O último exilado.
Marcel Domingos Solimeo - 8/6/2009 - 20h55
Com grande tristeza, li no Estadão de domingo que o fazendeiro Adolfo Esbel, de 82 anos, juntamente com sua mulher, Zilda Ribeiro, deixou sua propriedade e a terra onde nasceu e criou 16 filhos – ele foi o último dos não- índios a deixar a área da Reserva
Raposa Serra do Sol. Qual foi o crime que Esbel cometeu para ter sua propriedade confiscada e ser expulso da região, como o último exilado de uma área que, imaginava ele e pensávamos nós, era de todos os brasileiros?
Seu crime, punido de forma drástica pelo governo e pela Justiça, foi o de ser não-índio, um cidadão de segunda classe, que não pode viver no território da nova "nação" que foi criada no País por conta de pressões de organizações internacionais e de grupos financiados do exterior.
Qual será a sensação dos senhores ministros do Supremo Tribunal Federal que votaram a favor da expulsão de cidadãos humildes de seus lares, quando se acreditava que sua função era garantir os direitos de todos? Será que avaliaram corretamente as implicações de sua decisão sobre os direitos individuais? Ou já estamos em um estágio tão avançado de socialização que o direito coletivo prevalece sobre as garantias individuais, mesmo aquelas claramente asseguradas pela Constituição?
Criou-se uma falsa imagem de que se tratava de uma disputa entre os "pobres" índios e os "poderosos" arrozeiros, quando, na verdade, havia muita gente humilde atingida pela decisão.
Ao validar a demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol de forma contínua, dando a cerca de 19 mil índios uma área de 1,7 milhões de hectares, o STF não levou em consideração os direitos de proprietários instalados há décadas na região, e nem o de cidadania de muitas pessoas nascidas nessas terras – e que, apesar de brasileiros, foram obrigados a partir, como se fossem invasores estrangeiros que devessem ser expulsos.
A política do governo Lula tem sido procurar criar divisões entre os brasileiros, seja com essa política de segregação de índios – que há muito convivem com os brancos – que atende a pressões externas, ou com a criação indiscriminada e injustificada de áreas para "autodenominados" quilombolas, ou com o regime de cotas nas Universidades e, ainda, com o estímulo aos invasores de terras.
Procura substituir (ou complementar) a luta de classes, com a divisão da sociedade em raças, ou grupos ditos minoritários, sempre confrontando os direitos dos demais. A igualdade de direitos constante da Constituição sofre a mesma relativização que vem sendo aplicada em relação ao direito de propriedade, o que nos leva a lembrar George Orwell, em seu A Revolução dos Bichos, no qual "todos são iguais, mas alguns são mais iguais".
Com essa decisão do Supremo sobre a Reserva, quando apenas os "direitos" dos índios foram levados em consideração, preocupa saber se o Judiciário continuará a ser o guardião do direito de propriedade e dos direitos individuais, ou se isso vai depender de outros fatores, como "a voz das ruas", as pressões externas ou governamentais. Existem ainda diversas áreas a serem demarcadas, no geral em regiões mais povoadas, o que poderá gerar novos conflitos entre os "direitos" dos índios e os dos demais.
O fato de que existam inúmeras propriedades invadidas no Pará e em outras regiões do Brasil, algumas há muito tempo – mesmo depois de terem obtido a reintegração de posse na Justiça, sem que haja qualquer reação do Judiciário para fazer cumprir as determinações – contrasta com o empenho na desocupação da área da Reserva Raposa do Sol.
Também a ação da Polícia Federal, deslocando um grande contingente de policiais fortemente armados, como se fosse uma operação de guerra, não se repete para impedir a violência contra propriedades particulares, cujos direitos são assegurados pela Constituição, mas não são garantidos pelo Estado. Se as decisões da Justiça não são cumpridas, não representam uma garantia efetiva dos direitos dos cidadãos.
Marcel Domingos Solimeo é diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo

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