Diretor do Museu da Paz de Hiroshima alerta que risco de uma bomba cair nas mãos de terroristas e ser detonada é alto
Em 2009, o mundo lembrou os 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, o maior conflito armado da história, responsável pela morte de cerca de 50 milhões de pessoas. O episódio reservou dois de seus capítulos mais dramáticos para seus instantes finais. Às 8h15 de 6 de agosto de 1945, uma segunda-feira, com Adolf Hitler já morto e a Alemanha rendida, o mundo conheceu uma nova face do terror.
A primeira bomba atômica usada contra seres humanos explodiu a 600 metros acima da cidade japonesa de Hiroshima, lançada por um avião B-29 norte-americano, apelidado de Enola Gay pelo coronel Paul Tibbets, piloto da missão. Cerca de 70 mil pessoas morreram entre a detonação e os dias que se seguiram. Até dezembro daquele ano, o número de vítimas chegaria a 140 mil, ou 40% das 350 mil pessoas que estavam na cidade naquela manhã.
Apenas três dias depois daquele horror, às 11h02 de 9 de agosto, foi a vez de Nagasaki, distante 320km de Hiroshima, experimentar o inferno. Também lançada por um bombardeiro B-29 dos Estados Unidos, uma segunda bomba atômica — de poder ainda mais destrutivo que a primeira — varreu a cidade, matando 74 mil dos 240 mil habitantes e ferindo outros 74 mil.
Durante quatro dias, o Correio visitou Hiroshima e Nagasaki, hoje grandes e modernas cidades, que mantêm vivas as lembranças daquelas experiências devastadoras. A reportagem ouviu relatos de sobreviventes e conversou com o diretor do Museu da Paz de Hiroshima, Steven Leeper, que fez um alerta: o risco de uma nova bomba atômica assombrar o planeta parece iminente.
Aos 62 anos, completados em 20 de novembro, Leeper viveu quase a metade de sua vida no Japão. Ele chegou a Hiroshima em 1984 e, rapidamente, se envolveu com o Museu da Paz. Em 1986, começou a atuar como tradutor no museu. Nomeado diretor em abril de 2007 pelo prefeito de Hiroshima, Tadatoshi Akiba, Leeper é um dos principais ativistas da ONG Mayors For Peace (Prefeitos pela paz), que luta pela abolição das armas nucleares do mundo. Segundo ele, a única forma de evitar uma nova catástrofe é extinguir todas as ogivas. Caso contrário, será muito difícil conter o desastre. “Nossa principal preocupação é que grupos terroristas consigam acesso a armas nucleares”, explicou. “Se fizerem isso, certamente irão utilizá-las”, advertiu.
Leeper lembrou que já foram descobertos planos no Afeganistão em que grupos terroristas planejavam detonar uma bomba atômica nos Estados Unidos. “Os militares descobriram esse plano, que foi batizado de ‘Hiroshima americana’”, contou o diretor.
Corrida armamentista
“Se as armas nucleares continuarem se multiplicando, esses grupos (terroristas) certamente, em algum ponto, terão acesso a elas, e o controle vai se tornar impossível”, afirmou Leeper. Oficialmente, nove países possuem armamentos nucleares (veja quadro), incluindo a Coreia do Norte, que, em maio deste ano, realizou um teste “com sucesso”, segundo os militares daquele país. A polêmica sobre a proliferação dessas armas ganhou força com a iniciativa do Irã de tentar enriquecer urânio em seu país.
O presidente Mahmud Ahmadinejad garante que a ação tem fins pacíficos. Sob esse pretexto, Teerã obteve apoio do governo brasileiro. “Nesse sentido, nossa maior preocupação é com Israel. Como o país possui armamentos atômicos, os vizinhos se sentem ameaçados e também querem desenvolver essas armas. Isso leva a uma corrida armamentista”, disse o diretor do museu.
Mobilização
Em 1985, em Hiroshima, a Mayors For Peace organizou sua primeira conferência mundial. Quase 25 anos depois, o movimento conta com o apoio de 3.241 prefeituras, de 134 países. No Brasil, as cidades de Belém, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Canoas e Novo Hamburgo (RS), Santos e Osasco (SP) já se juntaram à ONG. “A nossa ideia é unir o apoio do máximo de cidades em nossa causa. E por que cidades? Porque elas são as que verdadeiramente sofrem com as guerras e os bombardeios, e não os governos”, esclareceu o norte-americano.
Apesar disso, Leeper sabe que, no fim das contas, são os governos que decidem. Por isso, todas as atenções da Mayors For Peace estão voltadas para maio do próximo ano, quando Nova York sediará uma conferência para discutir o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), criado em 1970. Para ele, existem dois caminhos sendo traçados simultaneamente no planeta. “Estamos nos movendo em duas direções. Tem gente trabalhando para eliminar as armas nucleares e gente querendo continuar a desenvolvê-las.” Segundo o ativista, apenas nos EUA são gastos US$ 55 bilhões ao ano no desenvolvimento de armas nucleares e em sistemas para operá-las.
De acordo com o diretor do Museu da Paz de Hiroshima, o planeta caminha rumo a um futuro de graves problemas nas próximas décadas. Aquecimento global, superpopulação, escassez de recursos, fome e por aí vai. A lista é longa. Nesse sentido, Leeper destacou que a abolição das armas nucleares é o primeiro dos desafios. “Sei que é difícil, mas temos que conseguir. Caso contrário, faremos desse planeta um lugar inabitável”, advertiu. “Acabar com as armas nucleares é fácil. Depende de poucas pessoas (presidentes) quererem.”
O apelo é coerente. O risco nuclear, que aterrorizou Hiroshima e Nagasaki há quase 65 anos, ainda existe, mesmo com o fim da Guerra Fria. O tema já foi abordado em diversos filmes. Em um dos mais recentes, O pacificador, um homem, sedento de vingança, quase explode uma bomba em Nova York. Nicole Kidman e George Clooney salvam a América. Em um diálogo, a loura dispara, em tom profético: “Não temo um homem que deseja 10 bombas atômicas. Fico aterrorizada com o que quer apenas uma”.
1 - Garotinho mortal
A bomba de Hiroshima foi fruto do Projeto Manhattan, conduzido para que os Estados Unidos pudessem desenvolver armamentos nucleares. Apelidado de Little Boy (garotinho, em inglês), o artefato tinha 3m de comprimento, 70cm de largura e pesava 4.000kg. Carregava em seu interior 60kg de urânio-235, responsáveis pela reação nuclear em cadeia — equivalente a 16 mil toneladas de trinitroglicerina — que arrasou a cidade e assombrou o planeta.
2 - Homem gordo
A bomba de Nagasaki, distante 320km de Hiroshima, experimentar o inferno. Também lançada por um bombardeiro B-29 dos Estados Unidos, uma segunda bomba atômica — de poder ainda mais destrutivo que a primeira — varreu a cidade, matando 74 mil dos 240 mil habitantes e ferindo outros 74 mil.
[não existe nenhuma razão, nenhum sentido, em se permitir que Israel possua bomba atômicas e criar dificuldades a que o Irã desenvolva um programa nuclear.
Israel a intercalos cada vez menores promove ações que visam a concretização de um genocídio contra o povo palestino - o assassinato covarde perpetrado na Faixa de Gaza é o mais recente exemplo e que mostra que o estado judeu não tem nenhuma razão que o apóie em possuir um arsenal atômico e impedir ao Irã, ou a qualquer outro país que deseje, o acesso livre a tecnologica nuclear.
O mesmo risco que o Irã oferece, Israel oferece, idem o Paquistão e outros.
Não resisto a transcrever a idéia 'genial' do senhor Lula com vistas ao desarmamento nuclear.
Aos desavisados: 'genial' entre aspas tem o sentido de estúpida."]
"Experiência-piloto
O presidente da República expôs esta semana um ponto de vista fascinante e original sobre como o mundo poderia banir as armas nucleares. Segundo sua excelência, todos os países devem possuí-las e daí então, talvez numa grande conferência mundial coordenada por sua excelência (esse detalhe é ironia minha), bani-las coletivamente.
O mandato de Lula está chegando ao fim. Essa tese de o armamento nuclear universal ser um bom caminho para o desarmamento nuclear universal ficará como um dos momentos singulares da passagem dele pela Presidência. Daqui a pouco mais de um ano, Lula certamente terá suficiente tempo livre para desenvolvê-la.
Mas talvez fosse o caso de fazer, já, uma experiência-piloto aqui no Brasil. Promover o armamento geral (convencional, claro) da população e depois — quem sabe? — convocar uma Conferência Nacional pelo Desarmamento. Se funcionar, poderíamos inclusive exportar a ideia. "
Transcrita da coluna 'nas entrelinhas' do Alon Feuerwerker
alonfeuerwerker.df@dabr.com.br .

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