Em menos de dois dias, o revólver Taurus calibre 38 que eu busquei pelo computador chegou às minhas mãos. É uma arma parecida com a que Wellington de Oliveira usou, no dia 7 de abril, para efetuar a maioria dos disparos que mataram 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro.
Na última quinta-feira, a delegacia de homicídios do Rio de Janeiro prendeu o fornecedor de Wellington. Manoel de Freitas Louvise, de 57 anos, era segurança da última empresa em que o assassino trabalhou. Louvise confessou ter vendido o revólver calibre 38 e 77 balas por R$ 1.200. Os vendedores do revólver calibre 32, comprado para a chacina por R$ 260, eram vizinhos do assassino. Foram capturados dois dias após o crime.
Fico surpreso em notar que Wellington, após virar noites na internet tramando o massacre, tenha comprado suas armas com colegas próximos, de quem precisou conquistar a confiança. O vendedor de minha arma não tem relação comigo, não me fez perguntas nem pediu documentos – como o porte de arma, que eu não tenho. Fico surpreso também com a tranquilidade da atuação do mercado negro de armas. Um dos sites que visitei existe pelo menos desde 2007, e, na rua, encontrei vendedores à luz do dia. Por que a polícia não os encontra? Nem a chacina de Realengo interrompeu o livre-comércio.
Em reação à tragédia no Rio, o presidente do Senado, José Sarney, propôs para outubro um novo plebiscito sobre a proibição da venda de armas de fogo. O assunto está em tramitação na casa. Segundo o projeto, a população deverá responder: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. A mesma pergunta foi feita no plebiscito de 2005, e 63,94% disseram que não. Apesar de liberado, o comércio de armas no país é severamente restrito. O Estatuto do Desarmamento de 2004 proíbe o porte de armas por civis, com exceção para diretores de presídios, secretários da Segurança e outras autoridades que correm risco na profissão.
Para receber da Polícia Federal o porte de arma, essas pessoas precisam fazer teste psicológico, teste de tiro e ter certidão de bons antecedentes criminais. Portar arma de fogo ilegalmente é crime inafiançável, passível de prisão por até quatro anos. “A lei brasileira é ótima”, afirma Alice Andres Ribeiro, coordenadora de controle de armas do Instituto Sou da Paz. “Não precisa mudar regras nem fazer novo plebiscito. Basta cumprir o que já temos.”
Não é o que acontece. A Polícia Federal afirma usar diariamente mecanismos de rastreamento automático em sites como Orkut, Google e Mercado Livre. Quando identifica a oferta ilegal de armas, pede aos provedores para retirar a página do ar e investiga os responsáveis. Muitas vezes, ainda segundo a PF, os anunciantes são golpistas: vendem armas inexistentes, sabendo que o comprador não terá a quem reclamar. Como prova esta reportagem, a fiscalização é ineficiente.
A procura pela arma começou na terça-feira dia 12. Fiz o que qualquer criança faz quando quer encontrar alguma coisa: digitei a palavra “arma” no Google. Descortinaram-se na tela do computador dezenas de sites com anúncios de revólveres, pistolas, rifles e até fuzis. A arma só não foi comprada em menos de 24 horas por precaução. Um vendedor no Orkut, que se identificou como gerente de uma boca de fumo num morro do Rio de Janeiro ofereceu uma pistola por R$ 3 mil. Hesitei. Ele disse que não havia motivo para me preocupar e fez um convite inusitado: “Sobe aqui, é tranquilo. Vem e testa a peça. A gente dá uns tiros. Mano, tu não pode comprar arma sem testar”, disse ele, já percebendo minha inexperiência no assunto.
O suposto traficante concordou em vender fora de sua favela, mas as condições impostas para a entrega assustaram: eu deveria ir sozinho a um largo no pé do morro. Ele passaria de moto, pegaria o dinheiro e me daria a arma. Perguntei: “Como eu vou saber se você não vai apontar a arma contra mim e levar o dinheiro?”. A resposta dele não satisfez: “Sou bandido, rapaz. Sou sujeito homem”. Um amigo com bom trânsito em favelas me aconselhou a desistir daquela negociação.
Fonte: Revista ÉPOCA


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