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sábado, 10 de julho de 2010

Patrimônio para eleitor ver

Candidatos subavaliam patrimônio na hora de declarar ao TSE
Bens declarados ao TSE pelos candidatos são uma peça de ficção. Há subavaliação de até 300% nos imóveis de alguns deles

Em nome da transparência, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exige a declaração de bens dos postulantes a cargos eletivos no ato do registro da candidatura. Mas o efeito é inócuo. Como não compete ao órgão passar um pente-fino sobre os rendimentos e a declaração nem sequer precisa ser coerente com a apresentada à Receita Federal, existe uma grande disparidade entre aquilo que é declarado e o valor real do patrimônio do candidato. Não há ilegalidade nisso. Mas trata-se de um mau exemplo que vem de cima – quem declara seus bens por valor menor sabe bem o que está fazendo.

A reportagem de ISTOÉ visitou os principais imóveis declarados pelos concorrentes ao Palácio do Planalto e seus respectivos vices e os submeteu à avaliação de experientes corretores, além de empresas do ramo imobiliário e sindicatos estaduais de habitação. Ficou evidente que todos os imóveis foram subestimados no documento entregue ao TSE pelos candidatos à Presidência da República. Em geral, eles preferem registrar os imóveis conforme suas declarações de Imposto de Renda, nas quais a Receita não permite a atualização de valores. Mas ISTOÉ também procurou analisar outros bens declarados pelos candidatos e as aplicações que eles fazem com seus salários. A situação de defasagem é idêntica.

A subavaliação de alguns imóveis passa de 300%. É o caso da propriedade descrita pelo deputado Michel Temer (PMDB-SP), candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff, como um “prédio” com área de 546 metros quadrados. Trata-se do sobrado número 37 da rua Bennet, onde ele mora, cuja frente dá para a valorizada praça Conde de Barcelos, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. De acordo com um corretor autônomo que atua na área, o metro quadrado do terreno na região custa em média R$ 2 mil.

Assim, o sobrado de Temer poderia valer no mínimo R$ 1,9 milhão. Sem avaliar a parte interna do imóvel, o corretor acredita que ele poderia ser colocado à venda, como uma excelente oferta, por R$ 2,2 milhões. Na declaração entregue à Justiça Eleitoral, o imóvel valeria R$ 722.977.41. “Se ele colocar à venda pelo dobro, em cinco minutos tem fila na porta para comprar”, comenta o corretor.

A meio quarteirão da valorizada praça Conde de Barcelos, há uma casa térrea, em mau estado, à venda por R$ 1,6 milhão. No documento remetido ao TSE, Temer ainda avaliou um apartamento na rua Pedroso Alvarenga, Itaim-Bibi, em R$ 100 mil. O vice de Dilma, que declarou um patrimônio total de R$ 6 milhões, não informou o tamanho desse imóvel. Ocorre que, de acordo com a empresa especializada Caspannas, o apartamento pode valer o dobro. O menor flat na região, de 42 metros quadrados, não sai por menos de R$ 180 mil.
Cabeça da chapa governista, Dilma teve o seu patrimônio conhecido pela primeira vez, pois nunca havia disputado um cargo eletivo. Pelo valor declarado, os bens da petista somam R$ 1,06 milhão. Mas, dos cinco imóveis declarados, quatro estão abaixo do valor de mercado. Entre eles, um apartamento localizado na rua Couto de Magalhães 1.155, no bairro Higienópolis, em Porto Alegre (RS).
O imóvel foi orçado em R$ 250.520.
Segundo relatório do Sindicato da Habitação (Secovi) do Rio Grande do Sul, o preço médio de um apartamento similar ao de Dilma localizado no mesmo bairro é de R$ 422.360,78. O valor pode chegar a R$ 750.000, dependendo das condições da propriedade. Outro imóvel subavaliado é o apartamento, no Condomínio Solar, na av. João Pinheiro, em Belo Horizonte (MG), avaliado em R$ 118.611, que Dilma recebeu de herança. De acordo com a empresa que administra o condomínio do edifício, os apartamentos no prédio custam entre R$ 270 mil e R$ 450 mil. A ex-ministra da Casa Civil também estimou em R$ 49.542,47 um lote no Condomínio Alphaville, em Porto Alegre. Na semana passada, um terreno no mesmo local estava à venda por R$ 300 mil. Mas o que mais chamou a atenção na declaração de Dilma ao TSE foram os R$ 113 mil em espécie que ela diz guardar em casa. A ex-ministra justificou: “É uma decisão minha. Não há nada de ilegal nisso.”

Os patrimônios informados por Marina Silva e seu vice, Guilherme Leal, apresentam quase um conflito de classe. Leal é disparado o mais rico entre os aspirantes ao Planalto, com bens de R$ 1,197 bilhão. E Marina é a mais pobre. A casa declarada por Marina no bairro São Francisco, em Rio Branco (AC), por R$ 60 mil, é até coerente com o valor de mercado. O que impressiona é o fato de uma senadora da República, com oito anos de mandato, cujos rendimentos brutos podem chegar a R$ 300 mil por ano, só ter amealhado R$ 150 mil de patrimônio. “A Marina não conseguiu juntar mais bens, ao longo da vida, por que é de família pobre. Ela contribui de maneira determinante com a renda mensal do pai e de seis irmãos”, explicou sua assessoria. Além da casa, Marina declarou seis lotes de 16.197 metros quadrados, totalizando R$ 42.481,50; e um saldo em conta-corrente de R$ 46.782,88.

O caso de Marina é excepcional e só encontra paralelo dentro do seu próprio partido, o PV. Candidato “verde” ao governo do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira declarou patrimônio total de R$ 58,9 mil. São apenas duas motos Suzuki, no valor de R$ 10.950 cada uma, e duas aplicações no Banco do Brasil de pouco mais de R$ 37 mil. Uma das aplicações, em renda fixa, é de apenas R$ 3.493. Com este valor, considerando o pequeno rendimento da aplicação e as taxas de administração e impostos que paga, Gabeira tem quase um prejuízo. O apartamento onde mora, em Ipanema, está no nome da mulher. A declaração mostra um crescimento de R$ 5 mil em comparação com a declaração apresentada na sua candidatura à prefeitura da capital fluminense, em 2008. No último mês, perguntado por ISTOÉ se iria se licenciar para se dedicar à campanha eleitoral, Gabeira negou. E explicou: “Vivo do meu salário de deputado.”

Perto de Guilherme Leal, Marina e Gabeira são paupérrimos, quase franciscanos. Ao contrário de Marina, proprietária de uma modesta casa, Leal declarou cinco imóveis: um apartamento de R$ 1,7 milhão no Jardim Paulista e duas casas de R$ 1,5 milhão no Jardim Europa (SP), além de dois terrenos em Ilhabela (SP), no valor de R$ 21 mil, juntos. Os dois maiores investimentos são R$ 625 milhões, num fundo do Itaú, e R$ 12,2 milhões no banco suíço Credit Suisse. Constam ainda uma lancha de R$ 608 mil, um espaço na marina do Iate Clube de Santos (R$ 127 mil) e um jazigo no cemitério Morumbi (R$ 3,9 mil), além de R$ 5,7 milhões em joias e obras de arte. E assim mesmo os valores também estão subavaliados. O patrimônio declarado é inferior a um terço do atribuído ao dono da Natura pela revista “Forbes”, que lista as maiores fortunas do mundo. Em março, a publicação estimou o valor dos bens do empresário brasileiro, agora político, em US$ 2,1 bilhões.

A exemplo dos outros concorrentes ao Planalto, os bens declarados por José Serra e Índio da Costa também destoam do valor real. O total estimado do patrimônio do vice de Serra é de R$ 1,44 milhão. Ele declarou R$ 601.722,15 em imóveis: 50% (R$ 100 mil) do terreno do condomínio Aero Rural em Mangaratiba (RJ) e outra gleba adquirida, em outubro do ano passado, no mesmo local, por R$ 360 mil. Porém, segundo a corretora Ana Maria Lamounier, o terreno no condomínio da Rio–Santos não sai por menos de R$ 600 mil reais. “É o menor valor da área aqui”, disse Ana Maria, que comercializa terrenos no condomínio. Dependendo da localização, um lote no Aero Rural pode chegar a R$ 900 mil. Ou seja, os terrenos declarados pelo parlamentar do DEM estão defasados em pelo menos R$ 600 mil. O bem de Índio da Costa que chama mais atenção é um ultraleve que custaria R$ 170,9 mil. É um bom preço para voar.

O cabeça da chapa tucana, José Serra, declarou um patrimônio total equivalente ao de Índio: R$ 1,42 milhão. Mas poderia ser o dobro se a casa onde reside há mais de 15 anos no Alto de Pinheiros, área nobre de São Paulo, não estivesse registrada no nome de sua filha, Verônica, conforme confirmou à ISTOÉ a assessoria de campanha de Serra na quinta-feira 8. O imóvel foi adquirido em 2001 por R$ 475 mil, mas hoje está avaliado em R$ 2 milhões. Serra revelou ainda ter uma casa de veraneio no loteamento da fazenda Angico, situado na estância turística de Ibiúna, a 70 quilômetros da capital paulista, onde, por coincidência, foi realizado o famoso Congresso da UNE de 1968. Ele não descreve o imóvel, que diz valer R$ 61.069,81. Mas pesquisa feita em imobiliárias de Ibiúna indica que os preços de casa na região variam de R$ 200 mil a R$ 2 milhões, dependendo da localização do terreno em relação à represa de Ituparanga.

Não seria correto afirmar que os candidatos subestimam o seu patrimônio com a finalidade de omitir o valor total de seus respectivos bens. Afinal, a prática não fere a lei. Mas o fato é que as disparidades entre o valor declarado dos bens e o patrimônio real são evidentes. O TSE se diz de mãos atadas, uma vez que cumpre tão somente a legislação em vigor. Em resolução aprovada em março deste ano, o tribunal deixou aberta a possibilidade de o candidato não seguir o modelo da Receita Federal. Os ministros da corte entenderam que não poderiam criar essa exigência por não estar prevista na lei eleitoral. O artigo 11 da chamada Lei das Eleições nº 9504 apenas diz que o candidato, no ato da inscrição da candidatura, deve apresentar “declaração de bens assinada”. O economista Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas, concorda que o documento, da maneira como é apresentado ao TSE, não tem eficácia. “Seria desejável que, além de estar vinculada à Receita, a declaração envolvendo homens públicos apresentasse valores sempre atualizados, já que essa informação é fundamental para o voto consciente do eleitor”, disse. Mas, enquanto a lei não mudar, a declaração de bens dos candidatos à Justiça Eleitoral continuará a ser uma mera peça de ficção.

Fonte: Revista IstoÉ

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