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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Desempregados de luxo

A vida à espera de uma boquinha

O que fazem os políticos que estão na fila por um cargo no governo federal: uns flanam por Brasília, outros recorrem à ex-mulher e quem tem sorte conta com o lobby de Lula

Altemir Gregolin (PT) deixou o cargo de ministro da Pesca e Aquicultura em janeiro. Em vez de voltar a seu Estado, Santa Catarina, perambula por Brasília. Gregolin visita gabinetes e, nas muitas horas vagas, passeia pela cidade. Como Gregolin, Marcos Lima (PMDB-MG) não sai de Brasília. Ele não conseguiu se reeleger deputado federal, mas freqüenta o Congresso toda semana, como se nada tivesse mudado. Lima e Gregolin estão, assim, meio à deriva, por causa da dinâmica eleitoral. Eles estão numa fila de desempregados de luxo, formada por políticos que esperam por um cargo no governo federal. Filas assim se formam a cada quatro anos com políticos que perdem eleições, deixam cargos por mudanças de governo ou não encontram padrinhos com força suficiente para encaixá-los em novas funções. Para sair dela, Gregolin já tentou – sem sucesso – sua indicação para quatro postos. Lima está à espera do cobiçado cargo de diretor de Furnas, a estatal do setor elétrico com R$ 1,3 bilhão para investir.


Ao contrário dos desempregados comuns, Lima e Gregolin têm um privilégio. Eles figuram na lista de nomes indicados por PT e PMDB – os dois maiores partidos governistas – para ocupar um emprego público em retribuição ao apoio à eleição da presidente Dilma Rousseff. Na semana passada, um almoço do vice-presidente, Michel Temer, com os ministros da Casa Civil, Antonio Palocci, e das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, serviu para mais uma rodada da infindável negociação entre o governo e o PMDB para preencher cargos no segundo escalão. Participaram do almoço o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).



Escalado pela presidente Dilma para a função de analisar as indicações, Palocci, desde o início do ano, recebe pedidos de emprego de PT, PMDB e de outros oito partidos da base governista no Congresso. Nas reuniões, Palocci ouve com atenção, infla o visitante com elogios e, no final, adia a decisão. Seus interlocutores rebatem com o método da confusão e da insistência. Em geral, pedem cargos para seus protegidos e depois citam o caso de colegas de partido que estariam insatisfeitos e poderiam criar dificuldades para o governo caso não sejam contemplados. Os políticos fazem pressão porque estão em jogo cerca de 22 mil cargos que a Presidência pode preencher sem concurso. A maioria desses milhares de cargos é de menor expressão. A briga é pelas posições de destaque que proporcionam o que os políticos querem: capacidade de exercer o poder e, principalmente, administrar grandes orçamentos.


Dilma tem tentado vencer a avidez dos políticos pelo cansaço. A presidente está esticando ao máximo o prazo das nomeações para forçar a desistência do candidato ou de seus padrinhos. Essa procrastinação tem feito os menos resistentes sucumbir. O ex-deputado Rocha Loures (PMDB-PR) gostaria de ser o ministro da Secretaria da Aviação Civil, para administrar os bilhões de reais da manutenção e reforma dos aeroportos. Mas só foi oferecida a Rocha Loures a presidência da EMBRATUR, a estatal encarregada do setor de turismo. Ele não quis e preferiu se acomodar, por enquanto, na assessoria especial do vice-presidente Michel Temer.


O método de Dilma já causou ansiedade até no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele telefonou para Dilma e intercedeu pela nomeação do ex-senador Osmar Dias (PDT-PR). Lula estava preocupado com as consequências políticas do atraso na nomeação. No ano passado, Dias desistiu de se candidatar à reeleição ao Senado para disputar o governo do Paraná e apoiar Dilma. Ajudou a tirar uma significativa quantia de votos do adversário de Dilma, José Serra (PSDB), no Paraná. Depois do telefonema de Lula a Dilma, Osmar Dias arrumou um emprego como diretor do Banco do Brasil.


A pressão na disputa por cargos levou o presidente do PT, José Eduardo Dutra, para o hospital


Quem não tem um padrinho com a força de Lula tem de lutar. Muitas vezes, o adversário mais duro está no próprio partido. Derrotado na disputa pelo governo da Paraíba, José Maranhão (PMDB) queria ser diretor do Banco do Brasil. Como Dilma resistiu, Maranhão pediu o cargo de diretor-geral do Departamento de Obras Contra a Seca (DNOCS). Dono de um patrimônio declarado de R$ 7,4 milhões, Maranhão luta por um salário de R$ 11.179 mensais, mas o que lhe interessa de verdade é a administração de cerca de R$ 890 milhões para gastar em obras no Nordeste.


A nomeação de Maranhão está enroscada porque o líder de seu partido na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), também quer o cargo no DNOCS para um amigo. Outro adversário duro é o senador Roberto Requião (PR). Ele avisou Palocci que não quer cargos, mas exige poder de veto. Requião não aceita que seu ex-vice no Paraná, Orlando Pessuti, seja nomeado para uma diretoria de Itaipu ou uma posição na Autoridade Pública Olímpica (APO), que vai cuidar das Olimpíadas de 2016 no Rio. Resultado: Pessuti ainda espera na fila.


A lista de políticos desempregados é democrática. As ex-governadoras Wilma Faria (PSB), do Rio Grande do Norte, e Ana Júlia Carepa (PT), do Pará, aguardam nela como simples mortais. As duas perderam eleições e queriam ser ministras. Mas as pretensões mudaram. Wilma aceita ser superintendente da SUDENE e Ana Júlia se contenta com uma diretoria do Banco da Amazônia (Basa). Ana Júlia tem uma vantagem: é funcionária de carreira do Banco do Brasil. De acordo com auxiliares, a presidente Dilma Rousseff vai exigir experiência no setor de quem quiser ocupar diretorias e superintendências em bancos públicos. A exigência deveria ser óbvia, mas é uma novidade. Em geral, o critério técnico é levado a sério apenas em poucas áreas, como no Banco Central e na Receita Federal.


A ministra da Pesca, Ideli Salvatti (PT), adotou o critério familiar. Ela trabalha para manter o ex-marido Eurides Luiz Mercolotto na presidência da estatal Eletrosul. Ideli aproveita a proximidade com a presidente e com o ministro Antonio Palocci para interceder em favor do ex. Mas, como foi derrotada nas urnas, Ideli não é uma madrinha politicamente forte. Tanto que já foi avisada pelo Planalto de que o posto de Mercolotto deve ser entregue a outro partido ou a alguém de outra corrente do PT, que não a de Ideli.


Entre muxoxos, ameaças e caras feias, as disputas por cargos fizeram uma vítima. Pressionado pelas correntes de seu partido, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, somatizou, teve problemas de pressão arterial, foi hospitalizado duas vezes e está de licença médica para tratar uma crise de depressão. Dutra administrava as pressões de colegas por cargos e até a ansiedade dele mesmo em conseguir um lugar na Esplanada. Ex-presidente da Petrobras no primeiro governo Lula e coordenador da campanha eleitoral de Dilma, Dutra é suplente do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE). Dutra acalentava o projeto de Valadares virar ministro e ele assumir uma vaga no Senado. Até agora isso não aconteceu. O caso de Dutra mostra que a disputa por cargos públicos é política, mas segue uma regra clássica da economia e do mercado de trabalho. Ela é regulada não só pelo excesso de demanda, mas também pela falta de oferta.


Fonte: Revista ÉPOCA


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