Um abacaxi para a política externa do Brasil
O envolvimento do governo brasileiro na questão política de Honduras há muito deixou de ser parte de uma ação de diplomacia política para integrar o rol daquelas crônicas sobre a América Latina tão apreciadas por autores como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, só para citar dois mais conhecidos. O que se apresentou como um golpe de Estado, um soluço seiscentista em uma América Latina mais acomodada na democracia, agora virou uma novela. O enredo tem todas as condições para se transformar em um daqueles dramas cinematográficos, especialmente por causa da apresentação visual de seu protagonista. Aliás, dadas as circunstâncias mais recentes, o termo novela mexicana nunca foi tão adequado.
É bom, quando se observa uma cena política como o imbróglio em Honduras, que a análise não perca de vista o seu compromisso com a coerência, sobretudo quando o assunto a ser debatido carece justamente desse item. Ora, se o presidente deposto Manuel Zelaya aceitou deixar Honduras, então porque havia decidido desafiar as forças do presidente golpista, Roberto Micheletti, e mudar-se, com mala e cuia – mais da primeira do que da segunda – para a Embaixada do Brasil em Tegucigalpa?
Zelaya disse ter concordado com a sua segunda partida, mas não na forma de asilado político e, muito menos, encarnando a figura de presidente deposto. Porém, pensando bem, presidente deposto, após tanto tempo decorrido do golpe, é efetivamente o que ele é. Como já se disse aqui, o maior aliado do governo golpista é o tempo. Cada dia a mais com o ex-presidente no abrigo brasileiro, mais tênue fica a indignação geral em torno das condições de sua queda. O hondurenho que precisa arrumar comida para a mesa da família não tem tempo mais para ficar protestando a favor ou contra a permanência de uma autoridade cujos atos administrativos estão cada dia mais dissolvidos na rarefeita memória cotidiana.
É estranho também observar o novo impasse no país depois de tantas negociações, idas e vindas, ameaças e discursos, inclusive de presidentes de outras nações. Brasil e Estados Unidos, por exemplo, descobriram em Honduras as arestas de um relacionamento entre os presidentes Lula e Obama que parecia correr às mil maravilhas. Enquanto o primeiro atuou abertamente no sentido de isolar o regime de Micheletti e repor Zelaya de volta ao cargo, a Casa Branca preferia esquivar-se de um compromisso direto que acabasse auxiliando, por tabela, o principal adversário por trás de toda a crise, o presidente venezuelano Hugo Chávez. Golpe por golpe, os americanos sempre optarão por ficar do lado mais liberal.
Sobra uma questão crônica. A embaixada brasileira em Tegucigalpa não é um hotel que possa servir de moradia indefinidamente a um presidente deposto que, ao retornar ao país, sabia que comprava uma briga séria. Depois de tanto tempo, o hóspede vira morador, começa a impor hábitos aos colegas de habitação e o que era uma representação de um país vai virando uma casa com ares de república estudantil – basta ver a foto de Zelaya com o violão e o eterno chapéu para compreender a imagem. Como é o erário brasileiro que sustenta todas as representações diplomáticas no mundo, a conta dessa hospedagem é paga pelo contribuinte. Sem direito a despejo.
Por: Marcelo Ambrosio

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