Civis e a ditadura militar: Revolucão no Brasil
Para enfrentar a dita-dura, eles escolheram o caminho das armas.
Saiba como 1500 militantes de esquerda desafiaram o regime com atentados, assaltos e seqüestros - e de que modo, após oito anos de combates, as Forças Armadas venceram.
Transcrito do site: A Verdade Sufocada
Observação do site A Verdade Sufocada: “A matéria foi recebida com o seguinte comentário:
"Excelente conteudo para mostrar aos mais jovens.
Publicado em uma revista, é claro, de pouca circulação.
Muito bom por mostrar o outro lado da história que insistem em ocultar.
P. Chagas"
Não conseguimos precisar a data da publicação, mas é relativamente recente, pois tem entre outras fontes os livro: : A Ditadura Envergonhada e A Ditadura Escancarada de Élio Gáspari, O Fantasma da Revolução Brasileira de Marcelo Ridenti e a A Verdade Sufocada de Carlos Alberto Brilhante Ustra, livros publicados recentemente.”
O texto abaixo é de autoria do repórter Tiago Cordeiro, publicado na revista “Aventuras na História”, da Editora Abril, clicando aqui.
Aeroporto dos Guararapes, Recife, manhã de 25 de julho de 1966. No saguão, dezenas de pessoas aguardam a chegada do general Costa e Silva, candidato do governo à presidência. Às 8h50, uma maleta é encontrada em uma banca de jornal, a poucos metros do aeroporto. O jornaleiro pede que um guarda civil a leve para a seção de achados e perdidos. O agente dá alguns passos e o objeto explode. Dentro dele havia uma bomba-relógio. O guarda perdeu uma perna e o secretário de Segurança de Pernambuco ficou sem quatro dedos da mão esquerda. O almirante da reserva Nélson Gomes Fernandes e o jornalista Edson Régis de Carvalho morreram na hora. Outras 12 pessoas ficaram feridas. Costa e Silva, que seria escolhido presidente indiretamente em outubro, não estava lá (uma pane fez a aeronave em que ele viajava descer no aeroporto de João Pessoa). Começou assim, com um atentado desastrado e jamais assumido por qualquer organização, uma espécie de guerra civil não-declarada no Brasil. De um lado, as Forças Armadas. De outro, homens e mulheres que não aceitavam o governo dos militares.
O conflito durou oito anos, de 1966 a 1974. Apenas 1416 civis pegaram em armas, mas sua ousadia fez à dita-dura tremer. No auge dos embates, entre 1968 e 1971, eles assaltaram 154 bancos e carros-fortes. Durante toda a luta, roubaram 3,8 milhões de dólares – valor que fez da guerrilha brasileira a mais rica do mundo na época. Também realizaram cerca de 40 atentados a bomba, seqüestraram oito aviões comerciais e quatro diplomatas (nunca antes, nem depois, um embaixador seria seqüestrado no Brasil). Um foco de guerrilha fez o Exército levar para a região do Araguaia, no atual Tocantins, 3200 homens em uma única operação. Foi o maior movimento de tropas em território nacional desde a Guerra de Canudos, no fim do século 19.
Nas grandes cidades, a guerra não era visível – não havia batalhões nas ruas. Mas o conflito vinha à tona com freqüência. Assaltos e atentados atribuídos a “terroristas” apareciam em manchetes de jornal, assim como fotos de militantes procurados pela polícia. Qualquer cidadão de classe média podia ser vizinho de aparelhos – o nome dado a residências que serviam de abrigo para os guerrilheiros. Cedo ou tarde, esses locais acabavam cercados pelas autoridades e invadidos com diferentes graus de violência. As barreiras policiais, os tiroteios nas ruas e as perseguições de automóveis eram comuns. Por mais que a ditadura se empenhasse em esconder o que estava acontecendo, o cheiro de pólvora estava no ar.
Cenário
A primeira grande iniciativa armada contra a ditadura partiu do ex-governador gaúcho Leonel Brizola. Após o golpe militar, em 1º de abril de 1964, ele se exilou no Uruguai. Estabeleceu uma conexão estreita com o líder cubano Fidel Castro e criou o Movimento Nacionalista Revolucionário. Mandou guerrilheiros para treinar em Cuba e iniciou um plano de tomada do poder. Em março de 1965, uma coluna organizada pelo ex-coronel Jefferson Cardim partiu da cidade gaúcha de Três Passos rumo ao Mato Grosso. Depois de três dias, chegaram a Cascavel, no Paraná, onde foram dispersados a tiros pelo Exército. Em 1967, Brizola apoiou mais duas iniciativas. Na primeira, na serra do Caparaó, em Minas Gerais, todos os 22 guerrilheiros se renderam sem lutar, em abril. Já no Bico do Papagaio, no atual Tocantins, os 20 militantes debandaram em agosto, quando o organizador do movimento, o jornalista Flávio Tavares, foi preso.
Brizola desistiu de tomar o poder. O vácuo deixado por ele foi preenchido por organizações que haviam nascido do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Enquanto o “Partidão”, clandestino desde 1947, defendia o combate pacífico à ditadura, a maioria das dissidências queria pegar em armas para iniciar uma revolução. “Todas elas queriam o socialismo”, diz Flávio Tavares, que voltou para a luta armada em 1969. Inspirados nas revoluções chinesa e cubana (e na canseira que as tropas americanas estavam levando nos campos do Vietnã), os grupos armados queriam montar guerrilhas rurais, sustentadas pelo dinheiro adquirido em “expropriações” nas cidades. Nesse contexto cresceram as 19 organizações que partiram para o confronto direto, como a Ação Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). A ALN era a maior delas, com 250 membros.
Enquanto grupos armados começavam a agir, as vias pacíficas para combater a ditadura se esgotavam. Na primeira metade de 1968, houve grandes manifestações estudantis, reprimidas com violência. Greves também provocaram fortes reações – em Osasco, na Grande São Paulo, a paralisação durou seis dias e a cidade ficou sitiada pelos militares. “Quando a greve terminou, mergulhei na luta armada. Não havia liberdade nem espaço para o diálogo. O jeito era buscar o caminho da violência”, diz José Ibrahim, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, que se filiou à VPR.
Quando, na sexta-feira 13 de dezembro de 1968, o presidente Costa e Silva aprovou o Ato Institucional número 5, acabando com o que restava dos direitos civis e dando carta branca à repressão, muitos jovens ganharam o motivo que faltava para pegar em armas. “A partir desse momento, a luta armada se apresentou como uma alternativa razoável”, afirma a historiadora Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. “O golpe de 64 me despertou para a política. E o AI-5 me levou para a luta armada”, resume o fotógrafo carioca Paulo Jabur, que entrou para o MR-8 em 1969.
Ataque
No momento em que o AI-5 entrou em vigor, os grupos de esquerda acumulavam meses de ações bem-sucedidas. Em 1967, Carlos Marighela, militante comunista ativo desde a época de Getúlio Vargas, fundou a ALN. Durante um ano, a organização confundiu a ditadura, agindo sem assumir a autoria de assaltos e atentados. O mistério acabou após o roubo de um carregamento de 31 mil dólares do Instituto de Previdência da Guanabara. Um dos envolvidos foi preso e contou o que sabia. Dias depois, a revista Veja de 20 de novembro de 1968 anunciava: “Procura-se Marighela, chefe comunista, crítico de futebol em Copacabana, fã de cantadores de feira, assaltante de bancos, guerrilheiro, grande apreciador de batidas de limão”.
Ao lado da ALN, a VPR se consolidou como um dos principais grupos de resistência à ditadura. Seu sucesso, em grande parte, se devia à liderança de um ex-capitão do Exército, Carlos Lamarca. Em janeiro de 1968, Lamarca abandonou o 4º Regimento de Infantaria, em Osasco, levando uma Kombi com 63 fuzis e três metralhadoras. A ALN fez assassinatos seletivos de militares, assaltou o Hospital Militar do Cambuci, em São Paulo, e arremessou um carro-bomba contra o quartel-general do 2º Exército, no bairro paulistano do Ibirapuera.
Em maio de 1969, um comando de 13 militantes, agindo sob as ordens de Lamarca, dirigiu-se até o morro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Lá vivia um irmão de Ana Capriglioni, amante do ex-governador paulista Adhemar de Barros, morto dois meses antes. Vestidos de agentes da Polícia Federal, os membros da VPR pediram para revistar o local em busca de “material subversivo”. Levaram dali um cofre que havia pertencido a Adhemar. Em um aparelho no bairro de Jacarepaguá, usando um maçarico, um militante abriu um pequeno buraco no cofre e o encheu de água, para evitar que o dinheiro fosse queimado durante o corte do metal. Quando todas as notas foram retiradas e penduradas para secar, a VPR tinha nada menos que 2,6 milhões de dólares. Nunca no mundo um grupo guerrilheiro tinha levantado tanto dinheiro em uma única ação.
Mas o ato mais impressionante da guerrilha urbana ainda estava por vir. Membros da Dissidência Universitária da Guanabara, os jovens Franklin Martins (atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo) e Cid de Queiroz Benjamin planejaram o seqüestro de Charles Burke Elbrick, embaixador americano no Brasil. Sem condições de realizar uma ação desse porte, os militantes pediram a ajuda da ALN. A organização destacou Virgílio Gomes da Silva, que já tinha feito treinamento de guerrilha em Cuba, e Joaquim Câmara Ferreira, braço-direito de Marighela. Na manhã de 4 de setembro, Elbrick foi interceptado em seu Cadillac e levado para uma casa na rua Barão de Petrópolis, no Rio de Janeiro.
O embaixador foi solto dois dias depois. Antes disso, os militares tiveram que se curvar a duas grandes exigências. Aceitaram que os meios de comunicação, então submetidos a censura, divulgassem um comunicado criticando o regime militar. Além disso, o governo libertou 15 presos políticos e os enviou ao México. Entre eles estavam Flávio Tavares e José Ibrahim. "Desembarquei no México e, depois fui morar em Cuba. fomos recebidos pessoalmente por Fidel Castro. Foi Emocionante. Ele era uma figura lendária para todos nós", diz Ibrahim.

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