Pesquisa personalizada

sábado, 27 de junho de 2009

Curió: de águia a papagaio

Guerrilha do Araguaia
Memórias do extermínio
As sangrentas lembranças da guerrilha do Araguaia, o controvertido combate entre militantes do PCdoB e oficiais do Exército nas selvas do Pará, no auge da ditadura, insistem em atormentar a memória do país. Transcorridos 35 anos, muito se sabe e pouco se admite sobre esse triste episódio. Sabe-se agora que o Exército perseguiu e executou os guerrilheiros, mesmo quando eles já não ofereciam mais qualquer perigo aos militares. As Forças Armadas, porém, negam oficialmente até hoje a existência dessa campanha de extermínio, ignorando o direito dos familiares dos guerrilheiros de conhecer a verdade sobre o que se passou naqueles tempos sombrios.

Na semana passada, o oficial aposentado do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o Major Curió, um dos militares responsáveis pela caça na selva, admitiu, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, que as forças armadas executaram ao menos 41 guerrilheiros. É a primeira vez que um oficial do Exército confirma a matança. O depoimento de Curió joga luz nas circunstâncias em que se deram as execuções e as torturas dos militantes, mas ainda não esclarece por completo as circunstâncias de cada um dos assassinatos.

VEJA entrevistou um militar que integrou a equipe de Curió - e participou da execução de ao menos três guerrilheiros. Esse experiente militar, que pertencia ao quadro de inteligência das Forças Armadas e tinha treinamento em combate na selva, aceitou contar em detalhes o que fez, contanto que seu nome permanecesse no anonimato. Até hoje, nem mesmo sua família sabe que ele participou da caça aos guerrilheiros.

Ele chegou ao Pará para participar da operação Marajoara, a última etapa de combate à guerrilha. "A ordem era não deixar ninguém sair de lá vivo", rememora o militar. "Era uma missão e cumprimos o que foi determinado."

Recorrendo a uma identidade falsa, o militar virou funcionário público em Marabá, cidade próxima à região do combate, e se infiltrou junto à população civil para obter informações sobre a guerrilha. Tempos depois, ele passou a trabalhar na "Casa Azul", um armazém do governo localizado nos arredores de Marabá, onde o Exército mantinha presos e torturava os guerrilheiros capturados. A ordem, lembra o militar, era extrair o máximo de informações dos presos, voluntariamente e, quase sempre, por meio de torturas, Depois, assassiná-los. Tudo feito clandestinamente.[esse pessoal que de repente se tornou extremamente loquaz me deixa com a pulga atrás da orelha; estranho, muito estranho; afinal, interrogatórios enérgicos são sempre necessários quando há necessidade de obter informações com rapidez e precisão.

As vezes a eliminação física do inimigo é uma encessidade operacional e todos esses 'papagaios' demosntram agora espanto com um procedimento que as vezes é obrigatório.

Os que quiserem conhecer a versão real dos fatos de 64 podem ler alguma coisa no Blog da UNR e terão informações mais completas no TERNUMA e no A VERDADE SUFOCADA.]

O militar entrevistado foi dos algozes do cearense Antônio Teodoro de Castro, estudante universitário de 27 anos conhecido como "Raul". Ele conta que presenciou o interrogatório do estudante: "Ele tinha fome, vestia farrapos e estava amarelo, parecia ter malária. Nem precisamos bater para que ele falasse e dissesse tudo que sabia." Mesmo desarmado, mesmo famélico e doente, mesmo depois de contar tudo que os oficiais queriam, Raul não foi poupado. Logo chegou a ordem: eles deveriam levá-lo para fazer um "reconhecimento". Reconhecimento, no código elaborado pelo Exército, era a senha para matar. Curió e seus homens, entre eles o militar entrevistado por VEJA, embarcaram Raul e outro guerrilheiro, o estudante gaúcho Cilon da Cunha Brun, de 26 anos, conhecido como "Simão", num helicóptero da Força Aérea.[estranho o conceito de algoz atribuído ao 'militar entrevistado': tudo incida que o elemento Antonio Teodoro não sofreu nenhum tipo de coação física e seu estado precário era resultante da fome, ou da malária - nenhuma das causas pode ser atribuída aos militares.]

Curió ordenou aos pilotos, os quais não tinham conhecimento da operação, que lhes transportassem até as terras da fazenda de um colaborador. Para não permitir testemunhas, relembra o militar, Curió determinou que outra equipe da Força Aérea lhes buscassem num ponto diferente da mata, horas mais tarde. Após uma longa caminhada, o grupo parou para descansar. Todos se sentaram. Instantes depois, Curió disse aos colegas: "É agora!" Levantou-se num átimo, mirou seu fuzil Parafal na cabeça de Raul e disparou. O corpo do estudante caiu imediatamente sem vida. Os outros oficiais levantaram-se e descarregaram as armas nos dois. "Parecia pelotão de fuzilamento", lembra o militar. Eles tentaram cavar uma vala para enterrar os guerrilheiros, sem sucesso. Resolveram cobrir o local com galhos de árvores – e seguiram caminho. Alguns dias depois, o fazendeiro esteve com os militares e reclamou dos cadáveres. "Os corpos começaram a feder. Os animais já tinham comido quase tudo. Tive que enterrar os restos", disse. O fazendeiro tinha o apelido de "Zezão".

O Exército também pagava pela cabeça dos guerrilheiros – e não era metaforicamente. "Tinha que trazer a cabeça mesmo, para provar que tinha matado", lembra o militar. Cada cabeça rendia 5.000 cruzeiros ao matador. Em valores corrigidos, cerca de 11.000 reais. "Vi pelo menos umas três", conta.

Fonte: Veja OnLine

0 comentários: