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sábado, 23 de abril de 2011

Condenado pelo sexo

Valter Pagliosa: Condenado pelo sexo
O funcionário público foi mandado embora por ter feito um filme erótico há sete anos

Valter Pagliosa, de 27 anos, tornou-se chefe regional do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), órgão estadual de fiscalização, amparado por seu currículo, que mencionava um curso de técnico ambiental. Mas faltou citar A outra metade da carreira. Para ser mais exato, A outra metade, filme erótico lançado em 2005, no qual Pagliosa atuou como protagonista. O senador Roberto Requião, rival do governador Beto Richa, divulgou no Twitter: “Beto nomeou ator pornô para chefia do IAP”. Pagliosa foi exonerado na última terça-feira.

“Houve uma quebra de confiança porque o caso não constava no currículo”, afirmou o secretário-chefe da Casa Civil, Durval Amaral. É uma desculpa esfarrapada. Mas Pagliosa diz que não pretende criar caso – embora se diga magoado e reclame de preconceito. “Se trabalhar no cinema fosse alguma coisa ilícita, eu até entenderia, mas não é. Vários atores graduados fizeram filmes eróticos, alguns inclusive seguiram carreira política. Queria ser julgado pelo meu desempenho”, diz.

Como chefe regional do IAP em Cascavel, Pagliosa recebia R$ 1.500 por mês e era responsável pela fiscalização e pelo licenciamento ambiental em 18 cidades do oeste do Paraná. “Tive pouco tempo para mostrar serviço. Desde a nomeação foram 49 dias, com um feriadão de Carnaval no meio”, afirma. Em seu curto mandato, Pagliosa diz que dobrou o quadro de funcionários. Também cobrou, de uma distribuidora de combustíveis, um plano para recuperar o Rio Cascavel, que foi poluído com 3.000 litros de óleo derramado por um caminhão.


Quem indicou Pagliosa para a chefia regional do Instituto, em fevereiro, foi o deputado estadual Adelino Ribeiro, do PSL. O ex-ator apoiou em Cascavel a candidatura de Beto Richa. “Ele foi muito bem votado na cidade e, devido à política de recompensas, ganhei um espaço no governo”, diz. Ao largar a carreira de ator, em 2005, Pagliosa dedicou-se ao trabalho comunitário em rádios e ONGs de Cascavel. Em 2008, candidatou-se a vereador pelo PPS. “Fiz só 40 dias de campanha, sem ter sequer um carro, e consegui 484 votos. Para me eleger precisava de um pouco mais de 1.100.” Ele ainda não sabe como a divulgação do passado vai afetar sua imagem. “Estou meio perdido, vou ter de me virar. Recebi centenas de mensagens de apoio no Orkut, algumas vindas do exterior. Tive de apagar algumas maldades escritas por engraçadinhos.”

Pagliosa quer continuar na vida política, mas não descarta um retorno à carreira artística. Por três anos ele atuou em peças de teatro, apresentadas em escolas e aniversários. Com a experiência, chegou ao cinema amador. Fez dois filmes: A última batalha é uma produção evangélica que conta “mais ou menos a história de Cristo e o Apocalipse”, segundo Pagliosa. O filme que causou sua demissão começou a ser rodado em 2004, conta o produtor e diretor do filme A outra metade, Andoza Ferreira, conhecido no meio artístico como Abacate. “Pagliosa passou no teste para atuar numa comédia que eu produzi em 2002”, diz Ferreira. “Era um aquecimento para ele se soltar diante das câmeras.”

Segundo o ex-ator, soltar-se diante das câmeras era necessário. “Não tem como ficar à vontade fazendo cena de sexo num estúdio com 30 pessoas olhando.” No filme, Pagliosa interpreta Jean Rey, um médico que recebe em seu consultório Rafaela Solis, uma mulher infeliz no casamento. “Os comentários do Requião foram muito maldosos. A outra metade é um filme de amor, feito para ser visto por casais”, diz o galã. A classificação indicativa do DVD informa: “Impróprio para menores de 18 anos. Traição, nudez, sexo”. Não é o típico filme realizado entre quatro paredes (sob um teto espelhado). Foram oito meses de produção, com filmagens em várias cidades do Paraná. “Filme erótico não tem nada a ver com pornografia. Não tem sexo explícito, é só para estimular a libido”, afirma Ferreira. “Mas, depois das filmagens, Pagliosa disse que aquilo não era para ele.”

Se não tivesse desistido naquela ocasião, teria provavelmente desistido depois. Há dois anos, ele tornou-se evangélico. “Não me arrependo de ter atuado no filme, mas repetir a experiência feriria meus princípios religiosos.” Pagliosa diz que se sente à vontade para ver A outra metade, mas não assistiria a outras produções do gênero. “Com algumas coisas não compactuo mais.”

Pagliosa não se opõe a lucrar novamente com A outra metade. Naquela ocasião, ganhou R$ 5 mil. Agora, o escândalo que lhe custou o cargo no IAP está alçando o filme ao sucesso. “Acho que o contrato tinha uma cláusula sobre participação nas vendas.”

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