Assassino de mendigos em Brasília faz confissão espantosa
O analista do Banco Central Josê Cândido do Amaral Filho confessou ontem o assassinato a tiros de dois mendigos em Brasília, ocorrido em 19 de janeiro na mesma praça onde, há doze anos, o índio pataxó Galdino dos Santos foi queimado até a morte por cinco jovens de classe média.
O que mais espantou foi a naturalidade com que Amaral Filho relatou sua motivação para o crime, como descreve o Correio Braziliense.
Na véspera, ele disse ter ficado irritado ao ter visto, ao lado dos filhos, os mendigos “trocando carícias” a menos de 200 metros de sua casa.
À noite, disse ter sentido falta de uma tocha que ficava em seu jardim e contou ter visto o objeto aceso na praça. “Depois disso, o sangue subiu à cabeça. Queria ‘limpar’ eles de lá. Não consegui nem dormir de tanta raiva”, afirmou o assassino.
E, na manhã seguinte, após render as vítimas e deixá-las de bruços, disparou duas vezes na cabeça de um e uma vez na cabeça de outro.
Com prisão temporária decretada, o funcionário público pode pegar até 30 anos de cadeia por duplo homicídio e porte ilegal de arma.
O exterminador de mendigos da Asa Sul
Servidor do Banco Central, José Cândido do Amaral Filho confessou ontem o assassinato, em janeiro, de dois moradores de rua que dormiam na Praça do Índio, na 703/704 Sul.
O crime ocorreu no mesmo local onde, há 12 anos, jovens de classe média alta atearam fogo no pataxó Galdino porque pensavam se tratar de um mendigo. Colecionador de armas, José Cândido disse que resolveu matar os dois homens após supostamente vê-los praticando atos libidinosos na rua e por terem furtado uma tocha. “O sangue subiu à cabeça. Queria ‘limpar’ eles de lá”, revelou.
Asa Sul
Servidor confessa assassinatos
Funcionário do Banco Central é preso acusado de executar dois mendigos, há três meses, na mesma praça onde o índio Galdino foi morto. Ele diz ter ficado irritado com o comportamento das vítimas
Está atrás das grades o homem acusado de executar dois mendigos na Praça do Índio, na 703/704 Sul, em 19 de janeiro último. O autor confesso dos disparos é o analista do Banco Central José Cândido do Amaral Filho, 48 anos, que residia próximo ao lugar onde os moradores de rua foram mortos a tiros.
Em entrevista à imprensa na tarde de ontem, ele afirmou que estava irritado com a presença dos mendigos e queria eliminá-los de lá.
Na casa do funcionário público de classe média alta, a polícia encontrou um arsenal. Após três meses de investigação e do desfecho surpreendente até mesmo para os investigadores, José, que é casado e pai de três filhos, responderá pelo duplo homicídio e porte de arma.
A prisão ocorreu por volta das 16h de ontem, na casa onde o acusado vivia com a família na 704 Sul.
Conduzido à 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), o homem confessou os assassinatos e contou os pormenores da execução. Durante a conversa, José mascou um chiclete e olhou cada um dos presentes nos olhos.
Não hesitou ao relembrar os motivos que o levaram a tirar a vida dos moradores de rua. De acordo com o servidor, que há oito anos mora a menos de 200m do local do crime, a presença dos mendigos o irritava havia algum tempo. Mas os fatos que o levaram a tirar a vida de dois deles começaram em 18 de janeiro, um domingo, um dia antes das mortes.
Segundo o funcionário público, por volta das 15h daquele domingo, ele voltava a pé para casa com os três filhos, de 14, 9 e 3 anos. Quando passavam pela praça, viram dois mendigos trocando carícias. “Um absurdo. Aquilo me irritou”, disse. O servidor contou que seguiu o caminho, mas não esqueceu a cena ao chegar em casa. Ligou para a Polícia Militar e disse: “Se vocês não fizerem nada para tirar eles de lá eu vou fazer”. À noite, José diz ter dado falta de uma tocha que ficava em seu jardim. Segundo o depoimento, ele avistou o objeto aceso na praça e deduziu que os mendigos o haviam furtado.
“Depois disso, o sangue subiu à cabeça. Queria ‘limpar’ eles de lá. Não consegui nem dormir de tanta raiva”, confessou o homem. Por volta das 6h30 do dia seguinte, 19 de janeiro, o servidor pegou um revólver .38, colocou seis munições, se vestiu de roupas escuras e saiu em direção ao local da execução. Quando chegou, um dos mendigos que dormia no coreto acordou e foi em sua direção. O morador da 704 Sul, segundo ele mesmo confessou, disparou duas vezes contra o chão e gritou “Deita aí, deita aí!”. Com os mendigos rendidos e deitados de bruços, José contou que ao tirar uma barraca que estava montada no coreto o revólver disparou acertando o teto.
Com a dupla na mira, o servidor gritava para que uma suposta testemunha (o dono da banca de jornal) chamasse a polícia. De acordo com ele, um dos mendigos virou o rosto e olhou para ele. “Eu estava fora de mim. Não pensei duas vezes: dei dois tiros na cabeça de um e outro na cabeça do segundo”. De lá, o analista do BC foi para o Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). Tinha a intenção de comprar um capacete para esconder o rosto. Como não encontrou loja aberta, resolveu se desfazer das provas do crime. “Joguei a arma e a calça no teto de uma borracharia e deixei a moto lá”, detalhou.
O erro
Três dias após o crime, José foi à 1ª DP para simular um furto da moto.
Segundo ele, o veículo NX Falcon (placa JGX 1022-DF) havia sido alugado meses atrás para servir como meio de transporte.
No entanto, a tentativa de se passar por vítima acabou despertando a suspeita dos investigadores. “A moto tinha as mesmas características da que encontramos no SIA. Apesar de a princípio ele não ter levantado suspeita, vimos ali um caminho”, contou a chefe da 1ª DP, a delegada Martha Vargas. À época, a polícia levantou diversas hipóteses, entre elas acerto de contas por tráfico e brigas de rua.
A perícia do Instituto de Medicina Legal (IML) no veículo revelou que as marcas de pneu no chão da praça coincidiam com as do pneu da moto encontrada. Era a peça-chave para o fim surpreendente do caso. “É um caso raro. Um homem de classe média alta, por motivos fúteis, tirar a vida de dois moradores de rua”, comentou Martha Vargas. José teve a prisão temporária decretada pela Justiça — cinco dias prorrogáveis por mais cinco. Se condenado, pode pegar até 30 anos de prisão pelo duplo homicídio e porte ilegal de arma.
Dois dias depois do duplo homicídio, a polícia identificou as vítimas: Paulo Francisco de Oliveira Filho, 35 anos, e Raulhei Fernandes Mangabeiro, 26. O crime remete a 20 de abril de 1997, quando o índio Galdino Jesus dos Santos, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, morreu após ser queimado no mesmo local por cinco jovens de classe média de Brasília.
Depoimento - José Cândido do Amaral Filho
Detalhes de um crime bárbaro
“Um dia antes do crime eu voltava com meus filhos para casa (na 704 Sul). Quando passamos pela praça vi dois mendigos praticando atos libidinosos ali, no meio da rua e à luz do dia. Já estava irritado com a presença deles ali e submeter meus filhos àquela imagem me deixou furioso. Naquela mesma noite percebi que uma das tochas que ficam no meu jardim tinha sumido. Quando saí de casa, vi que ela estava acesa no coreto da praça. Os mendigos tinham roubado ela. Fiquei irritado e remoendo esse sentimento na minha cabeça. Liguei para a polícia e disse que se eles (policiais) não fizessem nada para tirar aqueles moradores de rua de lá eu ia fazer. Não consegui dormir pensando nisso. De manhã, eu ainda estava transtornado. Peguei a moto, me armei e fui atrás deles. Parei na praça e um deles veio em minha direção. Dei dois tiros no chão e ordenei que eles se deitassem. A arma ainda disparou uma vez acertando o teto. Eu gritava para que o homem que abria a banca chamasse a polícia, quando um deles virou o rosto e me viu. Aquilo me irritou. Eu estava surtado. Foi quando dei dois tiros na cabeça de um deles e outro na cabeça do segundo. Subi na moto e fugi.”
Um arsenal em casa
Um homem de temperamento instável, amante das armas de fogo e muito ligado à família. Assim se definiu o servidor público José Cândido do Amaral Filho, logo após a sua prisão. Ele disse à polícia que há cinco anos se trata de uma depressão e há um toma medicamento para conter um suposto transtorno bipolar. “Nesse momento só consigo pensar nos meus filhos. Estou arrependido, viver com esse sentimento é horrível”, declarou. De acordo com ele, a família soube desde o início da barbárie que ele cometera na manhã daquele 19 de janeiro: “Eles só choraram. O tempo todo”.
José Cândido é morador de uma casa de dois pavimentos na 704 Sul, onde vivia com a família. Mineiro, ele residiu no Rio de Janeiro antes de se mudar para Brasília.
Na capital passou em um concurso para analista do Banco Central — cargo com salário inicial de R$ 11 mil.
Na casa, apesar do quadro psicológico instável, o homem mantinha várias armas: dois revólveres .38, uma besta (atiradora de flechas), uma espingarda de chumbo, diversas facas e centenas de munições de diferentes calibres. O gosto por armamento, segundo ele, veio do pai. “Meu pai me ensinou a atirar. Ele foi duas vezes campeão paulista de tiro esportivo”, detalhou ele, que não tem ficha criminal.
A polícia investiga ainda anotações feitas em um diário encontrado na casa de José, supostamente feitas pela mulher dele. De acordo com a delegada Martha Vargas, o diário traz relatos de uma possível relação pedófila entre um homem e uma adolescente. “Ainda temos muitas coisas para checar, como essas anotações e a procedência das armas. Vamos continuar até o fim”, afirmou Martha. Segundo ela, José pode usar o suposto tratamento clínico para justificar a perda de controle. Mas a delegada alerta que deixá-lo solto é colocar a sociedade em risco. “Está nas mãos da Justiça. Mas não tenho dúvida de que, diante do que ocorreu, ele deve ficar preso por colocar vidas em risco”, concluiu.