Ex-PM conta como funciona uma blitz caça-níquel
No mundo da rapinagem não existe inocente. A sociedade reclama da corrupção policial, mas muita gente estimula essa corrupção para se livrar de seus pequenos e grandes delitos. Lamentavelmente é cada vez maior o número de pessoas tentando escapar de um flagrante delito, fazendo bandalhas no trânsito, tentando furar fila, obtendo vantagens ilícitas, complementando a renda com bicos ilegais, vendendo a mãe a preço de ocasião, dando troco errado até para cego.
Era mais ou menos esse o tema da agradável conversa com um motorista de táxi quando ele, sem quê nem porquê, abriu o bico, entregou o serviço, bateu o bizu:
- Eu fui PM e sei como funciona a coisa. Tem dia que você precisa completar o salário e não tem jeito. A gente vai pra pista pra arregaçar mesmo.
- Como assim? - me fiz de bobo.
Começava ali um relato etinográfico de como funciona uma blitz caça-níquel, dessas que a gente suspeita ver todo dia, em alguma curva escura da cidade.
Lotado no 9o Batalhão da PM - esse onde há policiais que se envolveram em nove de dez chacinas nos últimos 20 anos - o policial conta que deixou a farda por motivos de saúde. Ex-PM relembrou com saudade dos tempos em que ele e seus colegas de Patamo cobravam pedágio de todo caminhão em situação irregular que passasse por determinada rua de Rocha Miranda.
- Era cinquinho, dezinho. Quanto o cara tivesse na mão - conta o ex-policial, acrescentando que o esquema era acobertado por oficiais dentro do batalhão, que cobravam uma taxa semanal que poderia girar em torno de R$ 200 reais por patrulha.
Segundo o ex-PM, os "caçadores" tinham que faturar mais do que a féria do oficial. E caso não cumprissem as "metas" eram destituídos do "cargo", perdendo aquele setor do policiamento ou até mesmo a rua. Mas o ex-PM disse que ninguém ficava triste com o faturamento. Sobrava "cerveja' pra todo mundo.
Ao saber que estava conversando com um repórter, o ex-PM me garantiu que sua equipe jamais parava quem aparentasse estar em situação regular e tampouco pediam dinheiro a quem estava com a documentação em dia.
Um esquema desses não acaba nunca porque há três segmentos bastante interessados: o motorista que quer se livrar da multa ou da eventual apreensão do veículo, o policial que está na ponta e o que está dentro do quartel. Até um dia que a casa cai. O policial libera um veículo que, mais adiante, sem condições alguma de circular, bate num carro digirido por aquele figurão da novela das oito. Aí o caso vai parar na delegacia, chega imprensa, luzes, câmeras, repórteres e fotógrafos.
É quando os policiais pronunciam então aquela expressão que os atores usam entre si para dar sorte, antes de entrar no palco - merda.
Fonte: Blog 'Repórter de crime'

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