Tem futuro um Haiti independente?
Encontrei uma hatiana pela primeira vez em 1971, em Nova York. Era uma mulher calada, modesta. Trabalhávamos no mesmo escritório de tradução. Tive dificuldade em reconhecer que nacionalidade era aquela, quando me disseram que ela era “Haitian”.
Em Miami conheço e convivo com dezenas de haitianos. Alguns considero mais do que apenas conhecidos: o Joe da Bakehouse, o Rémy da Bally, o Antoine da portaria, a April que foi minha modelo no estúdio de fotografia. Já falei com todos eles, pessoalmente ou através de email, e estão arrasados, mesmo aqueles que não tiveram parentes e amigos desaparecidos.
Quando quero matar a saudade da rabada, vou ao Bamboche II, um restaurante hatiano despretencioso, como aliás tudo o que é haitiano.
Os haitianos são diferentes do negro americano. Mostram modéstia, não chamam a atenção. Entre si falam o crioulo, seu dialeto herdado do francês, e, ao contrário dos cubanos, todos falam bem o inglês.
Sempre passo de carro pelo Pequeno Haiti, o bairro de Miami que concentra a comunidade, com suas dezenas de igrejas, casas de venda de suplementos para o vodu, lojas para remessa de dinheiro para o Haiti.
Quase 1 milhão de haitianos vivem nos Estados Unidos, com maiores concentrações em Miami e Nova York.
Sem dúvida os hatianos são diferentes, de uma maneira bastante positiva. Trabalham duro, lutam por seus direitos e têm fortes ligações com seu país, para onde mandam dinheiro e todo o tipo de mercadorias para parentes e amigos.
Essa diferenciação tem raiz na história: foi a primeira nação independente da América Latina, a primeira nação negra independente da era pós-colonial, e a única nação cuja independência foi conseguida por uma rebelião de escravos.
Mas depois… nada nunca funcionou bem. O território pouco maior do que a metade do Estado do Rio de Janeiro, é habitado por 10 milhões. A renda per-capita é de US$790.00 e a taxa de desemprego é muito alta. A natureza também tem sido madrasta com o Haiti. Furacões violentos e inundações devastadoras são uma constante na vida do país. Esse terremoto achatou a capital, Port-au-Prince.
A instabilidade política faz parte da história do país, por interferência externa e dissensões internas. Os Estados Unidos ocuparam o Haiti de 1915 a 1934. Por 30 anos, de 1957 a 1986, a ditadura brutal e corrupta de François “Papa Doc” Duvalier continuou a destruição da economia local.
O Pe. Jean-Bertrand Aristide foi eleito presidente duas vezes, em 1990 e 2000, mas suas gestões não contribuiram em nada para a estabilização política e econômica do país. Ele foi mandado para o exílio na África pelos Mariners. Nessa época os americanos estiveram perto de invadir e tomar conta novamente. René Préval, o atual presidente, se mantém no poder graças às tropas das Nações Unidas, com forte participação administrativa e militar brasileira.
O terremoto de poucos dias atrás destruiu fisicamente um país fraco e vulnerável. O desgoverno e falta de infra-estrutura básica ficaram tristemente patentes. O Haiti poderá continuar independente legalmente, mas na prática, a reconstrução terá o seu preço.

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