AO SOBREVIVER À IMINÊNCIA DA MORTE
Estive gravemente enfermo, por mais de um ano. Ausentei-me do espaço que este conceituado matutino me concedia, sem restrição de qualquer natureza, para expor meu pensamento. Ao sobreviver à iminência da morte, vieram à minha mente as memórias de François-René Chateaubriand, Mémoíres d´outre-tombe, que escreveu esperando que as suas duas mil páginas viessem a ser editadas post mortem. A vida, porém, durou mais que o esperado, ao contrariar seu desejo, de não ter de enfrentar as críticas inevitáveis, bem assim as ideias polêmicas, que sucederiam à edição do mais erudito estudo do século 19 na Europa.
Há casos em que o autor exige seja o livro editado depois de suas mortes. Prefiro os autores que publicam seus livros em vida, correndo o risco de provocar contestação de suas versões, especialmente quando importantes para o julgamento da história. Publiquei minhas memórias em 1997. Foram 40 anos de minha participação, como protagonista ou “espectador engajado”, para plagiar Raymond Aron, em passagens históricas da República. Devo a Deus a prorrogação do tempo de minha existência, graças à eficiente assistência médica e às orações de parentes e múltiplos amigos.
Ovídio, o muito louvado poeta romano dos amores, disse a um jovem: “Enquanto tiveres prestígio e riqueza, estarás cercado de amigos, mas quando perderes o poder ficarás só”. Tenho boas razões para discordar do bardo que o Tesouro da Juventude me revelou na adolescência. De riqueza sempre fui desprovido, mas a atividade política, caprichosa e incerta, “sujeita às circunstâncias por vezes pequenas e miseráveis”, como Anatole dizia ser a glória literária, me trouxe o fugaz poder temporal. Sempre o exerci servindo à política e não da política, como distingue Max Weber uma da outra conduta.
Sem riqueza e sem poder, porém, não fiquei só. Falsos amigos, a política já me fizera perdê-los. Os gregos nos ensinaram que a natureza humana é falta da vontade de desprezar o poder e, quando a conquista, negligencia a lealdade. Cícero, há 106 anos antes de Cristo, nos deixou a advertência: “É na adversidade que se reconhece o verdadeiro amigo”. No ostracismo, ficaram-me os amigos provados e — o que é mais — ganhei novos. Devo-lhes gratidão por orarem por mim e por minha recuperação.
A sobrevivência dá-me oportunidade de reler autores que me fascinaram. Acabo de chegar ao fim do livro em que André Maurois, já velho de 80 anos, aconselhava um jovem de 20. Não ouso imitá-lo, pois os conselhos de velho são como o sol friorento de inverno: iluminam, mas não aquecem. A edição é de 1966 e os valores de 1789 evoluíram muito ao longo de mais de dois séculos decorridos desde então. Detive-me, porém, na página em que ele trata das palavras esquerda e direita. Já não guardavam — sustentou — o sentido ideológico que adviera da Revolução Francesa. Leste e o Oeste já haviam alterado princípios e até dogmas que vinham do século XIX, modificado seus sistemas políticos e econômicos. O Ocidente, domínio da livre empresa, já admitira inumeráveis intervenções do Estado, e o Leste, império do socialismo, tolerara e encorajara métodos ocidentais na economia.
Hoje, quase meio século após Maurois, a China comunista adotou a economia de mercado e incluiu, na sua Constituição, o Direito à Propriedade Privada, que Marx via como a “fonte de todos os vícios e maldades” da burguesia. Gorbachev, em suas Avant-Mémoires, escreve que “a antinomia socialismo/capitalismo, que impera desde a metade do século XIX, me parece caduca”. Bobbio, um socialista democrático, reconhece:
“Nenhuma pessoa de esquerda pode deixar de admitir que a esquerda de hoje não é mais a de ontem”. A paixão pela querela, porém, persiste. Conclui Maurois: “São, sobretudo, palavras que nos dividem. Os interesses transigem sempre, as paixões jamais”. Maurice Duverger, de esquerda, na Introductiion à la politique, ensina que a convergência das evoluções do Leste e do Oeste para um socialismo democrático é inevitável. Mas fez a ressalva: “Os socialismos do Terceiro Mundo serão necessariamente autoritários”. O tempo confirmou sua profecia. Samuel Huntington, de direita, previne contra conclusões prematuras quanto ao colapso da União Soviética: “Comemorar o cortejo do féretro do comunismo é um erro. Outro é afirmar como inevitável a passagem direta do declínio do comunismo para o triunfo global do liberalismo”. O mundo vive a ressaca da utopia comunista. Jacob Gorender, que foi da esquerda radical, já publicou Marxismo sem utopia, marxismo depurado, libertado do determinismo do materialismo histórico, um socialismo na democracia pluralista.
Em vez do “fantasma do comunismo que percorre a Europa”, de que fala o Manifesto de 1848, o fantasma que ameaça o mundo é a maior das potenciais catástrofes atuais, a da aniquilação da vida terrena pelo emprego, em caso de guerra, dos artefatos nucleares. Releio Maurois: “O perigo do aniquilamento do mundo reside em que temos os meios físicos de destruir a civilização e a espécie, mas não temos os meios morais de nos opor a essa destruição”.
Por: Jarbas Passarinho - Foi governador, senador e ministro de Estado. É coronel reformado

0 comentários:
Postar um comentário