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segunda-feira, 8 de março de 2010

Audiência pública do STF sobre sistema de cotas é extremamente parcial - 70% dos convidados defendiam as cotas

AIATOÉLIO GASPARI E A TESE DO ESTUPRO ORIGINAL. OU: DEMÓSTENES PRECISA DO APOIO DOS DECENTES

Se vocês querem saber o mal que a censura politicamente correta pode fazer à inteligência brasileira e à democracia, observem a tentativa de linchamento que hoje atinge o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Já escrevi aqui um longo post sobre a distorção miserável a que sua fala foi submetida por Laura Capriglione em reportagem da Folha sobre a audiência pública feita pelo STF para debater cotas raciais.

Não bastou a falta de isonomia com que o ministro Ricardo Lewandowski conduziu o embatedos 40 convidados, 28 eram favoráveis às cotas. Isso era pouco. É preciso também esmagar quem diverge. Aquele que diverge não é simplesmente alguém que discorda: ele está possuído por idéias malignas e precisa ser destruído.

Nos últimos tempos, no Brasil, um equívoco não está completo se Aiatoélio Gaspari não empresta o concurso de sua pena e as luzes de sua ignorância ilustrada. Comento nota em sua coluna de ontemele em vermelho; eu em azul.

A TEORIA NEGREIRA DO DEM SAIU DO ARMÁRIO
O título já é uma pilantragem intelectual. Ainda que Demóstenes tivesse uma “teoria negreira”, seria dele, não do DEM. É que Gaspari, o isento, não gosta do DEM.

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é uma espécie de líder parlamentar da oposição às cotas para estimular a entrada de negros nas universidades públicas.
O que parece ser informação tem incrível carga de má-fé. O senador se opõe às cotas exclusivamente raciais, como ele deixou claro em sua intervenção, e não “às cotas para estimular a entrada de negros nas universidades”. Gaspari está tentando caracterizar Demóstenes — um político que tem se comportado com grande correção no Senado — como um racista. É VERGONHOSO!!!

O principal argumento contra essa iniciativa contesta sua legalidade, e o caso está no Supremo Tribunal Federal, onde realizaram-se audiências públicas destinadas a enriquecer o debate.
“Enriquecer o debate?” Quem está contestando as cotas está sendo tratado como “negacionista”, similar aos malucos que negam a existência do Holocausto. E Gaspari é um dos que estão metidos nessa empreitada.

Na quarta-feira o senador Demóstenes foi ao STF, argumentou contra as cotas e disse o seguinte:
“[Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. Gilberto Freyre, que hoje é renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual”.
O senador precisa definir o que vem a ser “forma muito mais consensual” numa relação sexual entre um homem e uma mulher que, pela lei, podia ser açoitada, vendida e até mesmo separada dos filhos.
Gilberto Freyre escreveu o seguinte:
“Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime”.
“O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua docilidade de escrava: abrindo as pernas ao primeiro desejo do sinhô-moço. Desejo, não: ordem.”
“Não eram as negras que iam esfregar-se pelas pernas dos adolescentes louros: estes é que no sul dos Estados Unidos, como nos engenhos de cana do Brasil, os filhos dos senhores, criavam-se desde pequenos para garanhões. (…) Imagine-se um país com os meninos armados de faca de ponta! Pois foi assim o Brasil do tempo da escravidão.”

Ao selecionar um trecho de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Gaspari deseduca os que acreditam no que ele escreve e o tomam como referência de rigor intelectual. É o que dá recorrer apenas à Wikipédia. Eu mesmo publiquei trecho do livro em post anterior sobre o tema, preferindo um que fizesse justiça ao estudo do sociólogo pernambucano: relatava, sim, a violência, mas também dava conta de que o “mito do estupro original”, que teria fundado a sociedade brasileira é o que é: UM MITO.

“Mito do estupro original”? Sim, leitores, o que está em debate é maior do que os nossos olhos podem alcançar à primeira vista. No trecho por mim selecionado - QUE É A TÔNICA DO LIVRO DE FREYRE E POR ISSO ELE É TÃO ODIADO PELA MILITÂNCIA RACIALISTA E PELA IGNORÂNCIA ESQUERDOPATA —, fica evidente que a grande miscigenação que há no Brasil (à diferença do que se deu na América Espanhola, por exemplo) decorreu do intercurso entre colonos pobres e negras, em relações no mais das vezes consensuais, sim! E isso não quer dizer que senhores não tenham se valido de sua condição para se impor às mulheres negras. MAS A CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA NÃO FOI FUNDADA PELO ESTUPRO. A metade mestiça dos brasileiros evidencia que não. Os documentos evidenciam que não. Ocorre que essa fantasia é fundamental para que a Constituição brasileira possa ser esbulhada no presente.

Demóstenes Torres disse mais:
“Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (…) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da economia africana”.
Nós, quem, cara-pálida? Ao longo de três séculos, algo entre 9 milhões e 12 milhões de africanos foram tirados de suas terras e trazidos para a América.

Quem não te conhece que te compre”, diz ditado lá da minha terra. Gaspari reafirma o tráfico negreiro como se Demóstenes ou qualquer outro o houvesse negado. Quando? Onde? “Tirados de sua terra” já requer alguma correção. Eram propriedade de senhores negros e foram vendidos a senhores brancos — e certamente não se sabe da vantagem que oferecia a primeira escravidão, cuja existência se tenta negar ainda hoje nos países africanos. Isso não torna os negros “co-responsáveis” por sua escravidão, canalhice que Demóstenes nunca disse e que lhe foi atribuída. Isso nos conta como se deram os fatos. “Negacionistas”, então, são os que pretendem negar a história — história que não é nem preta nem branca: é a história da África, é a história da América, é a história da Europa…

O tráfico negreiro foi um empreendimento das metrópoles européias e de suas colônias americanas. Se a instituição fosse africana, os filhos brasileiros dos escravos seriam trabalhadores livres.

O tráfico negreiro foi um empreendimento das metrópoles européias e de suas colônias na relação com povos africanos que recorriam à escravidão naquele continente muito antes do… tráfico negreiro.
Mas o encantador mesmo é esta frase: “Se a instituição fosse africana, os filhos brasileiros dos escravos seriam trabalhadores livres”. Gaspari deve ter escolhido o jornalismo porque era ruim de lógica. Só pode ser. Isso é só um malabarismo verbal. Atenção! Tio Rei vai tomar uma bolinha dele: “Se a instituição [da escravidão] fosse coisa das metrópoles e das colônias, os filhos dos escravos na África nasceriam livres”. Viram? Deu na mesma! Não dou gorjeta para malabarista em farol. Nem para articulistas. Sem contar que a chance de um escravo obter alforria no Brasil era certamente superior à de obtê-la na África! E isso não torna a escravidão mais doce nem melhor.

No início do século 20 os escravos não eram o principal “item de exportação da economia africana”. Àquela altura o tráfico tornara-se economicamente irrelevante. Ademais, não existia “economia africana”, pois o continente fora partilhado pelas potências européias. Demóstenes Torres estudou história com o professor de contabilidade de seu ex-correligionário José Roberto Arruda.
O senador exibiu um pedaço do nível intelectual mobilizado no combate às cotas.

Começo pela incrível má-fé de relacionar, ainda que seja só mais um malabarismo, Demóstenes a José Roberto Arruda. O senador foi a voz mais estridente em favor da expulsão dos mensaleiros. E todos deixaram o partido — ou seriam expulsos.

Durante séculos, a escravidão foi, sim, o principal item de “exportação” de reinos africanos. No começo do século 20, ainda existia escravidão na África. Gaspari não sabe — ou tenta esconder — que foram as “potências européias” que puseram fim à escravidão nos “países partilhados”. Se, no início do século 20 (e vamos ver se Demóstenes falou realmente isso), já não era o principal item, isso é irrelevante para o debate. É só uma forma de tentar jogar porcaria no ventilador para se impor pela violência e pela desqualificação do outro.

Paulo Francis foi a primeira voz, entre nós, a chamar a atenção para a similaridade que existia entre a patrulha politicamente correta — muito ativa já nos EUA no fim dos anos 70 e início dos 80 — e o fascismo, um fascismo de esquerda.

Ao escrever que Demóstenes “exibiu um pedaço do nível intelectual mobilizado no combate às cotas” — isso depois de falsear o que ele disse e de turvar os fatos com o véu de agressiva ignorância —, Gaspari evidencia o desejo de destruir o senador e de eliminar do debate aqueles com os quais não concorda.

O alvo é Demóstenes — já que não dá para acusá-lo de corrupto, que tal de “racista”? —, o alvo é o DEM, mas é também o Supremo. Gaspari integra a gritaria das ONGs, boa parte delas financiada pela Fundação Ford, que estão patrulhando o tribunal. A intenção é dar um recado: “Ai daquele ministro que decidir votar contra o que nós consideramos correto; vamos tentar destruir a sua reputação”.

Dêem o alerta, mobilizem-se, façam o debate em sua rede de relacionamentos. Eles agora partiram para o esmagamento. Divergir de sua pauta — e, no caso em particular, defender a Constituição — passou a ser visto como coisa criminosa. Demóstenes precisa do apoio dos decentes não porque não saiba se defender. Mas porque os que prezamos os direitos que a Carta nos garante precisamos NOS defender.

AS COTAS SÃO, SIM, UM TEMA IMPORTANTE. MAS RESTA EVIDENTE QUE SÃO APENAS UM SINTOMA. O QUE ESTÁ SOB ESPECULAÇÃO É A DEMOCRACIA, É O DIREITO À DIVERGÊNCIA.

Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo - Revista VEJA

1 comentários:

Júlio disse...

Gostaria de parabenizá-lo, este tipo de atitude deveria sser vista como um atentado a democracia. O direito a opinião é o que temos de mais sagrado.
Só faltou GASPARI concordar com lula e dizer que aqueles que estão presos em cuba pelo simplis fato de serem contra o regime devem ser igualados aos bandidos de São Paulo.