No interior paranaense, grupo de policiais, políticos e empresários é acusado de cometer homicídios femininos
Era a vigésima morte na cidade desde que os crimes começaram a ser contados. O corpo foi encontrado às 7h30 por um pedreiro, em 5 de abril de 2001, num matagal do distrito de Tranqueira, onde outras ossadas femininas já tinham sido descobertas. Natalina Kapp, 20 anos, a vítima da vez, havia sofrido violência sexual e morreu por um traumatismo craniano provocado pelas incontáveis pauladas que levou na cabeça.
Cemitério de Almirante Tamandaré: mais de 80 mulheres foram assassinadas na cidade de 103 mil habitantes na última décadaA delegada pediu a prisão de pelo menos 50 pessoas envolvidas com a quadrilha. As ações se arrastam na Justiça. Nas mortes de Maria da Luz Alves dos Santos e Joyce Devitte Katovich, 17 réus aguardam até hoje o júri popular, protelado por inúmeros recursos. Luciano Reis dos Santos, que confessou o homicídio da professora Teresinha Elizabet Kapp, está preso. Dois motoqueiros chegaram a ficar quase três anos na cadeia pela morte de Vanessa Ekert. As testemunhas voltaram atrás e eles foram absolvidos.
Dignidade
Em aberto, os casos não demoraram a ser esquecidos em uma cidade em que a média de homicídios é de uma pessoa a cada três dias. Estatística que deixa o local estranhamente silencioso. De vez em quando, ouvem-se sons cotidianos. O ronco dos motores dos carros e ônibus que cruzam a única avenida da cidade, o latido de um cachorro, a música de um rádio ou o toque do celular. A voz dos moradores é raridade. Falam baixo, tímidos. É preciso fazer esforço para compreendê-los. O olhar é quase sempre desviado. Falta quase tudo no município da Região Metropolitana. “Não tem saúde, educação, emprego e especialmente apelo pela vida. Dignidade humana. O Estado é muito ausente”, explica a promotora Siymara Smotter.
Em 2010, um caso chamou a atenção da promotoria da cidade. Lídia Moreira dos Santos foi encontrada morta no amanhecer de 31 de março. Os laudos indicam que foi assassinada por mais de uma pessoa a pauladas e pedradas. O corpo foi arrastado por cerca de 100 metros, cruzando uma cerca de arame farpado. O principal suspeito é o policial militar Leandro Veloso. A Firma, acredita a promotora, pode ter voltado a atuar ou nunca ter parado. A reportagem não localizou o soldado.
“Os processos ficam parados, a polícia não conclui as investigações e nós ficamos de mãos atadas”, afirma a promotora. “Não dá nem tempo de acompanhar as mortes.” O delegado Job de Freitas defende que os assassinatos das mulheres em Almirante são “coisa do passado”. Segundo boletins de ocorrência, em 2010, foram cinco vítimas. Neste ano, uma. Marlene Gomes, 39 anos, perdeu a vida com um tiro no rosto.
“Talvez, o nosso grito não tenha sido alto o suficiente”, suspira Rosalina Kapp, irmã de Natalina, que optou por deixar a cidade. Ela não foi a única. Várias famílias mudaram-se de Almirante, cidade que, segundo o ex-vereador Piva (PSol), tem o femicídio em suas raízes. “O machismo faz parte da cultura de Almirante Tamandaré. É uma tradição matar mulheres por aqui”, afirma o homem que comandou a CPI na Câmara dos Vereadores para apurar os casos.

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