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domingo, 20 de dezembro de 2009

Escravos do vício. O combate ao crack tem que ser em todas as frentes e o viciado não pode ficar impune

Crack, crack, crack.

Esse é o som que estala nos ouvidos dos que fumam a droga que vem assombrando o país e já é considerada um problema de saúde pública. Em 20 anos, saiu das cracolândias das grandes metrópoles para ganhar municípios do interior do Brasil. Hoje, não é consumida apenas por mendigos e meninos de rua, passou a desestruturar famílias de classe média e alta. Uma única pedra de crack — vendida, em média a R$ 10 — tem o poder de transformar usuários em escravos. Neste caderno especial, o Correio faz uma análise do problema que assusta a sociedade brasileira e preocupa o poder público. Conheça os programas e as ações que buscam respostas para combater o cruel ciclo da droga que, a cada dia, vicia e mata mais brasileiros.


Escravos do vício

Número recorde de apreensões em diversos municípios brasileiros confirma que o crack tomou o país

O choro de mães desesperadas deixou de ser uma questão estritamente familiar. A escalada dos crimes violentos não é mais um desafio apenas da segurança pública. O crescimento de indigentes nas ruas vai além de uma tarefa da assistência social. São todos eles fenômenos que se proliferam de norte a sul do país, em grandes e minúsculas cidades, impulsionados por uma droga identificada no Brasil há exatos 20 anos. Desde os primeiros relatos de meninos de rua fumando a pedra elaborada dos restos da cocaína nas ruas da capital paulista, em 1989, até os dias atuais, o crack transformou-se num gigantesco problema de saúde pública. Só em 2009, as polícias brasileiras apreenderam mais de 1,5 tonelada da droga, cujo poder de viciar nunca havia sido verificado antes. A demanda em clínicas de tratamento chega a 90% do total de vagas.

“Estamos diante de um problema grave, que atinge especialmente os jovens, trazendo a eles uma perspectiva sombria de futuro”, definiu José Luiz Telles, diretor do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas do Ministério da Saúde. Ainda não se sabe exatamente quantos usuários de crack existem no país, já que os dados disponíveis são de 2005 e serão atualizados por um levantamento encomendado pelo governo federal que deve ficar pronto no primeiro semestre de 2010.

“É absurda a disponibilidade do crack no país. Digo, sem medo de errar, que não há um único município do Sul do Brasil onde a droga não tenha chegado”, afirma o psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e outras Drogas (Abead), que trabalha no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, em Porto Alegre, atendendo gestante viciadas na pedra. No Sudeste, o problema é igual. Até no Rio de Janeiro, onde o próprio tráfico, ciente da velocidade e do grau da deterioração causada pelo crack, postergou a chegada da droga entendendo que ela acarretaria em perda de “clientes”, que morreriam logo, a pedra já virou sensação. Supera, em alguns morros, a venda da cocaína tradicional. De 2007 para 2008, o volume apreendido no estado fluminense subiu 50%.

No Espírito Santo, o aumento das apreensões foi de 238% de 2007 para 2009 (até outubro). A região Nordeste também presencia a epidemia do crack. Território do sertão pernambucano conhecido nacionalmente pela produção e comércio da erva, o Polígono da Maconha se tornou uma área da pedra. “Estamos vendo o consumo migrando da capital para as cidades do interior muito rapidamente”, constata Luiz Andrey Viana, delegado da Polícia Civil no Recife. No estado pernambucano, a quantidade de crack apreendido saltou de oito para 32 quilos nos últimos três anos. O Norte não ficou imune à proliferação da pedra. De janeiro a outubro de 2009, 25 quilos foram apreendidos em Roraima.

Se o desafio para a segurança pública é enorme, no âmbito familiar as tragédias se repetem. Um dos dramas que chegou às páginas dos jornais ocorreu há menos de dois meses no Rio de Janeiro. Bruno de Melo, de 26 anos, estrangulou a amiga Bárbara Calazans, de 18, até a morte, enquanto usava crack. Depois de chamar a polícia, o pai do garoto, o produtor cultural Luiz Fernando Prôa, fez um desabafo emocionado. “Hoje vi uma pessoa boa se transformar num assassino (…) Infelizmente, só consegui interná-lo pela via torta da loucura, quando já não havia mais nada a fazer, num surto fatal”, afirmou o pai, em uma carta.

Mais adiante, Prôa lembra o caso de uma mãe que construiu uma cela dentro de casa para prender o filho, numa crítica à política de só internar pacientes voluntariamente. “Esperar que uma pessoa com a mente destruída por droga pesada vá com seus próprios pés para uma clínica é mera ingenuidade (…). Ou será que todas as famílias que vivem esse problema terão de construir jaulas em casa?”, questiona o pai de Bruno. Salgado, da Abead, desmistifica a ideia da proibição de internação involuntária. “Pode-se internar o paciente compulsoriamente. É como uma vovó que de repente se recusa a tomar os remédios e fica amuada dentro do quarto. Se ela disser que não quer ir ao médico, você deixará de levá-la?”, indaga.

“O que ocorre, na verdade, é que a clínica tem de ser muito estruturada para receber um paciente que não quer se tratar. E como há falta de vagas no sistema público, as unidades criam essa regra, o que é compreensível”, explica o psiquiatra. Quanto ao nível de sucesso do tratamento, Salgado afirma não haver grande discrepância entre o paciente internado contra a própria vontade e o voluntário. “O que vai fazer diferença é o engajamento dele durante o tratamento. E não significa que precisa ser da primeira vez”, afirma. As recaídas, segundo o médico, são normais e fazem parte do processo. “A média de tentativas de um fumante que quer parar de fumar é de seis vezes. Com outras drogas, inclusive o crack, ocorre o mesmo. Mesmo recaindo, o sujeito que já passou por uma internação está mais dotado de informação, de experiências”, diz.


[os três parágrafos acima fortalecem o entendimento que o usuário, o consumidor, tem que ser alvo de repressão; a falta de repressão no inicio levou os viciados a praticarem crimes e a que seus próprios familiares entendessem a necessidade do internamento compulsório.
havendo a repressão em todas as frentes, incluindo com prioridade, sem limitar, consumo, a demanda arrefece e haverá desistência de um número ainda não dimensionado de futuros consumidores já que a certeza da impunidade é que leva o elemento a buscar o consumo e o vício.
A repressão ao usuário é bem mais eficiente do que deixa-lo impune e deve abranger TODAS as drogas.]

Reação contra a pedra da morte
A rapidez com que o crack vem se disseminando no Brasil requer mais do que uma ação isolada para ser vencido. Apesar de não dispor de dados recentes sobre o consumo da droga, o governo federal decidiu agir. Os Ministérios da Justiça(MJ) e Saúde a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) já deflagraram ações com o objetivo de prevenir, conscientizar e reprimir a expansão do entorpecente que assusta o país. “O avanço dessa droga nos preocupa, uma vez que existe agora um processo de interiorização do consumo no país. Acreditamos que somente um trabalho de triangulação entre as pastas da Saúde, Educação e Justiça pode ser efetivo no combate”, afirma o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto.

Em novembro, o órgão anunciou a criação de um grupo de trabalho, dentro do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci), para enfrentar a disseminação do crack no país. Segundo Barreto, as atividades do grupo começam em 2010. A proposta é unir representantes do próprio MJ, da Senad e especialistas para traçar um plano nacional de combate ao crack

Outra medida é a instalação de postos especiais da Polícia Federal de fronteira. As primeiras unidades serão no Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Acre, conhecidas rotas de entrada da pedra. O problema do crack ultrapassa as fronteiras da saúde pública. Como a dependência e a perda do senso crítico são quase imediatas, é comum que o usuário parta para a criminalidade quando não consegue mais recursos para obter a droga. E aí os reflexos na segurança pública são diretos. “A grande dificuldade para traçar uma estratégia de combate ao crack é que não existem grandes traficantes e nem rotas de consumo, a pedra está em todo lugar”, resume o secretário-executivo do Ministério da Justiça.

O crack é um dos destaques do programa Ações Integradas na Prevenção ao Uso de Drogas e Violência, encabeçado pelo Pronasci e pela própria Senad. A proposta do programa, que tem orçamento de R$ 54 milhões, é promover uma intervenção conjunta em resposta ao desafio pela associação drogas, violência e juventude.



NÚMEROS EXPLOSIVOS

Nos últimos dois anos, as apreensões de crack aumentaram substancialmente nos estados. O problema, que era tratado de forma tímida no país, a ponto de as polícias não terem estatísticas anteriores, se tornou sério. O número de apreensões da droga são os seguintes:

Apreensões pelas polícias Civil e Militar nos estados

ESTADOS 2007 2008 2009
(quantidades em kg)

Bahia 795 760 280 (*)
Alagoas 1,1 1,2 (**)
Roraima 22,5 25,8
Santa Catarina 47,2 mil 61 mil 55,5 mil (***)
Paraná 1,3 milhão 1,4 milhão 1 milhão (***)
Sergipe 47,2 (*)
Tocantins 1,8 3,5 1,1 (até 1º semestre)
Rio de Janeiro 9,7 13,4
Pernambuco 8 11 32 (*)
Piauí 28 45
Minas Gerais 18 24 18 (****)
Rio Grande do Sul 119 150 225
Espírito Santo 38 68 92 (****)
Amazonas 0 0 0
Distrito Federal 0,5 4,3 5,5 (*)

* Até setembro **até agosto *** em pedras **** só capital

Os estados do Amapá, Pará, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul identificam o crack como cocaína e não possuem dados separados. São Paulo não divulga informações sobre drogas, enquanto Acre, Rondônia, Paraíba, Maranhão, Goiás, Ceará e o Rio Grande do Norte não informaram os dados.

Apreensões feitas pela Polícia Federal

Anos Kg

2007 580,8
2008 373,4
2009 70,2*

*até maio
Apreensões feitas pela Polícia Rodoviária Federal

Anos Kg

2007 295
2008 511
2009 639

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