A morte. Isso mesmo, a morte.
Esse é um assunto que se evita.
Nos últimos dias, porém, ele está na cabeça de todos.
A família que foi dizimada em Troncoso, o vôo AF 447, e ontem pela manhã o marido morto pela mulher a facadas.
Atiçamos nossas emoções, damos uma porção de atenção ao assunto, mas depois não queremos mais ouvir falar.
Eu acho que para se viver bem, quero dizer “feliz”, precisamos de vez em quando pensar na morte sem precisarmos de um grande acidente que dê manchete na Internet. Pois a morte dá o sentido da vida. É ela que nos alerta para a precariedade humana; para que tudo é passageiro; para a nossa falta de poder sobre nosso destino.
Nossa fantasia costuma criar cenas horríveis ligadas à nossa morte, e com terror fugimos de pensar, comemos uma barra de chocolate, ligamos a televisão, telefonamos para um amigo, e deixamos escapar a ocasião para uma boa reflexão.
Pura ilusão. Para começar, não temos a menor idéia de como será a nossa morte. Sim, ela poderá ser tempestuosa, brutal, com muito sofrimento. Mas ela também poderá ser calma, consciente de uma vida completada, do cumprimento de um ciclo natural, cercada dos que amamos, conformados porque aquele é um momento que estamos ultrapassando conscientes de que tudo o que tinha que ser já foi.
Fica-se imaginando como foram os últimos momentos dos que estavam no AF 447. Se não podemos saber, por que imaginar? Além disso, isso não é mais. Isso não é presente. Imaginarmos como nossos aqueles momentos é contraproducente. Pura ilusão.
A consciência de que todos iremos morrer, essa sim, é universal.
Essa consciência pode ser utilizada de maneira positiva para tirarmos o maior proveito da vida enquanto estamos vivos. E, no meu modo de entender, o maior proveito da vida tiramos quando nos conheçemos bem. Para ser feliz, cada um precisa se conhecer bem.
Perguntam: dá para ser feliz mesmo sabendo que iremos morrer? Eu acho que dá. Eu acho que dá e para isso não preciso de acreditar em vida após a morte.
Algumas pessoas, ou melhor, muitas, acreditam que terão uma vida após a morte, com a mesma consciência que têm agora. Isto é, Mariazinha morre, mas continua com a consciência de Mariazinha e vai para o paraíso pensando como Mariazinha. O que Mariazinha vai fazer no paraíso, eu nem posso imaginar. O que sei é que esta é uma forma das mais simplista de fugir da vida.
Em geral, os crentes de que depois da morte terão uma vida melhor, enquanto vivos estão quase sempre de mau humor. É como estar na longa fila de espera de um ótimo restaurante. Vocês já viram alguém de bom humor nesta situação? E vocês já viram as caras das pessoas nas igrejas que prometem o paraíso após a morte? Ou estão de mau humor ou com um sorriso amarelo.
Aqui entra outra fantasia: se vamos morrer e não há vida após a morte, vamos “aproveitar a vida”. “Se vou morrer mesmo, por que tratar do fígado, deixar de fumar, de correr risco de adquirir H.I.V.”?
Isso não é aproveitar a vida. Isso é desespero. É um posicionamento político de revolta diante da vida porque existe a morte. Justamente porque fantasiamos muito em relação à morte.
Não estou querendo minimizar a dor que em geral acompanha os momentos finais. Nem a saudade dos que ficam.
Quero apenas dizer que precisamos minimizar fantasias sobre a morte que atrapalham sermos felizes enquanto estamos vivos.
Existe algum tipo de continuação após a morte? As forças que nos fazem andar, amar, sorrir, criar, continuam após a morte? Eu acho que sim. Mas de que forma? Não sei.
E para mim isso basta.

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