Elite turca ajudou a organizar frota atacada por Israel, diz "NYT"
A organização de caridade responsável pela embarcação turca que liderou o comboio humanitário atacado pelo Exército de Israel em 31 de maio tem ligação com a elite da Turquia, e a tentativa da frota de desafiar o bloqueio à Gaza teve o apoio do governo turco. As informações são do jornal "New York Times", que cita diplomatas e fontes do governo.
De acordo com o "NYT", embora tenha sido criticada no exterior, a ação do grupo, denominado I.H.H., ajudou o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, a obter o apoio da ala muçulmana conservadora do país e aumentar a influência da Turquia no mundo árabe. Segundo fontes do governo turco, que falaram ao jornal em condição de anonimato, cerca de dez parlamentares do governista AK (Partido da Justiça e Desenvolvimento) consideraram a possibilidade de embarcar no navio Mavi Marmara, que foi atacado por soldados e teve nove ativistas mortos. No entanto, funcionários do ministério turco de Relações Exteriores alertaram que a presença dos políticos poderia acirrar demais as tensões com Israel.
Ao retornarem à Turquia, os ativistas foram bem recebidos por representantes do governo, de acordo com Huseyin Oruc, vice-presidente do grupo, que estava na embarcação. "Quando voltamos à Turquia, eu estava com medo do que poderia acontecer devido ao episódio, mas quando desci do avião em Istambul vi Bulent Arinc, o vice-primeiro-ministro, em prantos", disse ele, citado pelo jornal. "Nós temos uma boa coordenação com o sr. Erdogan".
No entanto, Egemen Bagis, ministro turco para assuntos europeus, negou em uma entrevista que o AK mantenha laços com o grupo. "O I.H.H. não tem nada a ver com o AK, e não existe uma agenda secreta," disse Bagis.
LIGAÇÃO COM GOVERNO
De acordo com o "NYT", 21 pessoas que fazem parte do I.H.H. têm fortes elos com o AK. Em janeiro, Murat Mercan - presidente do comitê parlamentar de Relações Exteriores e alto membro do partido - se juntou a um comboio terrestre para Gaza organizado pelo grupo que tentava forçar a entrada na região pela passagem de Rafah, no Egito.
O grupo humanitário foi fundado no início da década de 90, a princípio para ajudar a população carente em Istambul e as vítimas da guerra na Bósnia. Hoje, o I.H.H. atua em mais de cem países e enviou 33 toneladas de ajuda ao Haiti após o terremoto de janeiro. A entidade possui um braço na Cisjordânia e outro em Gaza, onde famílias turcas ajudam a pagar pela educação e saúde de cerca de 9.000 crianças órfãs.
NAVIO LÍBIO
Nesta quarta-feira (14), pouco mais de um mês após o incidente envolvendo o comboio liderado pela Turquia, uma embarcação líbia que transportava 2.000 toneladas de alimentos e remédios para a população da faixa de Gaza chegou ao porto de El Arish, no Egito.
Ativistas líbios diziam que o objetivo era seguir até Gaza, mas decidiram alterar a rota devido a um aviso do Exército de Israel de que não seria permitida a chegada à região. Youssef Sawani, diretor da Fundação Gaddafi, responsável pelo navio Amalthea, havia confirmado a decisão de mudar a rota da embarcação por "razões de segurança".
"Seria inaceitável para nós entrar em confronto e criar uma situação de risco, por isso o barco seguirá para El Arish, de onde o Egito fará com que a carga chegue até Gaza", disse. "Os objetivos do Amalthea foram atingidos sem violência, e o resultado são vantagens para os palestinos", acrescentou. O líder do movimento radical islâmico Hamas, Ismail Haniyeh, havia pedido à tripulação da embarcação para que seguissem rumo à costa de Gaza.
PROVOCAÇÃO
O ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, declarou no final de semana passado, em um comunicado enviado à imprensa, que envio do navio era 'uma provocação desnecessária', já que a carga pode chegar à faixa de Gaza pelo porto israelense de Ashdod ou o egípcio de El Arish "após a comprovação de que não há armas".
Israel impôs um bloqueio marítimo a Gaza em junho de 2007, quando o Hamas assumiu o controle do território e expulsou os moderados ligados ao presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas. Recentemente, Israel suspendeu algumas das restrições, após as pressões internacionais devido às mortes dos nove ativistas turcos na abordagem militar em 31 de maio. Apesar do alívio do bloqueio, persiste o cerco terrestre, marítimo e aéreo à faixa, que Israel justifica com a necessidade de impedir que armas cheguem às milícias palestinas.

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