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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Vidas suspensas. Aos poucos as restrições impostas por Israel sufocam os palestinos que residem na Cisjordânia

Cisjordânia sofre com a construção de assentamentos judaicos e com a imposição de restrições por parte de Israel

É como se o ritmo de vida não mais dependesse apenas deles. Parte de sua própria existência ficou atravessada por um muro que se estenderá por 350km, erguendo-se até 8m de altura. “Para viver na Palestina, é preciso ser um homem de verdade”, afirma ao Correio o estudante Safwat Sayel Mohammed Abu Farha, 20 anos, morador de Ramallah, a capital da Cisjordânia e sede do governo da Autoridade Palestina. “Até mesmo as mulheres precisam ter coração de homem”, acrescenta.

Safwat se ressente do tratamento dispensado pelas Forças de Defesa de Israel (IDF, pela sigla em inglês). “É algo muito ruim. Muitas pessoas são presas, há barreiras por todas as cidades, e não podemos visitar Jerusalém se tivermos menos de 40 anos”, comenta. A capital israelensenão reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) é também a cidade sagrada de muçulmanos, católicos e judeus.

“O que você faria se chegasse tarde para suas aulas todos os dias, por causa das barreiras israelenses?”, questiona Safwat. Ele conta que diariamente ouve notícias sobre palestinos presos — algumas vezes até mesmo parentes. “Temos medo de sermos assassinados. Acredite: na Palestina, tudo é possível”, desabafa. De acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), as restrições impostas por Israel, incluindo medidas ostensivas para proteger os assentamentos judaicos situados dentro da Cisjordânia, ainda têm grave impacto nas vidas de muitos palestinos.

A organização não governamental acusa o Estado israelense de impedir que alguns deles visitem parentes ou consigam chegar a um hospital. Também denuncia que o muro da Cisjordânia viola a lei humanitária internacional e isola a Cisjordânia da própria Cisjordânia. Além disso, lembra que a Quarta Convenção de Genebra proíbe o confisco de terra, pertencente ao povo palestino, para a expansão de
assentamentos.

Relações públicas do Centro Palestino para a Paz e a Democracia, também em Ramallah, Majd Al-Biltaji diz ao Correio que seu povo “sofre diariamente com a agressão da ocupação”. “Os postos de controle israelenses dividem cidades e vilas, dificultando nossa movimentação de um local para o outro; soldados tomam terras todos os dias e constroem estradas para os colonos; escavadeiras derrubam casas, por medidas de segurança”, enumera.


Segundo a ativista de 23 anos, as tropas também costumam realizar incursões noturnas em campos de refugiados para deter suspeitos, algumas vezes impondo toque de recolher. “Os israelenses confiscam a água da Cisjordânia, controlam Jerusalém e não permitem que a visitemos”, diz Majd. Mas as violações aos direitos humanos não partiriam apenas do governo de Israel. “Os colonos atacam vilas palestinas, queimam casas, arrancam árvores, batem em crianças e, é claro, os soldados os protegem”, acrescenta. Ela reclama da disparidade das condições de vida entre palestinos e colonos israelenses. “Algumas famílias, como as que vivem em Hebron, tentam sobreviver sem qualquer conveniência moderna, enquanto o assentamento tem tudo o que precisa imediatamente”, denuncia.


Para os palestinos, qualquer analogia com o povo indígena Na’vi, do filme Avatar, não é mera coincidência. Tanto que, no último dia 12, os moradores do vilarejo de Nilin, próximo a Ramallah, pintaram o corpo de azul, imitando os personagens do longa. “Ao contrário de Hollywood, isto é real”, afirmou um dos ativistas a jornalistas ocidentais. Em Nablus, cidade que concentra 300 mil palestinos, o gerente de tecnologia de informação Ahmad Al-Nimer, 24 anos, não mede as palavras para expressar sua revolta. “Eles podem f… conosco a qualquer hora que quiserem”, reclama, referindo-se aos israelenses. “Por aqui, o que domina é a incerteza: você nunca sabe o que vai acontecer. Viajar de um local para outro pode durar para sempre.”


Eu acho...

“A vida é dura para os palestinos que vivem sob a ocupação israelense na Cisjordânia. As restrições à mobilidade e a violência dos colonos tornam difícil obter serviços essenciais. Os assentamentos israelenses ilegais têm sido contruídos por toda a Cisjordânia”

Majd Al-Biltaji, 23 anos, relações públicas, moradora de Ramallah


“Os soldados israelenses podem invadir minha cidade a qualquer momento e prender pessoas. Eles também controlam as estradas que ligam as principais localidades. E mantêm a construção dos assentamentos. A vida por aqui é instável. As coisas podem piorar em questão de minutos”

Ahmad Al-Nimer, 24 anos, gerente de tecnologia de informação, morador de Nablu
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Entrevista - Béatrice Megevand-Roggo

Rotina de humilhação

Pelo menos 300 funcionários do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) monitoram a situação dos palestinos na Cisjordânia. Todos se reportam diretamente a Béatrice Megevand-Roggo, chefe de operações do CICV no Oriente Médio e no Norte da África. Em entrevista ao Correio, por e-mail, ela falou sobre o difícil dia a dia dos palestinos e recomendou ao governo de Israel uma série de medidas para garantir uma vida digna à população.

- A política israelense de alterar o ritmo de vida do povo palestino é uma agressão humanitária?
Viver uma vida normal e digna é quase impossível para muitos palestinos na Cisjordânia ocupada, apesar de a economia ter mostrado sinais de crescimento e de certas restrições ao movimento terem sido levantadas. As proibições de Israel, inclusive medidas ostensivamente desenhadas para proteger os assentamentos, continuam a ter grave impacto sobre os palestinos. Os palestinos mais afetados vivem em áreas sob total controle militar e civil de Israel — que representam mais de 50% do território da Cisjordânia.

- Quais os principais obstáculos impostos à população?
Por décadas, as restrições ligadas aos assentamentos, ilegais sob a lei humanitária internacional, têm resultado na perda de renda e da terra por parte dos fazendeiros. Pelo menos 50% da população da Cisjordânia vive na pobreza. Postos de controle, bloqueios em estradas e aterros, além do traçado do muro da Cisjordânia, representam barreiras diárias para muitos palestinos, restringindo seus movimentos e atrapalhando o acesso a serviços básicos, como saúde, educação, água e saneamento, mas, também, cortando os laços sociais.

- Que outros problemas os moradores enfrentam?
Além dos obstáculos físicos, os palestinos enfrentam “barreiras invisíveis”. O medo de serem atacados por colonos afastou fazendeiros de suas terras, particularmente perto dos assentamentos. A violência cometida por colonos israelenses é frequente e priva os agricultores palestinos de terem renda. Aproximadamente 10 mil oliveiras foram arrancadas ou queimadas nos últimos três anos. Essas “barreiras invisíveis” podem tomar a forma de áreas militares fechadas e zonas de disparo de artilharia, onde é difícil criar o gado. Medidas restritivas de planejamento urbano previnem os palestinos de construir ou reparar suas casas. Muitas famílias constroem sem permissão, com o risco de verem suas casas destruídas. Em 2009, Israel demoliu 20 casas na Cisjordânia e 50 em Jerusalém Oriental.

- Que recomendações a senhora faria a Israel para melhorar a vida dos palestinos?
Em primeiro lugar, é importante sublinhar que o CICV regularmente levanta esses temas humanitários, por meio de contatos diretos com as autoridades israelenses. Não é a primeira vez que tornamos públicas nossas preocupações. Temos feito isso repetidamente, por muitos anos. Apesar das recentes melhorias limitadas observadas na Cisjordânia, o impacto das restrições israelenses são suficientemente sérias para exigirem mais ações. Nós reiteramos nosso pedido a Israel a fazer mais para proteger os moradores da Cisjordânia contra a violência dos colonos, preservar suas terras e plantações, permitir às famílias reparar suas casas e assegurar que todos os palestinos possam ir aos hospitais ou às escolas sem atrasos. Israel deve encontrar o balanço correto entre encontrar suas necessidades legítimas de segurança e resguardar os direitos básicos da população palestina. Sob a lei humanitária internacional, enquanto poder invasor, Israel tem a obrigação de tratar os civis de modo humano. Deve permitir que a economia da Cisjordânia se desenvolva, e garantir acesso suficiente à água e à saúde.

Por: Rodrigo Craveiro - Correio Braziliense

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