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terça-feira, 2 de junho de 2009

A aberração coreana

O querido líder

O ditador norte-coreano Kim Jong-il é apelidado pelo povo do país, que controla de forma absoluta, por querido líder. Ao contrário do que aparenta, ou do que nós ocidentais interpretamos, é inteligente e perspicaz. Transformou um país pobre e sem oportunidades em um destaque ameaçador.

Jong-il é filho do stalinista Kim il-Sung, que fundou o atual regime e governou a Coreia do Norte com mão de ferro, de 1948 até sua morte, em 1994. Mesmo hoje, 15 anos depois de sua morte, é reverenciado como o “grande líder”. Segundo a Constituição do país, il-Sung é oficialmente o “presidente eterno da Coreia do Norte”.

Para entendermos bem o imbróglio que envolve as duas Coreias, a do Sul e a do Norte, devemos voltar ao ano de 1945, que marca a expulsão dos japoneses da península coreana e sua invasão por tropas dos Estados Unidos e da União Soviética. Os soviéticos estabeleceram-se ao norte e os estadunidenses ao sul. Em 25 de junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul e deu início a uma guerra, envolvendo China e União Soviética, de um lado, e os EUA e aliados, do outro. Em 27 de julho de 1953, foi assinado um armistício entre as duas partes, criando uma zona desmilitarizada entre os dois países, em vigor até os dias de hoje.

A atual crise coreana começou mesmo quando, em 2002, Bush incluiu a Coreia do Norte no eixo do mal. Isso fez com que os asiáticos retirassem o apoio ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), do qual eram signatários, e gerou temores de uma guerra atômica. No mesmo ano, Pyongyang reativou o seu reator nuclear, em Yongbyon, e o governo expulsou do país dois monitores nucleares das Nações Unidas.

A situação geopolítica da Coreia do Norte é outro importante complicador dessa crise, pois o país tem fronteiras com China, Rússia, Coreia do Sul e está cara a cara com o Japão. A Coreia do Sul e o Japão são fiéis aliados dos americanos.

Desta vez porém, até a China, velha amiga de Jong-il, condenou o teste subterrâneo de uma bomba nuclear norte-coreana que pode ter a potência da bomba que os Estados Unidos despejaram sobre Hiroshima e Nagasaki, na Segunda Guerra Mundial — entre 10 e 20 quilotons. A explosão gerou tremor de 4,5 graus na escala Richter, sentido até na cidade chinesa de Uanji, situada na fronteira com a Coreia do Norte.

Vários foguetes foram disparados também pelo governo norte-coreano, uma demonstração de que já tem a bomba e seus transportadores com a capacidade de alcançarem, com certeza, o Japão e, talvez, até alvos mais distantes.

Esse é um teste duro para o jovem governo de Barack Obama. Uma oportunidade para o mundo observar como reagirá o presidente dos Estados Unidos, recentemente eleito, e sua secretária de Estado, Hillary Clinton. A situação é quente e não há a menor possibilidade de ficar em cima do muro. A saída poderá estar em um árduo trabalho diplomático que procure o diálogo com Pyongyang, buscando um recuo de sua política beligerante em troca de maior participação do país, tanto política quanto econômica, na economia ocidental. O isolamento, capitaneado por sanções econômicas, já se mostrou ineficaz, aguçando, ainda mais, a agressividade da Coreia do Norte.

Já no Brasil, que se preparava para abrir a primeira embaixada de um país sul-americano em território norte-coreano, a reação foi rápida. Foi suspenso o envio do embaixador, Arnaldo Carrilho, e o Itamaraty fez veemente condenação do teste nuclear, ameaçando rever as perspectivas de estreitamento das relações.

As peças estão no tabuleiro. Depende das próximas movimentações no sofisticado jogo internacional a busca da paz ou, na pior hipótese, da guerra que só traz prejuízos e sofrimentos.

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