Foi o encontro de dois heróis. O primeiro, mesmo baleado no rosto, no ombro e na mão, conseguiu correr e avisar a polícia o que estava acontecendo na Escola Tasso da Silveira, a cerca de 200 metros dali, em Realengo. O segundo, reuniu a equipe e, fuzil em punho, entrou na escola e matou o assassino de 12 crianças dentro de salas de aula. Allan Mendes da Silva, de 13 anos, viu uma colega levar um tiro na cabeça a seu lado, enfrentou o assassino empurrando contra ele uma carteira escolar, foi ferido três vezes, mas teve força para fugir e pedir ajuda ao sargento Márcio Alexandre Alves, que participava de uma blitz do Detro. O encontro comoveu ambos, além de funcionários do Hospital Central da Polícia Militar, onde Allan está internado sem risco de morrer. - Ele é o verdadeiro herói - elogiou o sargento Alves, para quem encontrar Allan na sexta-feira foi um presente antecipado do aniversário de 39 anos, que vai acontecer na sexta-feira que vem. - Com certeza, se ele não tivesse tido a coragem de enfrentar o criminoso e buscar o nosso socorro uma tragédia ainda maior teria acontecido. O assassino tinha mais dez jet speed (dispositivo para municiar o revólver com seis balas).
Aluno da 7ª série do ensino fundamental, Allan seria o segundo a ser morto na sala onde estuda, no segundo andar do prédio. O bandido atirou primeiro em Samira Pires Ribeiro, de 13 anos, que estava ao lado de Allan. O tiro acertou a cabeça da menina e provocou um forte zumbido nos ouvidos do garoto. - Eu não a vi mais. Deve ter caído. Quando ele apontou a arma para a minha cabeça, me abaixei. A bala entrou no rosto e saiu na parte detrás do pescoço dela. Aí empurrei a cadeira contra ele e corri em direção à porta. Levei mais um tiro, que pegou no ombro esquerdo. Caí, acho que alguém me levantou. Quando fui sair da sala levei mais um tiro, que pegou na mão esquerda. Mesmo assim, consegui sair da sala e correr - contou Allan.
Sargento Márcio Alves, herói do massacre em Realengo, visita aluno no hopital da PM (Foto: Domingos Peixoto / Agência O GloboEm fuga, o rapaz jamais esperaria que alguém pudesse lhe negar socorro. Mas aconteceu, segundo ele: - Saí da escola e fui em direção à casa da mulher que vende doce. Ela fechou a porta na minha cara. Eu estava todo ensanguentado. Depois, corri na direção de casa, mas encontrei os policiais antes. O sargento é um herói por ter matado o assassino. Se não deu tempo para salvar todo mundo, pelo menos ele impediu que todos morressem - parabenizou Allan Mendes.
O encontro aconteceu no início da noite de sexta no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital da Polícia Militar, no Estácio, onde o menino está internado provisoriamente por falta de vaga na enfermaria. Ele tem recebido o carinho da mãe, Alice Mendes, de 32 anos, que não sai do lado dele, e das enfermeiras e médicos do hospital. Na noite de sexta-feira, o encontro teve de ser interrompido para que Allan pudesse se alimentar. No jantar, canja de galinha e legumes separados.
A vaidade Allan não perdeu. Não quer que fotografem seu rosto, inchado sob os olhos. Há um curativo do lado esquerdo do rosto e outro próximo à nuca. No ombro esquerdo, outro curativo. O antebraço e a mão esquerdos estão enfaixados com gaze. Ele permanece deitado, sendo assistido por equipes de plantão.
O garoto, neste momento, só tem uma certeza: não quer mais estudar na Escola Tasso da Silveira. - Não tem jeito. Para lá não quero voltar. O que eu vi, o que aconteceu não vai dar para esquecer. Se puder vou para qualquer outra escola, menos para lá - desabafou Allan, olhando para a mãe como se esperasse aprovação.
O sargento estava acompanhado do cabo Ednei Feliciano da Silva, que participou da ação dentro da escola. Os dois abraçaram o menino, deram parabéns pela coragem e iniciativa e foram embora para que Allan pudesse jantar. Antes, os dois também se encontraram com a menina Jady Ramos, de 11 anos, e agradeceram o bilhetinho enviado anteontem para o homem que salvou a sua vida. Ele se emocionou ao ler o agradecimento da menina, que tem quase a mesma idade de seu filho mais velho.
Os dois PMs também foram recebidos pelo coronel Mário Sérgio Duarte, comandante-geral da Polícia Militar, no salão nobre do Quartel General. O comandante enalteceu a ação dos PMs: - Foi uma ação exemplar, eficiente. Mas, como o sargento já teve a oportunidade de dizer, o seu sentimento neste momento não é de alegria. Isto porque, diz ele, não conseguiu chegar a tempo de evitar as 12 mortes de crianças. Foi um acontecimento imprevisível - comentou o comandante da PM.
O sargento Alves, mesmo com tantos elogios recebidos, lamentou as mortes e se solidarizou com os parentes das vítimas. - Externo a minha dor por eles, a minha tristeza. Espero que eles entendam o fato de eu não ter tido tempo de chegar antes na escola para evitar aquele massacre, aquela covardia. Também sinto a tristeza que eles sentem - desabafou o sargento.
Fonte: G 1

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