Discursando aos metalúrgicos, afirmou, referindo a si mesmo e a Dilma:
“Eu sei que, às vezes, vocês ficaram chateados, ficaram decepcionados, mas, neste momento, vocês têm de dizer: ‘Ele cometeu um erro, mas ele era nosso. Ela cometeu um erro, mas ela é nossa. Portanto, é nossa obrigação dar sustentação para ela [Dilma] para que tenhamos uma Copa do Mundo maravilhosa. Depois vamos fazer uma Olimpíada maravilha”.
É uma fala mais cheia de significados do que parece. Os trabalhadores não devem analisar os governos segundo seus acertos e seus erros. Isso os tornaria indivíduos com a faculdade de julgar. Nada disso! O que interessa é saber se o governante é ou não “um dos nossos” (deles). Se for, então é uma “obrigação” apoiá-lo. A exortação, obviamente, deve ser lida também em sentido inverso. Não sendo o governante “um dos nossos”, que importa que ele acerte? Nesse caso, a “obrigação” é desestabilizá-lo. Não foi o que fizeram o PT e Lula com todos os governos que o antecederam, estivessem eles certos ou errados? “O Plano Real é feito por um deles? Então somos contra! A Lei de Responsabilidade Fiscal é proposta por um deles? Então somos contra”. Há dias, petistas e sindicalistas endossaram milhares de demissões na usina de Jirau. Se quem demite é “um dos nossos”, então será por bons motivos. Ai se fosse “um deles”!
Isso, meus caros, não é democracia! A noção que Lula tem do poder guarda certa semelhança com uma guerra de gangues ou de bandos. Não por acaso, neste fim de semana, o PT recebe de braços abertos o disciplinadíssimo Delúbio Soares! Que companheiro! Que homem honrado! Que grandeza de espírito! Ficou calado! Aceitou, por um bom tempo, ser a Geni do Brasil, mas, agora será reabilitado. E volta ao partido com o patrocínio se Lula, segundo quem o mensalão nem mesmo existiu.
Mas a fala de Lula tem ao menos mais um significado. Notem o espírito de tutela em relação ao governo Dilma e a consideração, ainda que por vias oblíquas, de que ela está cometendo erros — que ele admite ter cometido também, claro, claro… Ocorre que, no momento, é ela quem governa.
O gerente está na área. Outro recado ainda foi mandado a Dilma:
“Estou com uma saudade, uma comichão, uma coceira esquisita, com vontade de fazer caravana, viajar pelos estados, fazer plenárias, visitar quilombos e indígenas. Eu estou com vontade de tudo, mas eu tenho de me controlar pois somente com autocontrole é que eu vou conseguir desencarnar e assumir o papel de ex-presidente de verdade”.
Pois é… Vai que ele não consiga, não é?, ou que ela “erre” demais…
O homem que está levando Delúbio Soares de volta ao partido agradeceu aos metalúrgicos o apoio recebido durante a crise do mensalão:
“No momento difícil, de uma crise delicada neste país, quem assumiu a defesa do governo não foi nenhum jornal, televisão ou empresário. Foi o movimento sindical e o movimento popular”.
Lula demonstra a sua gratidão àqueles que foram mais do que tolerantes com a corrupção: foram coniventes. Dado esse padrão imoral, é impressionante que seja a oposição a viver uma crise avassaladora. Lula até foi generoso, em sua boçalidade, ao compará-la a carrapicho. No momento, ela não incomoda ninguém, a não ser os próprios parceiros… Sem ter uma minoria organizada que consiga, ao menos, fazer a crítica dos desacertos na área econômica, ainda sobrou tempo ao Apedeuta para dizer que as dificuldades que estão aí, especialmente a inflação, são coisa produzidas pelos gringos…
Nunca antes na história da humanidade…
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