O momento da prisão, a tortura e os anos no presídio Tiradentes – de acordo com os relatos de quem ficou com ela na cadeia
Eram 16 horas do dia 16 de janeiro de 1970, na Rua Martins Fontes, centro de São Paulo, quando Dilma Vana Rousseff Linhares foi presa. Ela carregava na bolsa uma carteira de identidade falsa em nome de Maria Lúcia dos Santos, um título de eleitor e uma carteirinha de estudante colegial, com outro nome falso, de Marina Guimarães Garcia de Castro – e há controvérsia sobre a presença de uma arma. O horário e as identidades falsas constam de documentos obtidos por ÉPOCA nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
Na foto, uma universitária mineira de 22 anos, cabelos castanhos encaracolados, curtos, com o rosto moldurado por óculos pretos e grossos.
Militante da organização clandestina VAR-Palmares, um grupo com raízes no movimento estudantil e no Exército que pegava em armas para combater o regime militar, Dilma é descrita na documentação como “militante de esquema subversivo-terroristas (sic)”, “uma das molas mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pela esquerda radical” e “pessoa de dotação intelectual apreciável”. Ela era conhecida por
codinomes como Estela, Luiza e Wanda, além dos nomes que constavam em seus documentos falsos. Para reconstituir seus 28 meses na prisão, ÉPOCA consultou toda a documentação disponível no Dops e entrevistou dez ex-presos políticos que conviveram com Dilma atrás das grades em diferentes períodos.
Depois de presa, Dilma foi, de acordo com a documentação do Dops, levada diretamente para as instalações vizinhas ao quartel do Segundo Exército, na Zona Sul de São Paulo, onde funcionava a Operação Bandeirantes (Oban), um centro de interrogatório e tortura a presos políticos. Lá estava preso Antonio Roberto Espinosa, um dos líderes da VAR-Palmares. “A equipe de tortura já recebia batendo”, diz Espinosa. “Você chegava, era algemado, descia no pátio e era recebido num corredor polonês. Ia apanhando escada acima. Chegava à sala de tortura e era imediatamente despido.”
Segundo os ex-presos, os primeiros dias de tortura costumavam ser os piores, porque os interrogadores queriam extrair o máximo de informações no menor tempo possível. Na Oban, eles costumavam deixar o preso nu, sozinho, e voltavam horas depois para um novo interrogatório. Algumas mulheres eram presas grávidas. Outras estavam amamentando e eram separadas de seus bebês – foi o que aconteceu com a jornalista Rose Nogueira, de 64 anos, contemporânea de Dilma na prisão. “Eu tinha 23 anos e fui separadado meu bebê quando ele tinha 1 mês”, diz ela.
A fotógrafa Nair Benedicto, hoje com 70 anos, também esteve presa com Dilma. Ela conta que foi levada para a Oban com o filho de 1 ano e meio, acompanhada da mãe. “Eu ficava ouvindo meu filho, que já estava andando, do outro lado da cela, mexendo nos trincos, e eles me diziam: ‘Tá vendo? Estão torturando seu filho’”, afirma. Nair diz que sua mãe e seu bebê só foram liberados um dia depois. Espinosa diz que, na Oban, três equipes se revezavam em turnos. Essas equipes eram dividas entre o grupo que fazia a captura dos prisioneiros e os que realizavam a tortura.
De acordo com os documentos obtidos por ÉPOCA, depois da passagem pela Oban, no dia 3 de março Dilma foi levada para o Dops, onde ficou por dois meses. Era lá que os militares faziam a ficha do preso político. “Ficávamos num porão, sem claridade, com aquele cheiro de mofo. Você entrava, passava pela carceragem e havia um corredor em L, onde estava o fundão”, diz Nair. Ela conta que, ali, homens e mulheres se uniam na solidariedade. “Quem tinha um biscoito mandava meio biscoito para quem chegava da tortura”, afirma.
Em um texto que produziu para ÉPOCA no ano passado, Dilma lembrou seus tempos de Dops. Afirmou que foi para uma cela solitária com Leslie Denise Beloque, hoje economista.
Certo dia, diz Dilma, um senhor bateu com uma caneca na janelinha da cela das moças e perguntou o nome delas. Era Jacob Gorender, baiano, ex-militante do PCBR e historiador marxista. “Fizeram barbaridades com ele e passamos a cuidar dele. Lavávamos sua roupa, amassávamos abacate, botávamos açúcar, limãozinho. Ficamos amicíssimas dele. A gente o achava velho, mas ele tinha 47 anos”, escreveu Dilma. Nair afirma que, no Dops, quando os guardas se distraíam, era possível dar um alô para os colegas da ala masculina ou até cantar músicas juntos. Depois do Dops, alguns presos políticos seguiam para o presídio Tiradentes, que ficava na Avenida Tiradentes, Zona Norte de São Paulo. Segundo a economista Diva Burnier, de 63 anos, Dilma chegou ao presídio com Leslie Denise e sua cunhada, a pedagoga Maria Luiza Belloque.
Dilma e o ex-marido costumavam se encontrar
no pátio para “visitas higiênicas”
“Quando a Dilma chegou no Tiradentes, ela tinha um cabelo bem curtinho, era magra e já encontrou toda uma organização. A gente já podia receber comida e livros”, afirma Nair. As primeiras presas políticas do Tiradentes – também chamado de A Torre –, como Nair, Emilia Vioti, Maria do Carmo Campelo de Souza, Dulce Maia e Rose Nogueira, fizeram várias reivindicações de melhoria para a prisão. “No começo, a gente não tinha direito a nada. Tiravam tudo, desde fivela de cabelo, brincos até os sutiãs com bojo”, diz Nair. “Pedi para receber livros, talheres e uma televisão. Eu só podia receber visita dos meus pais e irmãos”, afirma a hoje produtora Dulce Maia, de 61 anos, que ficou meses numa solitária. De acordo com Dulce, o único a conseguir furar o cerco imposto a ela na prisão foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, então professor universitário. “Não sei como ele conseguiu.”
As presas contam que, logo que chegavam à Torre, eram rigorosamente revistadas, obrigadas a ficar de cócoras e apalpadas pelas carcereiras. Ao passar pelas celas das presas comuns, conhecidas como “corrós” – o termo popular usado para descrever as “correcionais”, presas por crimes como “vadiagem” ou “prostituição” –, ouviam os gritos: “Carne fresca, carne fresca!”. “Fiquei aterrorizada quando cheguei ao Tiradentes”, diz Diva. “Era muita gente gritando.” Para a maioria, porém, era um alívio chegar à Torre, porque o “mundão”, como chamavam a vida lá fora, começava a se conectar com o “mundinho”, a vida na prisão. Familiares e amigos poderiam localizá-las, ao contrário do que acontecia no Dops e na Oban. As presas podiam receber cartas – vistoriadas pela carceragem – e visitas, com alimentos, livros, discos, vitrolas, rádios de pilha ou televisões.
As visitas aconteciam aos sábados à tarde, e as mulheres costumavam se produzir para esses encontros. Rose conta que Dilma normalmente andava de moletom ou calça jeans, mas colocava um batom para ver sua mãe, a viúva Dilma Jane Silva Rousseff, e seus irmãos. Não era sempre que dona Jane ia visitá-la, pois morava em Belo Horizonte. As presas também arrumavam o cabelo e a moda na época era encrespá-lo. “A Dilma não fazia papelote porque já tinha o cabelo crespo”, diz a ex-presa Leane Almeida, de 61 anos, hoje paisagista. Elas também trocavam roupas e sapatos uma com a outra, pois não queriam passar aos familiares nenhum sinal de dor ou desespero.
Durante alguns meses, Dilma também descia ao pátio para ver seu então marido, o jornalista gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, um militante da VAR-Palmares preso sete meses depois dela. Enquanto Dilma estava presa e ele não, Carlos teve um caso com a atriz Beth Mendes. Espinosa, que depois dividiu a cela com Carlos, disse que sabia desse affaire. “Até eu ser preso, o caso com a Beth Mendes era segredo”, diz. Dilma e Carlos costumavam se encontrar no pátio para um ritual conhecido no presídio como “visita higiênica”. Era uma espécie de privilégio. Dilma diz que, depois, perdoou Carlos. Eles viveram juntos por 30 anos e tiveram uma única filha, Paula, que nasceu em março de 1976. O casal se separou em 1996 e se divorciou em 2000.
No Tiradentes, as mulheres formavam aquilo que, nas palavras da ex-presa e hoje historiadora e socióloga Márcia Mafra, de 62 anos, era uma espécie de “condomínio em que todas eram responsáveis por cozinhar, fazer trabalhos manuais, limpar as celas”. Elas se dividiam em duplas. Na cozinha, Dilma fazia dupla com Maria Aparecida Costa, advogada, de 63 anos. Cida Costa conta que ela e Dilma nunca foram talentosas no fogão: “A Dilma era desprovida de qualquer dote para a arte do forno e fogão. Acabamos juntas, escolhidas ou nos escolhendo, porque íamos dormir tarde”. Cida diz que ela e Dilma criaram um método para cozinhar: faziam o básico à noite, como arroz para 40 ou 50 pessoas, e a “mistura” – quase sempre uma omelete com sardinha – no dia seguinte. “Não havia geladeira. As verduras e os legumes eram conservados em isopores com água”, diz Rose. A cozinha era uma cela cinza, onde havia apenas um fogão grande e prateleiras. O almoço era a única refeição que as presas faziam juntas. Cada uma tomava o café da manhã em sua cela, com os alimentos trazidos pela família. Se chegava uma torta ou bolo, em geral eram divididos. “Chegavam esfacelados depois de passar pela revista”, afirma Rose.
A população da Torre, na conta das ex-presas, variou entre 20 e 60 mulheres. Cida afirma que, durante muito tempo, Dilma ficou em sua cela. “No térreo, havia a ‘celinha’ e um ‘celão’. Subindo a escada, logo à direita, vizinha à cozinha, ficava nossa cela. A visão da rua era a liberdade, ali, ao alcance do olhar”, diz. Todas dormiam em beliches que funcionavam como cama, mesa, cadeira – e um recanto para ficar só. Dilma, diz Cida, dormia na cama de cima. Uma caixa de madeira era onde as presas mantinham seus objetos pessoais. Ali, no mocó, como diziam, se refugiavam para ler, ouvir música ou apenas ficar em silêncio. De acordo com Leane, nos momentos mais melancólicos – e todas confessam que tinham os seus –, Dilma costumava ouvir tango. “Ela punha o disco, deitava e ficava escutando, fumando, compenetrada. E isso era na minha cela, porque a gente tinha uma vitrola”, diz. Márcia afirma que eram musicalmente ecléticas: “Tínhamos uma coleção de discos, inclusive os recém-lançados, que iam de Elis, Milton Nascimento, Chico Buarque, passando por Johnny Hallyday, chegando a Vivaldi, Beethoven e Brahms”. Márcia conta que fazia sucesso na prisão a canção London, London, de Caetano Veloso, sobre o exílio. Dilma já disse que também gostava de Billie Holliday.
De todas as atividades, afirmam que o que mais faziam era ler. Os livros circulavam entre as presas políticas, que depois se reuniam para discuti-los. Eram livros de economia, política, marxismo, trazidos pelos familiares ou que chegavam da ala masculina. As carcereiras também às vezes conseguiam trazer jornais. “Eu me lembro de ler o Estadão”, diz Rosalba. Márcia cita André Malraux, García Márquez, Mario Puzo, Irving Wallace entre os autores lidos no Tiradentes. “Na prisão, a gente podia refletir e ler muito. Li Lévi-Strauss, Poulantzas, quase todo Dostoiésvski”, disse Dilma em entrevista concedida anos atrás. As presas decidiam um texto em comum e todas liam. Depois, discutiam. As mulheres vinham de organizações políticas com orientações distintas, com idades, origens sociais e profissões diferentes. No confinamento, diz Cida, até surgiam divergências, intolerâncias e cobranças. Mas, segundo os relatos das ex-presas políticas, predominava o sentimento de solidariedade.
“Dilma não tinha nenhum talento na cozinha”, diz uma colega de presídio
O livro Tiradentes, um presídio da ditadura, de Izaías Almada, Alipio Freire e J.A. Granville, que reúne depoimentos de 35 ex-presos políticos que passaram por lá, relata que um dos momentos políticos mais difíceis no presídio foi a greve de fome, em 1971. “O presídio inteiro rachou. Dilma e eu nos colocamos em posições divergentes – ela contra a greve de fome, e eu aderi à greve. Deflagrada a greve, ela se mostrou cuidadosa e respeitosa com todas as grevistas”, afirma Márcia. Nesse período, diz ela, Dilma ficou “entocada em sua cela, com poucas aparições, até que as presas fossem levadas para o hospital militar, uma semana depois”. Para algumas presas, Dilma exercia um papel de orientadora. A advogada cearense Rita Sipahy, hoje com 71 anos, conta como Dilma ajudou a prepará-la para o interrogatório quando ela foi libertada, pouco depois da greve de fome. “Eu era contra a greve”, diz ela.
Dilma foi condenada a seis anos de prisão. Ela cumprira quase três quando o Supremo Tribunal Militar reduziu sua condenação a um ano e um mês. Dilma deixou então o presídio Tiradentes, em 1972, e partiu para a casa da família, em Belo Horizonte. Depois seguiu para Porto Alegre, onde Carlos de Araújo, seu marido, continuava preso. Em 1974, ele foi solto. Sobre os tempos de prisão e a tortura, Dilma não costuma falar. ÉPOCA solicitou por vários meios uma entrevista com ela sobre o assunto. Todos os pedidos foram negados.
Numa rara entrevista em que comentou o tema, concedida em 2003 ao jornalista Luis Maklouf, autor do livro Mulheres que foram à luta armada (Editora Globo), Dilma afirmou que, além da palmatória e do pau de arara, passou pela cadeira de dragão, um “assento com espaldar de aço, cintas de couro, para prender os pulsos do torturado, e uma espécie de trava, para imobilizar suas pernas”, de maneira a “elevar ao limite a potência dos choques aplicados à vítima”, segundo a descrição do jornalista e ex-preso político Emiliano José. Ela disse que levou choque elétrico no bico dos seios, nas mãos, nos pés, nas coxas, na cabeça. “Eu queria desmaiar, não aguentava mais tanto choque e comecei a ter uma hemorragia”, afirmou. Ela disse que, por causa do sangramento, teve de ser socorrida no Hospital do Exército. A lembrança que ficou dos tempos de tortura, diz ela, é o ladrilho branco do banheiro, manchado de sangue.


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