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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma Silva no caminho da Rousseff, cria de outro Silva

Silva no caminho de Rousseff

Alvíssaras! A eleição presidencial mais insossa da história recente do Brasil ganhou alguma dose de emoção na reta final. Dilma Rousseff, a candidata inventada por Lula para sucedê-lo, parecia eleita de véspera – e com ampla margem de vantagem. Até que...

Até que no último fim de semana o vento começou a soprar a favor de Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula, ex-filiada ao Partido dos Trabalhadores, candidata a presidente pelo Partido Verde. Nem por isso ela se elegerá. Sequer terá condições de disputar uma eventual segunda volta contra Dilma, que lidera todas as pesquisas de intenção de voto.

Mas a depender do número de votos que ela atraia neste domingo, a escolha do novo presidente brasileiro poderá ser transferida para o próximo dia 31. Evangélica, mirrada e dona de uma voz estridente, Marina é Silva como Lula. Nasceu tão pobre como Lula. Aprendeu a ler e a escrever com 16 anos de idade. E desde então dedica sua vida à luta pela preservação da floresta amazônica.

Foi deputada pelo Estado do Acre. Depois senadora. Uma vez ministra, entrou em conflito com Dilma e Lula. O nó da questão: como conciliar desenvolvimento com respeito ao meio ambiente.

Lula cobrou de Marina mais rapidez na emissão de licenças ambientais para a construção de hidrelétricas na Amazônia. Debochou de sua preocupação com peixes e pererecas ameaçados de extinção. Por fim, subtraiu parte dos seus poderes. Marina pediu as contas. Abdicou de concorrer a um novo mandato de senadora. E em seguida se ofereceu como alternativa a Dilma, candidata do PT, e a José Serra, candidato do PSDB e do que restou da oposição ao governo Lula. Um candidato tem menos ou mais tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão de acordo com o número de partidos que o apóiam.

Passeatas não há mais. Os comícios escassearam. Tudo gira em torno da televisão. Entre 17 de agosto e 30 de setembro, durante três vezes por semana, Dilma teve direito a 20 minutos de propaganda no rádio e na televisão, Serra a 14 minutos, e Marina a dois. Sob a direção do cineasta Fernando (O Jardineiro Fiel) Meirelles, Marina aproveitou seu reduzido tempo de propaganda com inteligência, arte e bom gosto.

Ganhou a companhia de alguns dos mais famosos artistas brasileiros. E evitou cair na arapuca de acabar como candidata de uma nota só. Soube construir uma ponte entre a defesa do meio ambiente e o combate ao que mais aflige os brasileiros – a desigualdade social, a baixa renda, o déficit de moradias e o atraso crônico de algumas regiões.

Se Serra ganhar a chance de enfrentar Dilma na segunda volta, agradeça a Marina. A soma dos votos dos dois terá superado o total de votos obtido por Dilma. Lula perdeu três eleições presidenciais antes de vencer a primeira. A ambição de Marina é repetir a trajetória dele.

Publicado no: jornal português Expresso em 2 de outubro

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