Por: Milton Corrêa da Costa, especial para o Blog Repórter de Crime
De vez em quando temos notícia de fatos envolvendo descontrole emocional de profissionais de polícia, no exercíco ou não da função. A mais recente provém da 39a Delegacia Policial, no bairro da Pavuna, no Rio, onde um policial manteve o Chefe do Setor de Investigações em cárcere privado, nas dependências da própria delegacia, por cerca de cinco horas, fato acompanhado de perto por órgãos de imprensa, tendo ao final se entregado à autoridades policiais que comandaram a negociação. As primeiras notícias dão conta que- as circunstâncias do fato serão devidamente apuradas- o policial em questão apresentou um quadro de distúrbios psicológicos e forte descontrole emocional (crise nervosa), encontrando-se possivelmente insatisfeito com uma recente transferência para aquela unidade de polícia judiciária, resultando numa nova escala de serviço a ser cumprida e que certamente não lhe satisfazia. Registre-se que recentemente noticiou-se mudanças em escalas e horários de serviço na Polícia Civil,objetivando-se uma maior arregimentação de recursos humanos em algumas delegacias policiais, para agilizar procedimentos investigativos e melhor atender ao público.
Escalas à parte, a realidade é que fatos como este, que envolvem desequilíbrios emocionais de policiais, têm sido observados por estudiosos do comportamento humano há algum tempo. Há estudos científicos que comprovam que a natureza da função policial, desempenhada por um ser humano, com problemas como qualquer mortal, numa ambiência antagônica, é propícia à ocorrência de tais surtos. Salários defasados obrigando ao profissional a prestação de serviços particulares de segurança para o digno sustento familiar, o que se convencionou chamar de "bico"; condições nem sempre as mais adequadas para o desempenho da difícil e complexa missão; longos deslocamentos entre ida para o trabalho e regresso ao lar; estigmatização da sociedade à profissão (desconfiança); generalização de críticas; contexto de atuação em ambiência de guerra onde muitos vezes ao policial só lhe é dada uma alternativa: matar para não morrer; desgaste emocional no envolvimento em ocorrências que envolvam confronto bélico com risco da própria vida e de companheiros de profissão; envolvimento em ocorrências que levam a grande desgaste emocional a exemplo do recente ataque ao micro-ônibus na Cidade de Deus, com corpos incendiados por toda a parte, onde uma foto mostra a perplexidade de um policial militar ante uma jovem com o corpo queimado sendo carregada; perda recente de um familiar próximo; dificuldades financeiras; conflitos no relacionamento familiar; enfim uma gama de problemas que acabam levando o homem à situações de elevado estresse.
Os estudos até aqui desenvolvidos indicam, como resultado da natureza da função policial, uma das mais desgastantes das profissões, exercida geralmente num universo desfavorável, que surgem no ser humano as mais diversas reações orgânicas, algumas dando origem a patologias crônicas. As reações mais comuns são: sensação aumentada de perigo/vulnerabilidade; medo e angústia com relação a confrontos futuros; raiva/revolta; pesadelos; depressão; alcoolismo; hipertensão; diabetes; insensibilidade emocional; distúrbios gastrintestinais; dificuldades sexuais; distúrbios neuro-vegetativos; estresse; tudo isso trazendo possíveis comportamentos diversificados, durante as ações na linha de frente e no convívio social, sem falar nos problemas familiares correlatos.
É necessário pois, que além da avaliação médica regular, todo o efetivo policial, da atividade meio ou da linha de frente, seja obrigatória e periodicamente submetido a uma avaliação psicológica.. É fundamental que tal procedimento se torne rotina nas instituições policiais, não somente quando no período de seleção para ingresso. Os que se envolvem em ocorrências policiais de grande dispêndio de carga emocional, precisam obviamente do acompanhamento imediato visando a recuperação emocional. Os setores de psicologia nas instituições policiais, mais do que nunca, no contexto de uma ambiência da violenta guerra urbana que vivenciamos, necessitam estar cada vez mais estruturados para o acompanhamento e pronta assistência ao contingente policial. O ser humano é o patrimônio mais importante das instituições. Portanto, deve ser a sua preocupação maior.
O profissional de polícia lida no seu dia a dia, no desempenho de sua missão de defesa da sociedade e de fiscal da lei, com vida e liberdade, os dois maiores e preciosos bem tutelados, onde o erro policial pode ser fatal. Um exemplo característico de grande equívoco durante a intervenção em uma ocorrência, resultando em comoção e repulsa popular, se deu em 2008, no bairro da Tijuca, no Rio, onde dois policiais militares, ao abordarem o veículo de uma senhora, imaginando tratar-se do carro de meliantes, acabaram matando uma criança. Uma preciosa vida perdida, uma família destroçada e policiais- há notícias de que foram excluidos da corporação- com sequelas para o resto de suas existências e seus familiares também destruídos.Tal e qual um médico, no exercício regular da função, um policial não pode errar.
É importante ressaltar, no entanto, que a profissão policial é de caráter voluntário, um sacerdócio, que não pode ser transformada em "bico". Não se pode perder de vista que o serviço público é a ocupação principal do profissional de polícia, pago pelos impostos do cidadão, onde ao ingressar nas fileiras da instituição policial jurou defender a sociedade com o sacrifício da própria vida. A sociedade, a destinatária do serviço policial, lhe concede a carteira e a arma, símbolos da nobre missão, para a legítima defesa própria e a dos concidadãos. Que esta arma e a carteira funcional não se voltem contra a própria sociedade. O equilíbrio (controle do estresse), a ética, a técnica e os limites aos parâmetros da lei são o alicerces em que se sustentam a atuação do policial num estado democrático de direito, onde todo cidadão é igual perante a lei, independentemente de raça, cor, credo, grau cultural e condição social. Cumpra-se. A profissão policial só é dada aos verdadeiramente vocacionados."Ser policial é sobretudo uma razão de ser", diz a bela canção. "
Milton Corrêa da Costa é Tenente Coronel da PM do Rio na reserva

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