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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Homenagem a um apaixonado por livros

Aos 95 anos, morre em São Paulo o bibliófilo José Mindlin

Morreu na manhã deste domingo o empresário e bibliófilo José Mindlin, de 95 anos, em São Paulo. Ele estava internado há um mês no Hospital Albert Einstein, sofreu falência múltipla dos órgãos e foi enterrado na tarde deste domingo no cemitério israelita de Vila Mariana. Mindlin era o maior colecionador de livros do Brasil e possuia uma das maiores bibliotecas particulares do país com mais de 38 mil títulos reunidos desde que Mindlin tinha 13 anos. Parte de sua coleção foi doada pelo intelectual ainda em vida para a Universidade de São Paulo (USP). Mindlin era membro da Academia Brasileira de Letras desde 2006.

Marcos Vilaça, presidente da ABL, declarou luto de três dias na academia e manifestou seu pesar pela morte do membro ocupante da cadeira de número 29. "Mindlin era um emblema do livro, tinha com ele uma relação orgânica. Lembro com saudade o dia em que estivemos juntos, com Evanildo Bechara, na inauguração do Museu da Língua, em São Paulo, e eu lhe fiz o convite para ingressar na Academia. Vamos sentir muito a sua falta", disse em comunicado.

José Ephim Mindlin nasceu em São Paulo no dia 8 de setembro de 1914. Formado em Direito, foi redator do jornal "O Estado de S. Paulo" entre 1930 e 1934. Atuou como advogado até o começo da década de 50, quando fundou a fábrica de peças automotivas Metal Leve S/A, da qual era presidente. Viúvo de Guita Mindlin, o empresário deixou quatro filhos, netos e bisnetos.

Em 2006, Mindlin foi eleito a personalidade do ano no Prêmio Faz Diferença, concedido pelo GLOBO, e aproveitou a ocasião para se reafirmar otimista com relação ao Brasil, além de declarar que os livros podem ajudar a salvar o país das garras da violência.

Personalidade atuante em diversos meios como o cultural, da educação, na economia, da política, da ciência e empresarial, José Mindlin publicou "Uma vida entre livros - reencontros com o tempo e memórias esparsas de uma biblioteca" e lançou um CD de poesia.

Mindlin: o empresário iluminista, o doador de livros

Nunca vou me esquecer da reunião da Fiesp em que, de repente, José Mindlin se aproximou e puxou assunto. O tema na reunião da Fiesp era um pedido de empréstimos subsidiados, a proteção contra setores que não conseguiam competir com produtos importados. Sei lá. Alguma coisa assim. Na verdade, era um desses assuntos que não merecem ficar na memória, de tanta mesmice. O novo, o diferente, foi a conversa de Mindlin sobre a Semana de Arte de 22. Tive uma aula. Esqueci os outros empresários e fiquei dando atenção àquela conversa afável, cheia de novidades, de Oswald e Mário de Andrade, da publicação de A Revista que ele acabara de fazer. Sai entusiasmada e mais surpresa fiquei quando recebi em casa uma coleção de A Revista que ele me mandou.

Mindlin era doce e interessante. Mindlin era iluminado e iluminista. Mindlin era diferente. Fui algumas vezes vê-lo. Nunca perdi um minuto nessas conversas. Dele saia um fluxo, em corrente contínua, de informações sobre livros. Não havia descrente que não entrasse para a religião dele sobre livro. Guita era igual. Os dois, um par perfeito.

Anos atrás, pedi à Globonews para fazer como primeiro programa do ano uma entrevista com ele, em sua biblioteca. Naquela tarde inesquecível, eu o entrevistei junto com Paulo Marcelo Sampaio. Só que cheguei horas mais cedo. Nenhum jornalista jamais chegou tão cedo para uma entrevista. Nem saiu tão tarde. E eles me pediram para ler para eles. Eu li para ele e Guita. Às vezes tropeçava e eles, de memória, corrigiam. Li poesias de Drummond. Li vários outros trechos que eles se lembravam de cor.

Falamos da paixão por livros que embalou minha infância, me socorreu na adolescência, me acompanha vida afora. Paixão que fez Mindlin gastar um dinheiro incontável juntando livros que doou para o Brasil.

Lembro de quando ele ganhou o Faz Diferença do Globo. Há uma escada para subir ao palco do Copacabana Palace. Eu pedi às meninas do cerimonial que me dessem a honra. Desci do palco com Ancelmo - nós dois fazemos a apresentação do prêmio - e o amparamos na subida. E ele não pesava mais do que a mão de uma criança. Firme ainda aos 90 anos.

No dia da entrevista em sua casa, Guita me contou que um dia houve uma tempestade em São Paulo, ela estava sozinha em casa, e ficou preocupada: que livro salvaria se a enchente entrasse na casa?

- Que livro salvaria? perguntei

- Os poemas de Petrarca.

Manuseei o livro favorito de Guita com temor reverencial. E Mindlin abriu o livro e me mostrou que alguns poemas tinham sido censurados pela Inquisição. Os censores medievais passaram uma tinta em cima. O tempo apagou a tinta e fez reaparecerem os poemas censurados. Me contou que, certa vez, tinha ido a Praga e lá se encontrou com um professor que tinha acabado de sair da prisão decretada pelo governo comunista. O professor estava deprimido, achando que a opressão soviética nunca acabaria. E ele consolou o professor contando a história da vitória de Petrarca sobre a censura. O professor triste era Vaclav Havel, que depois governou a livre República Tcheca.

Eu brinquei:

-Você me contou uma história com dois finais felizes.

O consolo no momento em que o Brasil perde o gigante dos livros é saber que ele se encontrará com sua Guita e juntos falarão os poemas de Petrarca, ou lembrarão as histórias de 22, ou pensarão juntos em como tornar o Brasil, um dia, um país de leitores.

Por: Miriam Leitão

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