Iêmen e as novas bases da Al Qaeda no Oriente Médio
O Iêmen foi colocado no foco das ações anti-terror dos Estados Unidos nas últimas semanas, após o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, que tentou explodir um avião que ia de Amsterdã para Detroit em dezembro passado, admitir que obteve intenso treinamento terrorista em áreas rurais deste pequeno país do Oriente Médio.
As declarações de Abdulmutallab corroboram informações, divulgadas anteriormente, de que a Al Qaeda teria instalado no Iêmen uma nova estrutura regional para treinamento de fundamentalistas, se aproveitando do frágil aparato estatal da nação mais pobre do Oriente Médio.
O Iêmen, aproximadamente do tamanho do estado de Minas Gerais, tem um governo central fraco e permeado pela corrupção, deixando nas mãos de líderes tribais locais o poder de fato. O país, criado formalmente apenas em 1990 com a reunião de outros dois Estados artificiais, sofreu com uma forte Guerra Civil até 1994, que devastou praticamente toda a infraestrutura da nação.
“Ainda há muito desemprego, além de uma grande rebelião xiita e separatista. Junte isso aos refugiados da vizinha Somália, e temos uma ordem social completamente desestabilizada. A população é muito jovem, o que aumenta o poder de atração da Al Qaeda”, afirma Benjamim Lacoste, especialista em Conflitos Internacionais da Universidade de Berna, na Suíça.
Lacoste aponta ainda a expulsão de mais de 1 milhão de trabalhadores iemenitas da Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo, também na década de 1990, o que teria deteriorado ainda mais a situação econômica local. Atualmente, a renda per capita do país é de US$ 380, cerca de 1,2% da dos Estados Unidos.
O Iêmen pode se tornar o maior local de treinamento para uma nova geração de membros da organização, apontam fontes da inteligência ocidental, principalmente com o aumento da repressão nos países da redondeza. O próprio governo iemenita admite não ter controle sobre o treinamento de terroristas em seu território. O ministro das Relações Exteriores do país, Abu Bakr al-Qirbi, afirmou, no fim do ano passado, que há de 200 a 300 militantes da Al Qaeda no Iêmen planejando atentados.
Auxílio do Ocidente
Após os atentados frustrados, fica claro para especialistas que a consolidação do governo no Iêmen é a melhor solução para enfraquecer a atividade da Al Qaeda no país e diminuir os riscos de novos atentados.
“Os EUA terão de intensificar o auxílio em práticas antiterrorismo no país para debelar esta nova ameaça. Só há radicais no Iêmen porque é um local fácil de operar”, diz Richard Barret, coordenador da equipe de monitoramento do Talibã e Al Qaeda da ONU.
O governo iemenita até esboçou uma reação contra militantes na região, prendendo alguns membros de células terroristas, principalmente por temor de ser alvo de ações mais firmes dos Estados Unidos. Lacoste afirma, entretanto, que medidas sérias terão que ser maiores.
“Entendo o cálculo que o governo faz, tentando evitar a presença militar americana em seu território. Contudo, se as ameaças permanecerem, é inevitável que o país seja alvo de pressões maiores”, afirma Peter Richardson, especialista em Relações Internacionais contemporâneas da Universidade da Pensilvânia.
O problema maior, apontam os especialistas, foi os Estados Unidos focarem suas atenções na “Guerra contra o terror” em países específicos e em momentos distintos, seja com intervenções militares — como no Iraque e no Afeganistão — ou com auxílio financeiro pesado — como a Arábia Saudita, por exemplo. A saída seria justamente estabelecer planejamentos conjuntos, evitando o efeito “gato e rato”.
“Os terroristas sempre vão se deslocar para áreas menos protegidas e com menor presença de tropas. Caso a política americana continue focando em países específicos e relegando menor atenção aos países vizinhos, haverá problemas. O terrorismo atual não vê fronteiras formais como obstáculos”, conclui Richardson.
Fonte: Opinião e Notícia

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