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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Lúcio Flávio: bandido é bandido, polícia é polícia

Crise na polícia embute retrocesso no combate ao crime

Enquanto a nova chefe da Polícia Civil, Martha Rocha, tenta superar a crise na instituição, a Polícia Federal do Rio continua os desdobramentos da Operação Guilhotina. A impressão é de que a cabeça do delegado Allan Turnowski está a prêmio. A Polícia Federal ameaça indiciar Turnowski sob a acusação de que ele vazou informações para um inspetor já preso e que foi alvo da investigação da PF. Turnowski alega que ligou para o inspetor para pedir que ele liberasse uma das testemunhas-chave que reviraram a lama que estava no fundo de delegacias especializadas da Polícia Civil, sobretudo a Drae (Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos) e a Decod (Delegacia de Combate às Drogas). Turnowski diz que ligou para o inspetor por ordem de Beltrame, que por sua vez exigiu apenas que a tal testemunha aparecesse.


Com a acusação feita por uma nova testemunha, de que Allan recebia propinas para proteger uma milícia e não reprimir a pirataria, a situação dele pode se complicar. Apesar dos esforços de Martha, que já anunciou nomes de quatro delegados que vão auxiliá-la, a crise institucional está longe do fim. Em menos de dois anos, no seu bicentenário, a Polícia Civil tem outro homem da cúpula acusado da prática de crimes graves. Não há instituição que resista. Se a Polícia Civil tivesse ações na bolsa...


Martha vai enfrentar outro desafio: cumprir metas como a da redução de roubos de automóveis, sem um delegado operacional como Ronaldo Oliveira, que pertencia à equipe chefiada por Turnowski. Ronaldo revelou grande competência no combate a esse tipo de crime, a tal ponto que o preço do seguro de automóvel no Rio está prestes a baixar.


Apesar dos resultados, a credibilidade da Polícia Civil está, sim, ameaçada, porque faltou lisura na cúpula. A crise foi ampliada também porque a Secretaria de Segurança não soube apagar o incêndio com eficiência. Desde que em agosto do ano passado o secretário José Mariano Beltrame tomou conhecimento dos fatos que hoje estão sendo apurados pela Polícia Federal a meu ver ele deveria ter agido com rapidez e exonerado Turnowski, por sua responsabilidade administrativa. Mesmo que não consigam responsabilizá-lo criminalmente, ele era o chefe e, como disse aqui na sexta-feira passada, deveria ter pedido demissão. Em vez disso, Turnowski partiu para o ataque, causando mais confusão e vexame para a instituição, ao envolver o nome de outro delegado, diretor de uma delegacia especializada. Diante da crise na polícia, o governador Sérgio Cabral sumiu. Quando reapareceu disse que a segurança é responsabilidade de Beltrame, embora o governador goste de dar seus palpites e anunciar ocupações policiais para a instalação de UPPs. Se Beltrame é o único responsável - o que eu duvido - ele demorou a agir. Levou quatro dias para dar o xeque-mate em Turnowski.

No primeiro lance, disse que Turnowski gozava de sua confiança; no segundo, afirmou que o delegado não tinha carta branca; e depois só abriu a boca para elogiar Turnowski, em nota oficial, que anunciava a saída do chefe da Polícia, na terça-feira passada.


Os elogios de Beltrame e Cabral para Turnowski indicam que não deve dar em nada a investigação da Polícia Federal. Nenhum dos dois elogiaria o delegado que caiu "disparando" sua pistola Glock se tivessem a informação de que a PF iria indiciá-lo ou prendê-lo. A menos que a Superintendência da PF não tenha mostrado suas cartas a Beltrame. Outra hipótese é de que Beltrame - um homem da área de inteligência, treinado para guardar segredos - está sabendo qual será o desfecho preparado para Turnowski e o elogiou justamente para dissimular.


O mais grave dessa crise é que ela nos coloca de volta ao ponto de partida, antes das operações bem-sucedidas contra o tráfico nos complexos da Penha e do Alemão, em novembro passado. Naquele momento, a população se animava com a vitória das forças policiais e achava que tem jeito para o Rio. Menos de três meses depois, um novo choque de realidade nos mostra que ainda está muito difícil de separarmos o joio do trigo na polícia e voltarmos a usar a memorável frase do assaltante Lúcio Flávio, celebrizado na década de 70: "Bandido é bandido, polícia é polícia". Cada vez menos sabemos quem é quem.


Fonte: Blog Repórter de Crime


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