Na metade de março, os protestos contra o regime ditatorial de Bashar al-Assad, na Síria, ganharam o noticiário mundial. A repressão contra os opositores ganhou as manchetes na imprensa do mundo todo, mas, aos poucos, diante da repetição das notícias, e da perspectiva de que Assad pode conseguir conter o clamor popular, o espaço para a Síria nos noticiários ficou reduzido. Atualmente, grandes eventos e manifestações de líderes estrangeiros são os fatos que mais chamam a atenção. Mas há um aspecto que pode provocar mais pressão contra o regime de Assad: o ultraje provocado pelas revelações da brutalidade que o regime usa contra seus opositores.
Na quinta-feira, Suleiman al-Khalidi, correspondente da agência Reuters, publicou um extenso relato sobre o que viu nas dependências da Inteligência Síria, em Damasco. Segundo ele, após dez dias realizando reportagens em Deraa, onde os protestos começaram, ele foi preso sob acusação de ser um espião americano e levado para um lugar que parecia “um universo paralelo macabro de escuridão, espancamentos e intimidação.”
O interrogatório durou oito horas até meia-noite no meu primeiro dia de detenção. Eu estava vendado a maior parte do tempo, mas a venda foi removida por alguns minutos. Isso permitiu que – apesar das ordens para manter minha cabeça abaixada – eu visse um homem encapuzado na minha frente. Quando mandaram o homem abaixar as calças, eu pude ver seus genitais inchados, amarrados com um cabo de plástico. “Eu não tenho nada a dizer, mas não sou um traidor nem ativista. Sou só um comerciante”, disse o homem. Para meu horror, um homem mascarado pegou um par de fios e deu choques elétricos em sua cabeça”
Esta é só uma parte do relato de Al Khalid, que fala sobre a solitária cheia de baratas, espancamentos com chicote, presos pendurados pelos pés e gritos de horror por todo o canto. Como estrangeiro, Al Khalidi teve a sorte de ser solto depois de quatro dias, graças à intervenção da família real da Jordânia, país onde ele mora.
Também na quinta-feira, a ONG Anistia Internacional divulgou um vídeo estarrecedor com imagens fortes (o Youtube marcou o vídeo como inapropriado) de espancamentos e o que seriam assassinatos promovidos pelas forças de segurança sírias. O jornal espanhol El Mundo destacou o surgimento do vídeo:
As filmagens incluem, entre outras cenas, um ataque à mesquita Omari, que era utilizada como hospital de campanha, na qual as imagens mostram soldados e homens armados à paisana dentro da mesquita durante a operação gritando de felicidade enquanto os cadávares são filmados: “Filmem, nós os matamos, são traidores”.
Outras imagens mostram pessoas gravemente feridas ou talvez mortas, gente que parece ter sofrido gravíssimos ferimentos de bala na cabeça. duas cenas de membros das forças de segurança espancando presos feridos na calçada e o testemunho de um enfermeiro que afirma que o Exército impedia a prestação de cuidados aos feridos.
Hoje, a Síria é praticamente um terreno proibido para a imprensa estrangeira. E por conta de sua posição geopolítica – aliada ao Irã e inimiga de Israel – é bastante improvável que a coalizão internacional que atualmente ataca a Líbia decida voltar sua mira para Damasco. Neste cenário, materiais como o relato do repórter da Reuters e o vídeo da Anistia Internacional podem, pelo menos, mostrar o que um ditador pode fazer com sua própria população quando o mundo não faz nada.

0 comentários:
Postar um comentário