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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Direita vence eleições no Chile

Candidato da direita, Piñera, vence 1º turno com 44% e complica situação para Concertação virar o jogo no Chile

Em seu pior resultado nos 20 anos de redemocratização do país, a Concertação, coalizão de centro-esquerda do governo chileno, viu no domingo o empresário de direita Sebastián Piñera vencer o primeiro turno das eleições presidenciais com 44% dos votos, de acordo com a apuração de 98.3% das urnas. O ex-presidente Eduardo Frei ficou com 29,6%, o que o levará a um esforço intenso em busca de alianças para o segundo turno, em 17 de janeiro. Os números mostram que Piñera, da Coalizão pela Mudança, é a melhor chance da direita em 50 anos de chegar ao La Moneda pelo voto. A Concertação, desgastada por 20 anos no poder, parte agora para reconquistar os descontentes.

Frei teve menos votos que Piñera até em muitos colégios que na eleição anterior deram vitória à presidente Michelle Bachelet. No segundo turno, seu desafio será buscar os eleitores que migraram para o comunista Jorge Arrate e o independente Marco Enríquez-Ominami. Piñera também quer os eleitores de Ominami, que junto com os dele seriam "os 60% que desejam mudança", como dirá na nova fase de sua campanha.

Analistas preveem que o movimento de alianças não será fácil. Jorge Arrate, do Partido Comunista, teve 5,8% dos votos e prometeu apoio contra Piñera, mas disse que "não entregará um cheque em branco", e condicionou seu apoio ao debate de programas. Ominami - que conquistou 20,1% e é acusado pela Concertação de dividir votos - já descartou, num discurso de 20 minutos na noite de domingo, a possibilidade de negociar votos.

- Não há nada que negociar. Se querem os votos de quem votou em nós, que ouçam suas necessidades - disse. - Eles não são a mudança, não são o futuro. Eduardo Frei e Sebastián Piñera se parecem demais..

Governo admite dificuldades

Ricardo Israel, da Universidade Autônoma do Chile, acha que Frei ainda pode se recuperar.

- Arrate e Ominami vêm da Concertação. Poucos dos seus eleitores votariam em Piñera. Começa uma nova eleição - aposta.

Após a divulgação dos primeiros resultados, Frei apelou abertamente aos eleitores de Arrate em Ominami, conclamando-os a "integrar essa candidatura" e prometendo trabalhar "para todas as pessoas, com partido e sem partido". Já Piñera falou à classe média:

- Vamos fortalecer a rede de proteção social e ampliá-la para que chegue à nossa sofrida e abandonada classe média.

A situação parece difícil para a Concertação. Algumas pesquisas indicam que um terço dos votos de Ominami pode ir para Piñera, o que lhe daria a vitória. Em 20 anos, esta é a primeira vez em que a direita aparece como vencedora em todas as pesquisas, mesmo de segundo turno. Se isso ocorrer, o Chile terá um presidente bilionário, na lista da revista "Forbes" dos homens mais ricos do mundo.

O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, deixou escapar o estado de espírito da Concertação num comentário. Segundo ele, não será "o fim do mundo se Piñera vencer a eleição". O ministro de Obras Públicas, Sergio Bitar, disse que a diferença é maior do que a Concertação esperava. Já o ex-presidente Ricardo Lagos reconheceu os problemas da coalizão:

- É um pouco absurdo que as outras duas pessoas que competem com a Concertação venham da Concertação. Todos vieram do Partido Socialista. Houve um erro das lideranças políticas ao se escolher o candidato.

Piñera, de 60 anos, chegou para votar por volta das 9h30m no Liceu Cervantes, no Bairro Brasil - área do centro de Santiago que leva o nome da avenida que a corta. O candidato da Coalizão para a Mudança saiu do colégio sob gritos hostis e aplausos. Enquanto eleitores de esquerda o chamavam de "assassino", seus simpatizantes gritavam: "Piñera presidente".

- Tempos melhores chegarão para o Chile - prometeu então.

Frei, de 67 anos, presidente de 1994 a 2000, votou na cidade de La Unión, e fez um apelo:

- A força do dinheiro e do mercado não deve prevalecer na sociedade.

Estas são as primeiras eleições sem a presença do ex-ditador Augusto Pinochet. Com sua morte, a direita ficou mais livre para tentar descolar sua imagem da ditadura. Já a Concertação, formada para levar o país de volta à democracia, parece ter perdido algo que a unia. A direita mirou na classe média, que se ressente dos programas sociais para os mais carentes.

- A classe média trabalha para o rico e para o pobre. É preciso se preocupar também com ela - reclamou a eleitora Norma Bustamante.

Mesmo na região do Estádio Nacional - área de classe média, média baixa e com alguns enclaves carentes, considerada um reduto de Frei - a maioria dizia ter votado em Piñera. Com pouco carisma, Frei não conseguiu aproveitar a popularidade da presidente .

Votaram no domingo pouco mais de 4 milhões de chilenos, que escolheram ainda os 120 deputados da Câmara e 20 dos 38 membros do Senado.

Fonte: O Globo
Por: Cristina Azevedo

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