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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Justa ou vingativa, a punição que coube a Bin Laden não vai reparar os danos de quem sofreu com seu mal

Acerto de contas

Uma década após o maior atentado terrorista da história, milhares de famílias finalmente obtiveram uma resposta para sua dor irreparável.

Que efeito a morte de Bin Laden terá para os parentes das vítimas, para a sociedade – e para a história

No dia 11 de setembro de 2001, Antônio Fajardo Filho viu pela televisão, desnorteado e impotente, as cenas dos dois aviões que se chocavam contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, no centro financeiro de Nova York. No 98º andar da torre norte, atingido em cheio por uma das aeronaves, estava a filha de Antônio, Sandra Fajardo Smith. Depois de trabalhar como garçonete para custear o curso de ciências contábeis, ela conseguira um emprego na corretora Marsh Inc. Viveu seu sonho americano por três anos antes de morrer, aos 37, vítima do maior atentado terrorista da história, com quase 3 mil pessoas, entre elas outros três brasileiros.

Na semana passada, quando Fajardo soube da morte do mentor dos ataques, o terrorista Osama bin Laden, na cinematográfica ação americana na cidade paquistanesa de Abbottabad, ficou tão desnorteado e impotente quanto dez anos atrás. “Não quero falar nisso. Pelo amor de Deus. Essas coisas de filha acabam com a vida da gente”, disse ele ao ser abordado pela reportagem de ÉPOCA em Belo Horizonte, onde mora. Começou então a chorar, pediu desculpas – e se despediu.

Seus companheiros de sinuca, o principal hobby de Fajardo, evitam falar do assunto entre uma tacada e outra. Não querem que ele volte a se isolar. Nos cinco anos seguintes à morte da filha, ficou longe das partidas. Não queria dividir a tristeza nem encontrava forças para se divertir. Sobre a morte de Bin Laden, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na noite do dia 1º, “ele não manifestou absolutamente nada”, segundo um dos melhores amigos de Fajardo. “Eles não pensam em vingança. São muito religiosos”, diz o amigo.

As reações de quem perdeu um familiar numa tragédia como os ataques de 11 de setembro podem ser muito diferentes – e é compreensível que assim seja. Fajardo ficou tão traumatizado que optou pelo silêncio. Não consegue nem ouvir falar em Bin Laden. Tendo passado por uma experiência semelhante, o médico Ivan Fairbanks Barbosa, de 70 anos, prefere falar. Ele não esquece o dia em que seu filho, também chamado Ivan, recebeu a notícia de que conseguira um emprego numa corretora de valores de Nova York, a Cantor Fitzgerald. Era 1999. Ele foi até o apartamento do pai com uma miniatura das torres do World Trade Center. Feliz, disse: “Agora vou trabalhar aqui, pai”. Seu escritório ficava no 105º andar da torre norte do World Trade Center. Quase uma década depois do maior sofrimento de sua vida, o médico ainda mantém o suvenir sobre sua mesa de trabalho.

Na noite do domingo passado, Ivan foi dormir sem saber que estava morto o responsável pela morte de seu filho. Foi descobrir o que acontecera ao ler a manchete de um jornal na manhã de segunda-feira. E não escondeu que era um momento de felicidade. “Não desejava outra coisa para esse cara”, diz ele. “Para ser sincero, se fosse possível, queria que o Bin Laden morresse de um modo devagar, como ele fez o pessoal do prédio morrer.” Num mundo em que a sensação de impunidade é tão frequente, Ivan diz que é bom saber que o terrorista pagou por seus crimes com a vida. “Saber da morte de Bin Laden me energizou positivamente”, afirma ele. “No fim, senti certo prazer em saber que a justiça foi feita.”

AS PERDAS DO ATENTADO
Acima, as torres do World Trade Center, pouco depois de ser atingidas pelos aviões pilotados por membros da Al-Qaeda. Dentro dos prédios, quase 3 mil pessoas morreram, entre elas os brasileiros Sandra Fajardo Smith, Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa e Anne Marie Sallerin Ferreira (da esq. para a dir.). Um quarto brasileiro, Nilton Albuquerque Fernão Cunha, consta na lista de desaparecidos. Ele fora ao WTC e não teve mais contato com a família depois do ataque

“Justiça foi feita” tornou-se a frase mais marcante do discurso de Obama depois da operação. Nem bem ele começava seu pronunciamento, milhares de americanos saíam às ruas para comemorar a notícia. Obama fez o que lhe cabia na condição de comandante de uma nação que sofrera um ataque tão ignóbil. E certamente estava feliz por ter eliminado uma figura que personificava o mal. Mas até que ponto a morte de Bin Laden representa um acerto de contas definitivo entre o terror e suas vítimas? Que efeito a ação americana terá na sociedade e no curso dos eventos que determinam a história da humanidade?

As circunstâncias da morte de Bin Laden, morto com dois tiros, um na cabeça e um no peito, geraram questionamentos sobre se os Estados Unidos não fizeram apenas uma ação de vingança para se livrar de seu maior inimigo. Mas esqueça, por um momento, as críticas à ação dos militares americanos. Ela desperta sentimentos ambíguos mesmo naqueles que, como Ivan, teriam apenas motivo para sentir um alívio – ainda que pequeno – em uma dor que começou há dez anos.

“Quando eu soube da morte de Bin Laden, experimentei uma mistura de sentimentos”, diz o psicólogo americano Frederick Woolverton, cuja casa ficava a dois quarteirões do World Trade Center e foi parcialmente destruída pelo ataque. “Foi bom saber que uma pessoa que fez tanto mal para a minha família tinha sido morta. Mas imediatamente pensei: ‘Não posso sentir isso, porque essa pessoa má é uma pessoa’. Uma morte não pode justificar outra morte, apesar de nos dar conforto.” A filha de Woolverton, então com 4 anos, ficou tão traumatizada pelas cinco horas que passou no cenário da tragédia que parou de falar, não conseguia dormir e achava que fosse morrer a qualquer momento.

Naquele dia, a única coisa que Woolverton achou que poderia ajudá-la seria recuperar seu cobertor de estimação, que, como todos os objetos pessoais da família, ficara para trás. Ele conseguiu resgatá-lo furando os bloqueios com a ajuda dos próprios policiais, sensibilizados com sua história. Sua filha pôde ter de volta um pedacinho de seu mundo seguro anterior ao ataque terrorista. Mas o mundo nunca seria mais o mesmo. “Para quem viveu o 11 de setembro, os atentados parecem ter acontecido ontem, e não há dez anos, porque as lembranças permanecem”, diz Woolverton. Segundo ele, um especialista em trauma, saber que quem lhes fez mal não terminou impune ajuda as pessoas a se sentir melhor.

O caso de Bin Laden tem uma dimensão tão incomum para os padrões habituais de justiça que é quase vão tentar entender como a sociedade deve absorvê-lo. A premiê alemã, Angela Merkel, disse sentir “alegria” por ter sido possível matar o terrorista. Sua demonstração de felicidade foi recriminada pelos próprios colegas de partido, a União Democrata-Cristã. Para eles, regozijar-se com o sofrimento alheio, seja de quem for, é contra os princípios cristãos da legenda. E a vingança pura e simples foi vista por eles como “medieval”.

Isolado em um cubo de vidro, o nazista Adolf Eichmann ouve sua sentença de morte num tribunal em Jerusalém, em 1961. Os israelensees invadiram o território soberano da Argentina e sequestraram Eichmann que havia recebido asilo dos 'hermanos'

O americano Lee Ielpi, presidente da Associação de Famílias do 11 de Setembro, afirma que o sentimento de felicidade foi geral entre os parentes com quem teve contato. Ielpi, bombeiro aposentado da cidade de Nova York, perdeu 300 colegas de corporação no atentado, entre eles o próprio filho, Jonathan, então com 29 anos. Ielpi estava num trem quando recebeu um telefonema sobre a morte de Bin Laden e começou a chorar. “Sabia que esse dia viria, mas não esperava que fosse sentir tanta emoção. O significado das lágrimas é que completamos a missão, a missão a que o governo se propôs”, diz. Suas lágrimas, segundo ele, não refletiam só um conforto para seu luto, mas todo o sentimento pelos que se foram.

A irmã de Ivan, Roberta Fairbanks, de 35 anos, não se alegrou com a morte de Bin Laden. “É uma sensação de alívio saber que essa pessoa não existe mais, que as coisas que ele fez não ficaram por isso mesmo”, diz Roberta. “Mas não há motivo para comemoração, porque meu irmão não voltará.” Para Roberta, não é possível atribuir à pessoa de Bin Laden toda a culpa pela morte do irmão. “Ele era só a ponta de uma organização muito mais complexa”, diz ela. Essa dificuldade de identificar claramente um único culpado torna ainda mais intensa a dor das famílias das vítimas. Não há certeza de que outros inocentes não serão sacrificados em nome da ideologia do terror. Durante dez anos, Roberta e seus familiares tentaram entender o que se passa na cabeça de um fundamentalista. “Nosso país nunca conviveu com nada parecido. É difícil aceitar a ideia daqueles que morrem por uma causa”, afirma.

É mesmo um desafio entender os mecanismos que levam alguém a dar apoio a terroristas. Na semana passada, muitos saíram às ruas para protestar contra a morte de um assassino em massa. Islâmicos simpatizantes da Al-Qaeda, na capital da Indonésia, Jacarta, reuniram-se para rezar por Bin Laden, a quem consideram um mártir – havia cartazes chamando de assassino o presidente Barack Obama (que passou parte da infância em Jacarta). Vários outros grupos ligados à Al-Qaeda fizeram homenagens a Bin Laden. E é provável que sua morte ajude a atrair mais jovens para as hostes do terror.

A escalada da violência entre os terroristas e os Estados Unidos e seus aliados é um temor que faz sentido. Para Kurt Westergaard o cartunista dinamarquês que recebeu ameaças depois de desenhar uma charge do profeta Maomé com um turbante recheado de bombas, o Ocidente deve esperar mais atentados nos próximos meses. Os braços da Al-Qaeda continuam ativos em todo o mundo e preocupam as autoridades até em países considerados tranquilos, como Brasil.

Há quem defenda uma atitude oposta ao enfrentamento para tentar resolver o problema do terror. O americano Orlando Rodriguez, pai de Gregory, morto no atentado aos 31 anos, viu na tragédia um chamado para lutar por meios pacíficos de resolver conflitos. “Matar o assassino não é justiça”, diz ele. Orlando e a mulher, Phyllis, participam da associação Peaceful Tomorrows, que congrega parentes das vítimas. Decidiram dialogar inclusive com a mãe de Zacarias Moussaoui, único preso formalmente condenado por envolvimento no 11 de setembro.

Os Rodriguez e sua postura pacifista representam uma minoria que gostaria de ver Bin Laden no banco dos réus. “Bin Laden certamente merece punição, mas matá-lo nessas circunstâncias não preenche os requisitos de uma punição justa”, afirma Judith Lichtenberg, professora de Direito e filosofia da Universidade Georgetown, em Washington. “Para isso, é preciso um julgamento ou, no mínimo, algum tipo de procedimento formal.”

Mas seria viável levá-lo a júri?Que nação gostaria de abrigar o julgamento de Bin Laden? Ninguém gostaria de segurar aquela batata quente – o que significa que os EUA teriam de fazê-lo sozinhos”, diz Brian Orend, diretor de estudos internacionais e professor de filosofia na Universidade de Waterloo, no Canadá, e autor de livros como A moralidade da guerra (2006). Para ele, a morte de Bin Laden foi uma “solução razoavelmente limpa”, ainda que não “perfeita ou idealmente justa”, para o maior terrorista da história. “A ação americana foi, no mínimo, razoável e compreensível, diante dos tristes fatos do mundo em que vivemos”, diz. Quem sentiu a dor da perda tende a concordar com Orend. “É ridículo quem fala que ele tinha direito a um julgamento ou que querem ver as fotos do corpo. Vamos olhar para frente porque cumprimos nossa missão”, diz Ielpi, da Associação de Famílias do 11 de Setembro. O médico Ivan Fairbanks Barbosa concorda: “Depois de um tribunal, o que fariam com ele: matar? condenar? soltar? Osama morreu em guerra, dentro de um fator que ele mesmo previa, nada mais justo”.

O mais perto que a história já chegou daquilo que seria um eventual julgamento de Bin Laden foi a captura, condenação e execução do oficial nazista Adolf Eichmann, no início dos anos 1960. Ele foi sequestrado na Argentina, onde estava escondido, por agentes israelenses, numa operação semelhante à que os americanos usaram para pegar Bin Laden no Paquistão. Foi levado à força para Israel, onde depois foi executado. Embora não discordasse de sua condenação à morte, a filósofa política Hannah Arendt, então enviada especial da revista The New Yorker ao tribunal, levantou uma discussão relevante: até que ponto o julgamento de facínoras como Eichmann – ou Bin Laden – não se transforma num teatro para justificar instintos de vingança.


Embora seja a base do sistema de justiça da humanidade, a ideia de vingança foi abandonada como medida para a punição a partir do século XVIII. Segundo a filosofia utilitarista do jurista inglês Jeremy Bentham, a Lei de Talião –“olho por olho, dente por dente” – foi substituída pela ideia de uma justiça restaurativa, exercida pelo Estado sem a paixão vingativa. O objetivo passava a ser manter a ordem. E era consequência direta de uma percepção já presente na máxima do filósofo chinês Confúcio: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas”.


Justa ou vingativa, a punição que coube a Bin Laden não vai reparar os danos de quem sofreu com seu mal


A punição que coube a Bin Laden será incapaz de reparar os danos dos crimes cometidos por ele e seus seguidores. Nada trará de volta Sandra, Ivan, Anne Marie, nem nenhuma das vítimas. “A única coisa que realmente muda é a sensação de ver seu inimigo tombar”, diz Ivan, o pai. Além da miniatura das Torres Gêmeas, ele também guarda o último presente que o filho mandou dos Estados Unidos: um par de botinas – nunca usadas. Ao olhar para elas, lembra-se do filho de que tanto se orgulhava. No monumento que os amigos do filho ajudaram a erguer numa praça em São Paulo em memória das vítimas está escrito: “Que a lembrança e a saudade das vítimas do 11 de setembro nos iluminem e nos ajudem a começar a transformar o mundo”. Um mundo agora sem Bin Laden.


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