As baixarias do casal Clinton
O livro Game change fornece provas sobre o comportamento chocante dos Clintons durante a campanha eleitoral de 2008. As inevitáveis queixas e os resmungos por causa do uso de citações anônimas neste novo e absorvente livro de John Heilemann e Mark Halperin sobre a campanha eleitoral foram acompanhados de uma admissão geral, mais ou menos relutante, de que até agora ninguém citado nessas páginas reclamou de ter sido mal retratado. Se o livro diz a verdade, eis o que ocorreu:
1) depois que sua mulher ficou em terceiro lugar nas primárias de Iowa, Bill Clinton telefonou para o senador Edward Kennedy em busca de apoio e, de acordo com o relato do próprio Kennedy a um amigo, disse do então senador Barack Obama: “Há alguns anos esse cara estaria buscando café para nós”;
2) em uma conversa subsequente, o ex-presidente Clinton disse a Kennedy: “O único motivo pelo qual você o apoia é porque ele é negro. Sejamos claros”;
3) depois que Obama venceu tão facilmente as primárias da Carolina do Sul, em janeiro de 2008, atraindo mais da metade dos eleitores brancos com menos de 30 anos do Estado, o comentário de Bill Clinton para um repórter foi: “Jesse Jackson ganhou na Carolina do Sul em 1984 e 1988. Jackson fez uma boa campanha. E Obama fez uma boa campanha aqui”. A comparação com Jackson circulou na Clintonlândia na noite anterior, em um e-mail do ex-assistente de Bill na Casa Branca, Sidney Blumenthal, que profetizou: “Depois de 5 de fevereiro, Obama pode mostrar-se uma versão reduzida de Jackson”;
4) a menção a Blumenthal me leva ao próximo ponto chocante da narrativa. Em meados de maio de 2008, a campanha de Clinton estava afundando irremediavelmente e começava a se apoiar nos “superdelegados”. Duas coisas aconteceram então: Bill Clinton passaria a usar a questão do racismo ainda mais descaradamente, e Sidney Blumenthal alegaria que Michelle Obama apareceu em uma gravação usando a palavra branquelo.
Novamente citando Heilemann e Halperin: “A principal tarefa de Clinton era continuar a fazer telefonemas para os superdelegados, que ele pressionava agressivamente a favor de Hillary e contra Obama – às vezes agressivamente demais. A mensagem de Clinton, às vezes implícita, às vezes explicitamente, era que o país não estava pronto para eleger um presidente afro-americano. Blumenthal estava obcecado com a “fita do branquelo”, assim como os Clintons, que acreditavam não apenas que ela existia, como também que apareceria a tempo de salvar Hillary.
Segundo o livro Game change, Bill Clinton disse de Obama:
“Há alguns anos ele nos serviria café”
O material sobre racismo não é de maneira alguma a história toda que o livro conta. Todo mundo se lembra das alegações malucas feitas mais tarde por Sarah Palin sobre Obama “andar com terroristas”. Mas a senadora Clinton aparentemente sabia muitas coisas sobre o ex-radical comunista Bill Ayers e a sua suposta proximidade a Obama (que tinha 8 anos quando Ayers estava envolvido com a repugnante atividade de explodir prédios públicos). “Hillary mencionou informalmente a seus ajudantes que tinha ouvido dizer que a mãe de Obama era comunista”.
O que chama a atenção nos exemplos citados em Game change é como os Clintons são baixos quanto ao tom e ao compromisso que revelam em relação à disseminação de insinuações sub-reptícias por meios sujos, covardes e desonestos.
Eu tive um bate-boca público com Blumenthal quando ele difamou mais de uma testemunha feminina que dizia a verdade contra o então presidente Clinton. Na ocasião, comentaristas liberais e pseudoesquerdistas consideravam Clinton uma vítima. Mas foi a velha gangue formada por Bill, Hillary e Blumenthal que entregou as armas de difamação para os republicanos nos estágios finais da última campanha, e foram eles que ficaram desapontados quando o candidato de seu próprio partido venceu de verdade. Vai haver algum reconhecimento tardio de que um conjunto de truques sujos levou a outro? Claro que não. Por enquanto, registrar o placar é a segunda melhor opção.

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