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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Os ‘apagões’ do governo Dilma: o elétrico e o dos combustíveis, este com reflexo direto na alimentação da inflação

O “apagão” de combustíveis

A balança de derivados de petróleo neste ano deve registrar um déficit de US$ 18 bilhões, prevê a RC Consultores. Em 2010, o desequilíbrio em favor das importações foi de US$ 13 bilhões. Em 2000, era de US$ 3,2 bilhões. Esse rombo acompanha o aumento da frota do país e a alta do preço do etanol. Com tantos veículos circulando e a migração em massa dos motoristas para a gasolina, a produção interna não é suficiente para atender a demanda e o país precisa importar, segundo manchete do Estadão.

“A população pode não perceber, mas vivemos um estrangulamento do setor de combustíveis, um apagão”, disse Adriano Pires, diretor executivo do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)

A população pode não ter percebido que é um apagão, mas já notou como está cada vez mais caro encher o tanque. E sabemos que o aumento nas bombas acaba sendo sentido não só pelos motoristas, já que eleva o custo de todos os produtos dependentes dos transportes rodoviários.

Apagão de combustíveis provoca rombo de US$ 18 bilhões na balança

Com o aumento da frota em circulação, consumo de derivados de petróleo supera a produção local e impulsiona as importações

Com a disparada do preço do etanol, que subiu mais de 30% nos postos de combustível desde o início do ano, os motoristas migraram em massa para a gasolina, provocando escassez do produto. Faltou combustível em alguns postos do interior de São Paulo e a Petrobrás e os usineiros chegaram a importar gasolina e etanol.

A situação é resultado da queda da produção de etanol, provocada pela entressafra da cana e pela alta do preço do açúcar, mas reflete também um problema estrutural do País. Com o aumento da frota de veículos e o crescimento da economia, e sem investimentos compatíveis na produção de gasolina, diesel e etanol, o País começa a viver um "apagão" de combustíveis. O consumo de derivados de petróleo (gasolina, diesel e nafta) ultrapassou a produção local, impulsionando as importações, que ficam cada vez mais caras com o aumento do preço do petróleo lá fora. Em geral, a Petrobrás prioriza a produção de gasolina localmente e concentra as importações em diesel e nafta.

A situação vai provocar um déficit de US$ 18 bilhões na balança de derivados de petróleo este ano, conforme projeção da RC Consultores. Em 2010, as importações de derivados ultrapassaram as exportações em US$ 13 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento. Em 2000, o rombo era de US$ 3,2 bilhões. Diferente do "apagão" de energia elétrica, que interrompe a produção nas fábricas e deixa as cidades às escuras, a falta de combustível é sanada com importações, desde que a situação não seja muito grave. "A população pode não perceber, mas vivemos um estrangulamento do setor de combustíveis, um apagão", disse Adriano Pires, diretor executivo do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

O problema é que a situação aumenta a vulnerabilidade externa do País. Em 2010, o superávit comercial chegou a US$ 20,3 bilhões, mas poderia ter sido 64% maior não fosse o rombo dos combustíveis. O resultado da balança ameniza o déficit em conta corrente (resultado das transações externas do País, incluindo remessas de lucros e viagens internacionais), que deve atingir US$ 61,5 bilhões este ano. Em 2010, pela primeira vez desde 2000, o País comprou mais derivados do que petróleo bruto. Foram adquiridos 27,38 milhões de metros cúbicos de derivados ante 19,66 milhões de óleo bruto, conforme a Agência Nacional de Petróleo (ANP). "Ficamos mais dependentes da importação de derivados, que têm valor agregado mais alto", disse José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Descompasso

Uma das principais armas do governo para tirar o País da crise global foi estimular a venda de automóveis com incentivos fiscais. Em 2010, foram licenciados 3,52 milhões de veículos, mais que o dobro dos 1,49 milhão de 2000. A frota atual é de 32,5 milhões de carros, ônibus e caminhões.

Esse crescimento, porém, não foi acompanhado pelo aumento na produção de combustíveis. No ano passado, o País consumiu 117,9 milhões de metros cúbicos de derivados de petróleo, 11% a mais do que produziu. Até então, a oferta se equiparava ou superava a demanda. "Não temos refinarias suficientes para atender ao crescimento da economia", disse Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. A Petrobrás tem quatro em construção, mas a produção de derivados só deve crescer em 2013.

Já falta gasolina em algumas distribuidoras pelo País

Petrobrás enfrenta dificuldades para atender 100% das cotas prometidas às distribuidoras e acelera importações do combustível

"As cotas não estão sendo 100% atendidas dependendo da região do País", confirmou uma fonte de uma distribuidora ao Estado na condição de anonimato. "O problema é que a demanda por gasolina cresceu demais, por causa da alta do etanol, mas no geral a Petrobrás tem se esforçado para não faltar combustível. Até agora os problemas têm sido pontuais e localizados".

A Petrobrás importou emergencialmente 1,5 milhão de barris de gasolina para atender a demanda extra. Cosan e Coopersucar também trouxeram 138 milhões de litros de etanol anidro, que é misturado à gasolina.

A demanda por gasolina bateu recorde no País, enquanto o consumo de etanol hidratado caiu vertiginosamente. Conforme o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), que representa 75% do mercado, foram consumidos 2,3 bilhões de litros de gasolina em março. A entidade projeta novo recorde em abril. Segundo o presidente do Sindicom, Alísio Vaz, a tendência é que o mercado se normalize em maio, com o início da safra da cana e o aumento da produção de etanol. O preço do litro do etanol hidratado subiu 30,8% este ano e 37% em 12 meses, atingindo R$ 2, 359 nas bombas. O consumidor fez as contas e viu que não vale mais a pena abastecer com álcool, que rende 70% da gasolina. Por conta da mistura de 25% de etanol anidro, a gasolina também subiu 7,5% deste o início do ano, para R$ 2, 789 - mesmo com a Petrobrás mantendo os preços estáveis para as distribuidoras.

O etanol anidro, que é misturado à gasolina, teve a alta mais expressiva. Desde o início do ano, esse combustível subiu 98,7%, para R$ 2,4727, conforme cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

Prejuízo

A Petrobrás hoje tem prejuízo na venda de gasolina e diesel, porque os preços praticados localmente estão abaixo do mercado internacional. Cálculo do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) aponta que, desde 24 de janeiro, quando os preços do petróleo começaram a subir por causa dos conflitos no Oriente Médio, a estatal já perdeu R$ 1,31 bilhão.

Quando importa gasolina mais cara para manter a oferta a preços subsidiados, a perda aumenta. A diretoria da estatal já declarou que precisa aumentar o preço da gasolina, mas foi desmentida pelo governo. A equipe econômica está preocupada com o impacto na inflação, que já ameaça romper a meta estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

O governo discute reduzir a Cide, imposto que incide sobre os combustíveis, para aliviar o caixa da Petrobrás, mas manter o subsídio ao consumidor. Em anos anteriores, outro remédio utilizado foi reduzir a mistura de etanol na gasolina de 25% para 20%. "Neste ano o governo não adotou essa estratégia porque falta gasolina", disse Adriano Pires, diretor do CBIE. Dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP) mostram que o crescimento da produção de gasolina não tem acompanhado o consumo. Em 2010, a produção de gasolina cresceu 8,8%, enquanto o consumo aumentou 17,4%, graças às vendas recordes de veículos. O crescimento da produção de etanol também não ocorreu no ritmo da demanda.

Alguns fatores prejudicaram a produção de etanol, o que provocou forte alta de preços nos últimos meses. Com a recuperação das cotações do açúcar no mercado externo, os usineiros optaram por reduzir a produção de etanol e transformar a cana em açúcar. Problemas climáticos também reduziram as duas últimas safras de cana. Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica), disse que o setor enfrentou ainda um movimento de consolidação desde 2008, quando a crise global abalou as empresas, que estavam endividadas após um ciclo de investimentos. "O Brasil caminha para um problema estrutural. O governo tem de decidir rápido o que quer, porque o crescimento da demanda tem sido maior que a oferta".

Fonte: O Estado de São Paulo

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