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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Taxa de crescimento do Brasil = vôo da galinha

Eu não sou o primeiro analista e tampouco serei o último a comparar a taxa de crescimento do Brasil com o comportamento do voo da galinha.

A galinha é incapaz de manter um voo por mais de alguns segundos e, via de regra, o voo é curto.

Melhor paralelo com a economia brasileira, impossível. Historicamente, sabemos que crescimentos robustos são cíclicos e têm vida curta.

Essa imagem sempre vem à cabeça dos economistas e estudiosos do tema, quando nosso país ostenta indicadores expressivos de crescimento, porém sem a devida sustentação para que o voo permaneça por um longo período em uma altitude de cruzeiro.

Pena que o governo não atente para tal fato, que sempre aborta uma trajetória firme de expansão.

A falta de sustentação do voo decorre da falta de investimento prévio. Atualmente, a taxa média de investimento brasileiro está na casa de 19% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para que o país consiga crescer com algum grau de sustentabilidade, seria necessária taxa de crescimento em torno de 25% do PIB. Isso apenas para começar.

Hoje, muitos se regozijam (particularmente alguns setores do governo e, particularmente, o partido que apoia a candidata da situação) com o provável crescimento acima de 7% que o Brasil terá neste ano.

Acontece que esse patamar será pontual e, provavelmente, será sucedido por algum freio de arrumação que o governo terá de impor para não deixar a inflação voltar. Quanto antes este freio vier, melhor.

Por outro lado, 2010 é ano de eleição, e o presidente Luís Inácio Lula da Silva, inequivocamente o maior cabo eleitoral da candidata Dilma Rousseff, já deixou claro com palavras e atitudes que sua prioridade é eleger seu sucessor. Isso é, um ajuste mais forte, só depois da eleição.

O próprio ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, chamou de gandaia as pretensões de aumento salarial de várias categorias.

Recentemente, o presidente da República sancionou projeto que eleva acima da inflação os vencimentos dos aposentados que já recebem acima de um salário mínimo.

Essa atitude contribui ainda mais com o desequilíbrio das contas públicas, com o aumento da inflação e a manutenção de um artificial aumento de PIB, movido principalmente pelo consumo das famílias. Esse modelo, assim como o voo da galinha, não tem vida longa. Ao contrário.

Mas cedo ou mais tarde, o choque de realidade virá e os governantes terão de tomar medidas amargas para colocar a economia nos eixos e controlar a inflação.

Leia-se, aumento da taxa básica de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Enquanto esse momento não chega, não nos deixemos contagiar pelo provável aumento de 7% do PIB para 2010.

Rafael Paschoarelli é professor de Finanças do Departamento de Administração da Universidade de São Paulo

Fonte: Brasil Econômico

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