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sábado, 16 de outubro de 2010

Partos e abortos

No Chile, a Terra deu à luz os homens. Aqui no Brasil, a sucessão mergulha na total escuridão

Estima-se que um bilhão de pessoas em todo o mundo tenham assistido na semana passada a um dos mais fantásticos acontecimentos dos últimos anos: o “parto” dos 33 mineiros chilenos, que foram renascendo, um a um, até subirem à superfície. Em vez do ventre materno, eles viveram 69 dias nas profundezas da mãe natureza. No lugar da placenta e do cordão umbilical, foram protegidos por uma cápsula metálica, com tubos de oxigênio. Foi como se a Terra parisse os homens e os devolvesse à luz.

Felizmente, esse resgate tão extraordinário permitiu uma pausa no noticiário sobre a disputa eleitoral brasileira. Aqui, os dois candidatos, Dilma Rousseff e José Serra, têm contribuído para fazer com que o processo sucessório mergulhe na mais completa escuridão. No mesmo dia do parto chileno, Serra compareceu à Basílica de Aparecida para explorar, de forma oportunista, um tema que deveria ser interditado em qualquer campanha presidencial: a religião. Embora tenha defendido o Estado laico, uma conquista da civilização, ele fez questão de citar seu programa para gestantes, o Mãe Brasileira, e de dizer que “cada coraçãozinho novo que bate no Brasil é uma esperança que se renova”. Um recado claro em relação ao tema do aborto, que, a cada dia, consome as energias da candidata do PT – aquela que, segundo Mônica Serra, esposa do presidenciável tucano, defenderia o assassinato de criancinhas. [os pró Dilma insistem em limitar a discussão sobre o aborto apenas ao campo religioso; nada disso: o aborto é CRIME HEDIONDO, portanto problema de polícia, de justiça e tem que dar cadeia.]

Em vez de esclarecer de uma vez por todas a sua posição, Dilma tem feito malabarismos que seriam desnecessários se dissesse algo muito simples. No íntimo, qualquer pessoa pode ser contra ou a favor do aborto – e a candidata petista provavelmente seria contra. Mas, como eventual presidente da República, é impossível fechar os olhos para uma realidade concreta: o Brasil realizou mais de 940 mil procedimentos abortivos em 2009, que foram responsáveis pela morte de 200 mulheres. Ou seja, embora não tenha sido legalizado no País, o aborto é feito à luz do dia. E as mulheres que correm mais riscos são as mais pobres, sem acesso às clínicas particulares.

Nesse breu eleitoral, Dilma reuniu-se com os evangélicos e prometeu divulgar uma carta aberta condenando temas polêmicos, como o aborto e o casamento gay. É como se o Brasil, um país com 15% da população ainda vivendo na miséria, com índices inaceitáveis de violência urbana, uma infraestrutura sucateada e com educação sofrível, não tivesse problemas mais urgentes a resolver. O risco é o eleitor chegar à conclusão, no dia 31, de que os dois candidatos são completamente alienados. Vivem alheios à realidade, como se estivessem soterrados nas trevas de uma mina chilena.

Por: Leonardo Attuch



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