Acabou a trégua
Cem dias sem dores. Mas soou o gongo e a disputa vai começar. A manifestação de milhares de ruralistas e a reclamação de centenas de prefeitos em Brasília foi o aquecimento. Aécio Neves (PSDB) tenta marcar oposição desferindo o primeiro “punch” em previsível discurso no Senado.
Acabou a lua-de-mel de Dilma Rousseff na Presidência.
De todos os movimentos oposicionistas, o mais insinuante vem de dentro da base aliada. A aproximação do governador Eduardo Campos (PSB-PE) com uma facção da enésima versão da Arena (já foi PFL, PL, DEM e agora PSD) é vendida como cooptação de parte da oposição para ajudar Dilma.
Mas, como diria Miguel Arraes, avô do governador pernambucano, jabuti não sobe em árvore. Se está lá é porque alguém colocou. Acreditar que Gilberto Kassab, Afif Domingos, Katia Abreu e Índio da Costa viraram groupies da presidente é crer em tartaruga ninja trepadeira. Os apropriadores da sigla que elegeu Juscelino Kubitschek estão de olho em uma fatia da classe média que votou com ressentimento na eleição de 2010. “A classe média -que constrói o nosso País à (sic) cada dia- carece de representação partidária efetiva. PSD ocupará esse campo”, tuitou Índio.
São os brasileiros que viram se aproximar uma legião de emergentes compradores dos símbolos de status que antes os diferenciavam das classes D e E. Ao olhar para cima, a classe média tradicional se viu com menos chances de subir à classe A. Ficou mais longe de ser elite. Comparativamente aos outros, o governo Lula foi um retrocesso para veteranos da classe média. Seu custo de serviços disparou: escola particular, telefonia, internet e TV paga. Ao mesmo tempo, passaram a disputar com uma multidão um lugar no avião e no trânsito, muitas vezes com os emergentes dirigindo carros mais novos do que o seu. Dificilmente esse segmento social votará em um candidato do PT. O PSDB tampouco tem sido um porta-voz convincente da sua insatisfação. O DEM, por mais vezes que tenha trocado de sigla, só muda o prenome de seus caciques e recende a naftalina. Daí o PSD, e a evocação dos anos dourados de JK, quando essa classe média se formou.
O problema de Eduardo Campos não é sociológico, mas geográfico. Forte no Nordeste, onde conseguiu surfar a maré social emergente, o PSB patina nos maiores colégios eleitorais do País. Para se tornar um jogador nacional e ter aspirações presidenciais, Campos e o PSB precisam colocar uma cunha na principal base de petistas e tucanos: São Paulo.
Por alguma razão, apostam que Kassab e Afif têm chances de casar viúvas quercistas e malufistas e, coligados, terem um desempenho eleitoral que vá muito além dos inexpressivos 4,6% que o candidato “socialista” obteve na eleição de governador paulista em 2010. É uma aposta.
Enquanto isso, uns fazem de conta que estão reforçando a base aliada de Dilma, e os outros, fingindo que acreditam. Ou pior, acreditam de verdade.
Fonte: Blog do José Roberto Toledo

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