documentário sobre Wilson Simonal é um filme obrigatório — com a vantagem de que não é chato.

“Wilson Simonal — Ninguém sabe o duro que dei” tem momentos tristes e outros divertidos para descrever a ascensão e a queda daquele que foi um de nossos grandes cantores e terminou a vida marginalizado.

A anistia esqueceu Simonal, escreveu Mário Prata, num artigo que o filme menciona mas poderia ter sido melhor explorado. O documentário tem muitas qualidades. Ensina muito sobre um grande talento da música brasileira e discute nossas atitudes éticas diante da mentira e da injustiça. Também serve para discutir as responsabilidades dos indivíduos nas grandes correntezas da história.

Titular de um prestígio e uma popularidade difícil de imaginar nos dias de hoje, o próprio Simonal não era nenhum santo — e o documentário mostra isso. Narra como ele utilizou seu prestígio para mobilizar agentes do DOPS para torturar um antigo contador que decidira processá-lo na justiça trabalhista, a quem acusou de desfalque.

Quando o caso veio a público, e sua primeira acusação não se sustentou, Simonal lançou uma segunda versão, de que o cidadão era um terrorista que ameaçava a família. Outra mentira.

Na época, O Pasquim — um dos principais jornais de resistência à ditadura — passou a fazar denúncias sistemáticas contra Simonal, para apontá-lo como dedo-duro. Outros órgãos de imprensa foram atrás. Com o tempo, boa parte dos artistas romperam com ele e se recusavam a fazer shows a seu lado. Simonal não conseguia apresentar-se na TV, seus discos sairam de catálogo. Virou uma não-pessoa.

Vamos combinar que nem tudo estava errado nessa acusação. Simonal, efetivamente, batera às portas do DOPS e fez aquilo que os alcaguetes fazem. O fato da denúncia ter sido fabricada não diminui sua responsabilidade — muitas vítimas do regime foram presos, torturadas e até mortas com base em acusações erradas e ou falsas. Simonal fez duas acusações falsas contra um inocente. Não é pouco.

E é a tortura que está na origem da tragédia que jogou Simonal, ainda vivo, naquilo que o Pasquim chamava de lata de lixo da história, imitando de forma bem-humorada os manifestos stalinistas. A partir de determinado momento, a tortura tornou-se, digamos assim, um instrumento permanente do trabalho do regime — e foi por ela que Simonal entrou para a história, destruiu a carreira e a própria vida.

Percorria emissoras com um atestado de que não era agente da polícia política do regime. Não era fácil acreditar, já que as autoridades não costumam identificar quem faz o serviço sujo — e era disso que Simonal era acusado. Ele nunca esclareceu inteiramente o que tinha acontecido naqueles dias — o que poderia ter ajudado a esclarecer o que não tinha acontecido.

O filme tem razão em denunciar a postura de artistas e amigos que abandonaram Simonal quando a vida ficou dificil. Muitos depoimentos dizem que o sucesso de um negro, filho de uma empregada doméstica, causava inveja em muita gente.

O documentário ouve Ziraldo e Jaguar, estrelas do Pasquim, que dão longos depoimentos e, sempre de forma simpática e correta, são levados a falar das denúncias. Está certo. Simonal “foi” dedo-duro mas não “era” dedo-duro. Mandou torturar mas não era torturador. Há uma sutileza aí. Os autores dessa acusação nunca a corrigiram.

Eu acho que poderiam ter feito isso. A imprensa deveria ter investigado uma acusação que publicou e repetiu com freqüencia ao longo dos anos, sem conferir o que escrevia e dizia — o que é errado e vergonhoso. Não era fácil fazer esse tipo de apuração sob o regime militar mas teria sido possível colocar tudo em pratos limpos após a democratização.

Mas é preciso saber do que estamos falando. A origem da tragédia que devorou Wilson Simonal não é artística nem envolve comportamento das pessoas. Não é culpa da imprensa nem de seus ex-amigos. É política.

Eu acho escandaloso que um sujeito tenha pedido a seus amigos do porão que torturassem uma pessoa.

Imaginem este diálogo. O sujeito liga para o delegado e pede:
– Dá uma torturada num canalha que olhou demais para minha mulher hoje…
Sem bronca, meu chapa…Até mais tarde.
A gente conversa no chope…

Simonal falava do país da pilantragem e tinha razão — até a tortura fazia parte disso.

Minha crítica é que o documentário não tenha se debruçado sobre alguns personagens principais: cadê o delegado que mandou torturar um cidadão apenas porque um cantor famoso lhe pediu?

O que aconteceu com os investigadores que aplicaram choques elétricos e ameaçaram a família da vítima?

O que fizeram seus superiores, quando o caso se transformou num escândalo?

Não foi possível ouvir um secretário de segurança? Um ministro? Um político da Arena?

São perguntas que me fiz, ainda emocionado, quando voltava para casa, com a voz poderosa de Simonal em meus ouvidos.

As respostas ajudariam a enriquecer nossa memória e entender melhor rostos e sombras de um passado que desaparece por encanto sempre que se chega perto dos porões da ditadura.

Por: Paulo Moreira Leite

[comentário: este artigo está sendo transcrito como uma forma de lembrar Wilson Simonal e a transcrição não significa endosso as posições expostas pelo autor.]

0 comentários: