Pesquisa personalizada

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A queda de Mubarak pode ser o estopim para a TERCEIRA INTIFADA PALESTINA

O aviso de Assad a Israel

Não é possível analisar com ingenuidade a violência ocorrida no domingo nas fronteiras de Israel com o Líbano e a Síria. Os eventos são um claro e óbvio recado da Síria, onde o ditador Bashar al-Assad é cada vez mais pressionado pela “primavera árabe”, para os Estados Unidos e o Ocidente: se a pressão sobre ele continuar, Israel vai pagar o preço.


Aproveitando o chamado Dia da Catástrofe (no qual os palestinos lembram a fundação de Israel e o refúgio forçado de 700 mil palestinos), a Síria permitiu protestos contra Israel a partir de seu território. Eventos semelhantes ocorreram no sul do Líbano, controlado pelo Hezbollah, milícia sobre a qual a Síria tem grande influência. Israel reagiu, 15 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas.


A BBC lembra que a região das Colinas de Golã, reivindicada pela Síria e ocupada por Israel, nunca foi palco de protestos deste tipo. E nota que, enquanto a Jordânia proibiu os seus refugiados palestinos de chegarem à fronteira, o Líbano não fez isso. E afirma que pode haver alguns objetivos por trás das ações da Síria:


O fato de permitir uma explosão de tensão nas fronteiras com Israel pode ter sido tratado pelo regime sírio com várias intenções: desviar a atenção de seus problemas internos, dar brilho a suas credenciais nacionalistas de inabalável resistência a Israel. E pode também ter ocorrido para entregar a Israel e aos americanos a mensagem de que se a força de Assad diminuir, Israel pode ter que enfrentar uma Síria muito mais militante.


O The New York Times faz análise semelhante, e diz que o recado deve deixar os Estados Unidos, e a Turquia, país secular que tenta se estabelecer como líder do Oriente Médio, ainda mais tensos.


Tanto os EUA quanto a Turquia denunciaram a violência da repressão, mas não pediram a saída de Assad, um passo com implicações de longo alcance para a sobrevivência da liderança. Isso foi, em parte, motivado pelo medo do que pode substituir a queda de Assad, analistas dizem uma ansiedade que o governo [sírio] procurou cultivar implacavelmente desde o início do levante. A violência de domingo, analistas dizem, pode ter sido armada.


Como se vê, Assad age da mesma forma como agiu Hosni Mubarak, o ditador do Egito, antes de cair, tentando impor medo a Israel. O governo do Egito não é hostil a Israel, mas sua população é como ficou claro na semana passada, e por conta da causa da palestina. Diante da possibilidade de muitos ditadores locais serem derrubados, seria estratégico que Israel tomasse as rédeas do processo de paz com os palestinos e aplacasse os ânimos de seus vizinhos mais próximos antes que se visse pressionado por todos os lados. É, aparentemente, a conclusão a que chegou o jornal Haaretz em sua edição desta segunda-feira:


Manifestantes palestinos, libaneses e sírios cronometraram suas mensagens para que ela chegasse ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu antes que ele visite o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Qualquer um que abandone as iniciativas pela paz e as deixe nas mãos dos outros, é passível de acordar diante de uma dolorosa realidade.


As ruas do Egito se voltam contra Israel

No início de fevereiro, quando ficou claro que o governo do ditador egípcio Hosni Mubarak estava ruindo, alguns países mostraram uma enorme preocupação. Entre eles estava Israel, que tinha em Mubarak, e na paz que ele mantinha com Israel há décadas, uma das bases mais firmes de sua estabilidade. Inicialmente, o temor era de que grupos fundamentalistas muçulmanos tomassem o poder e transformassem o Egito em uma teocracia (nos moldes do Irã) cujo objetivo fosse destruir Israel. Agora, outra questão crítica preocupa Israel. O apoio a Israel era personificado em Mubarak e praticamente não se reproduz na sociedade egípcia.


Uma prova disso foi dada nesta sexta-feira (13), mais um dia em que a praça Tahrir, no centro do Cairo, símbolo dos protestos que derrubaram o ditador, foi tomada por manifestantes. O protesto foi convocado pelo Movimento Jovem 6 de Abril e pela Associação Nacional para a Mudança (de Mohamed El Baradei) para fomentar a união nacional entre muçulmanos e cristãos após a violência sectária do fim de semana passado.


O protesto, entretanto, acabou tomado por um sentimento pró-palestina, fomentado principalmente pela Irmandade Muçulmana e por grupos salafistas (que têm uma visão bastante ortodoxa do Islã), reunidos para celebrar antecipadamente o 63º aniversário da chamada “Calamidade Palestina” – o exôdo de mais de 700 mil palestinos durante a Guerra Árabe-Israelense, que ocorre no domingo.


O jornal Al Masry Al Youm conta: Forças islamistas conseguiram transformar o protestos em algo que já é chamado de Terceira Intifada Palestina (…) Gritos anti-Israel dominaram o protesto quando a Irmandade Muçulmana montou um grande palco na praça. Os manifestantes, que carregavam bandeiras palestinas, cantaram “Para Jerusalém estamos indo… um milhão de mártires” e “Abbas, Hania… não larguem o rifle”, em referência ao presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e ao líder do Hamas, Ismail Hania.


O Fatah, de Abbas, e o Hamas assinaram acordo nesta semana para uma tentativa de reconciliação dos grupos palestinos, que hoje comandam separadamente a Cisjordânia (Fatah) e a Faixa de Gaza (Hamas). O acordo foi mediado pelo governo de transição do Egito e assinado no Cairo. Israel reagiu de forma furiosa, afirmando que Abbas deveria escolher entre o Hamas e a paz com Israel.


A hostilidade a Israel também foi sentida em Alexandria, uma cidade no Mediterrâneo na qual a presença de fundamentalistas é maior que no Cairo. Segundo o israelense Jerusalém Post, milhares de pessoas marcharam em direção ao consulado de Israel na cidade.


Milhares de pessoas marcharam após as preces da manhã em uma das maiores mesquitas da cidade cantando: “Com nossas almas, com nosso sangue, nós libertamos você Palestina”. “Estamos aqui hoje para dar apoio à causa palestina”, disse Mohammed Abdel-Salam, ativista de 22 anos. “A vitória de nossa revolução não será completa sem a libertação da palestina”, disse.


Como se vê, a queda de Mubarak libertou uma força que Israel temia – o rancor da população egípcia contra Israel. A forma como o governo israelense vai lidar com isso nos próximos meses e anos deve ser decisiva para os destinos de Israel e do Egito.

0 comentários: