Quadrilhas não temem alvejar delegacias, usar moradores como escudo durante trocas de tiro e recorrer a viaturas para facilitar a fuga
A ousadia das quadrilhas de assaltantes de banco que agem em cidades pequenas no interior do Brasil é diretamente proporcional ao desprezo desses criminosos pelo trabalho da polícia. Na última quarta-feira, bandidos invadiram Dois Irmãos, pequeno município de Tocantins que fica a 180 quilômetros de Palmas. Cinco homens armados atiraram contra o posto policial do lugar, que tem dois agentes, e fizeram 10 reféns enquanto levavam o dinheiro de uma agência dos Correios. Depois, demonstrando total despreocupação em chamar a atenção na fuga, fugiram em duas caminhonetes da Polícia Militar.
No momento do crime, o delegado Márcio Girotto, que substituía o delegado-geral da Polícia Civil do Tocantins, Reginaldo Menezes Brito, dava entrevista à reportagem do Correio. De acordo com ele, problemas na logística na segurança pública são empecilhos crônicos. Cidades pequenas têm efetivos pequenos. Se o local é isolado, é ainda pior, porque há uma demora na chegada de reforço. Isso acontece aqui, no estado, em cidades como Dois Irmãos e Silvanópolis (que fica a 130 quilômetros de Palmas). Além disso, algumas agências bancárias têm uma segurança precária, opina Girotto.
O Chefe do Estado Maior da Polícia Militar do Tocantins, coronel Jefferson Fernandes Gadelha, também fala da necessidade de que a segurança seja uma das prioridades dos bancos. Mas ele reconhece que essas ações criminosas são parte de uma demanda nacional. O coronel esclarece que a Polícia Militar, que tem a missão de prevenir tais crimes, está montando, ainda para este ano, um grupo especial para coibir esse tipo de iniciativa dos bandidos.
Vamos trabalhar com policiais rodoviários e de fronteira. O ideal seria formar um cinturão de segurança, mas o estado tem dificuldades com recursos, avisa coronel Gadelha. Estamos remanejando efetivo justamente para a prevenção. Este ano, foram mais de 300 transferências para tentar melhorar a estratégia, mas, historicamente, esses assaltos são um assunto muito complicado, completa.
Rua de Cocalzinho, em Goiás: efetivo pequeno de policiais e poucos aparatos de segurança facilitam a ação das quadrilhas especializadasMedidas tomadas
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), por meio da assessoria de imprensa, declara que os bancos brasileiros têm investido em mecanismos de segurança para evitar a ação de bandidos. Ainda segundo a Febraban, foram gastos, em 2010, cerca de R$ 8 bilhões nessa área. Os ataques ocorridos em alguns estados, no entanto, usaram força desproporcional, com armamentos pesados, de elevado poder de destruição, inclusive com uso de explosivos e quadrilhas numerosas. Essa é uma questão de segurança pública. Os estados já estão desenvolvendo ações de inteligência para desarticular as quadrilhas, com a adoção de medidas adequadas para combater esse tipo de delito, e que levem à prisão dos bandidos, registra uma nota da instituição. Em um assalto em 10 de novembro do ano passado em Cocalzinho (GO), os bandidos usaram um cilindro de gás para arrombar os caixas eletrônicos.
O Banco do Brasil também se pronunciou sobre o assunto por meio de nota. Segundo o documento, a instituição atende as exigências legais de equipamentos e procedimentos de segurança para agências bancárias, previstas em uma portaria da Polícia Federal, que disciplina as atividades de segurança privada. O Banco do Brasil tem investido constantemente em dispositivos, visando impedir os arrombamentos de terminais. Esses investimentos estão relacionados ao reforço das chapas metálicas das máquinas, do sistemas de alarme e do monitoramento das salas de autoatendimento. Para impedir as investidas criminosas, faz-se necessário investimentos no aparato de Segurança Pública, especialmente em cidades de pequeno porte, localizadas no interior dos Estados, diz a nota. O Ministério da Justiça foi procurado pela reportagem para falar sobre o assunto, mas, até o fechamento desta edição, não havia se pronunciado.
Número reduzido de policiais faz população refém
Número reduzido de policiais faz população das cidades isoladas dos grandes centros urbanos deixar de ficar sob a tutela do Estado para tornar-se refém de quadrilhas especializadas em assaltos a bancos
A madrugada de 10 de novembro do ano passado estava calma como costumam ser todas as outras na pequena cidade goiana de Cocalzinho, a 110 quilômetros de Brasília. Um vigia noturno, pago por comerciantes locais para tomar conta da Avenida São Paulo, circulava pela via que reúne o minúsculo centro financeiro municipal, formado pelo banco de uma cooperativa, uma casa lotérica e uma agência do banco Itaú, a única do lugar. Às duas horas da manhã, no entanto, oito homens divididos em três carros um Astra, um Corsa Sedan e uma Fiorino fecharam as duas pontas da rua com pneus, renderam o segurança e o colocaram, com a mão na cabeça, sentado na calçada. O alvo dos bandidos ficou ainda mais claro quando o vigia percebeu um enorme cilindro de gás e um maçarico na carroceria de um dos veículos: os caixas eletrônicos da agência. A ação levou pouco mais de uma hora. Os dois únicos policiais escalados para patrulhar a região de quase 20 mil habitantes foram avisados por vizinhos, que desconfiaram da estranha movimentação. Quando a dupla chegou, foi recebida com tiros de fuzis e escopetas. Armados somente com pistolas, os PMs, um deles ferido de raspão, foram obrigados a recuar. Os criminosos fugiram levando o dinheiro de um dos caixas. Cravada de balas, a única viatura que fazia a ronda noturna teve de ser descartada.
Esse caso é apenas mais um das centenas que vêm se repetindo nos últimos anos, especialmente nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. A segurança de pequenas cidades longe de grandes centros é feita por um efetivo policial reduzido e, muitas vezes, menor que a quantidade de integrantes de quadrilhas que atacam os locais. Quando episódios como o de Cocalzinho acontecem, os moradores desses municípios deixam de estar, ainda que por pouco tempo, sob a proteção do Estado e passam a ficar à mercê de um poder paralelo. O pânico é geral e a sensação de abandono e impotência, segundo vítimas dessas ações, deixam sequelas permanentes.
O borracheiro Delcio Bento Rodrigues, 45 anos, é vizinho da agência bancária de Cocalzinho. Ele conta que, no dia do assalto, a família foi acordada com o barulho dos tiros e os gritos dos bandidos. Acostumado à tranquilidade da cidade, diz que ficou horrorizado com tamanha violência. Foi uma guerra no meio da rua. Era tiro para tudo quanto era lado. Depois que tudo isso aconteceu, eu até penso em deixar a minha casa por causa do perigo que é morar ao lado de um banco, mas, ao mesmo tempo, é muito difícil deixar o que construímos para trás, afirma Rodrigues.
Rotina de herói
Os tiros na Avenida São Paulo dão uma demonstração da força dessas quadrilhas. Enquanto as marcas nas paredes do lado em que os assaltantes estavam eram pequenas, causadas pelas armas de calibres menores dos policiais, o canto onde os PMs ficaram acuados exibe, até hoje, grandes rombos feitos por disparos de balas de fuzil e de calibre .12. Um integrante da polícia local que pediu para não ser identificado, por medo de represálias, reclama da desorganização na Segurança Pública e do sucateamento da estrutura das polícias.
Estou falando de Cocalzinho, mas a situação é a mesma em outras cidades aqui em Goiás. Eu converso com colegas e as reclamações são sempre as mesmas. Aqui, na cidade, temos dois policiais militares e dois agentes da Polícia Civil para atender toda a região, incluindo a zona rural. Nossa delegacia funciona de segunda a sexta-feira, em horário comercial. Se há um flagrante fora desse período, temos de ir à Águas Lindas, que fica a 60, 70 quilômetros daqui, deixando a nossa cidade ainda mais desguarnecida. Tudo isso sem falar dos nossos equipamentos e instalações. Os dois policiais que encararam aquela quadrilha são heróis. O confronto é totalmente desigual, explica o homem.
André Bottesini, delegado titular do Grupo Antirroubo a Banco, órgão ligado à Delegacia Estadual de Investigações Criminais de Goiás (DEIC-GO), admite a complexidade do problema e ressalta que essas ações criminosas são ainda mais complicadas de serem resolvidas em cidades fronteiriças. De acordo com ele, o caso de Goiás é ainda mais complexo por fazer fronteira com cinco estados: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia e Tocantins. Quando esses assaltos são realizados em cidades isoladas e próximas a outros estados, com certeza, tudo fica mais difícil. Temos de mobilizar outras polícias e cercar rodovias, por exemplo, diz.
Por: Igor Silveira - Correio Braziliense

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