Dias atrás, uma informação repassada pelo ministro Nelson Jobim (Defesa) a Dilma Rousseff ateou surpresa no noticiário. As Forças Armadas, disse Jobim à chefe, não se opõem à ideia de acabar com o sigilo eterno de documentos oficiais. Nesta segunda (27), Jobim levou aos microfones declaração que ajuda a entender o porquê da boa vontade dos militares. Declarou que os documentos produzidos na época da ditadura já não existem. Sim, isso mesmo, você não leu errado. O papelório “desapareceu”.
Vem daí, insinua Jobim, o lavar de mãos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica quanto às regras do sigilo. "Não há documentos [sobre a repressão]. Nós já levantamos os documentos todos, não tem. Os documentos já desapareceram…”
“… Já foram consumidos à época. Então, não tem nada, não tem problema nenhum em relação a essa época."
Curioso, muito curioso, curiosíssimo. Jobim virou pregoeiro de um ‘historicídio’. Seria grave em qualquer circunstância. Sob Dilma, uma ex-torturada que ganhou do eleitor o direito à continência dos militares, o inacreditável ganha ares de inaceitável. [na realidade a cadeira de presidente da República desde o momento que passou a ser ocupada por Lula, se desvalorizou mal que também atingiu a continência.
Certos cargos e práticas possuem uma característica importante: o valor deles é diretamente proporcional ao valor de quem os exerce ou os recebe.
[O mesmo raciocínio vale para medalha do Dia da Vitória que perdeu toda importância e simbolismo quando foi aposta no peito do ex-guerrilheiro, atual ASPONE do GENÉRICO Jobim, Zé Genoíno.]
Jobim não é o primeiro a anunciar o sumiço de papéis. Ministro inaugural da Defesa na Era Lula, o embaixador José Viegas soara em timbre parecido. Em outubro de 2004, fustigado por uma decisão judicial que exigia a abertura dos arquivos do Araguaia, Viegas respondera que tinham sido “incinerados”.
"Imagino que isso tenha ocorrido nos anos 70 ou nos anos 80", dissera Viegas sete anos atrás. Jobim supera-o em desfaçatez.
Diz agora que sumiram todos os arquivos, não apenas os do Araguaia. De resto, fala do desaparecimento sem especificar o método. Documento interno da contra-espionagem do Exército estabelece regras estritas para a queima de documentos. Vigoram desde a década de 70. Consta de um manual que, atualizado ao longo dos anos, mantém a mesma política quanto aos arquivos secretos. [para provar que os documentos reclamados existiram, é necessária a apresentação de provas cabais da alegada existência; e, uma vez provada a existência, para que se prove a não existência é necessário que se apresente a prova da destruição ou do equivalente que fez com que deixassem de existir.
Não se provando a existência não se pode provar a destruição e esta não podendo ser provada, não pode ensejar caracterização se ocorreu de forma lícita ou ilícita.
Ao que consta não existem provas nem da existência nem tão pouco da destruição.
O que concede ao General GENÉRICO Jobim o beneficio da dúvida.]
A última versão é de 1994. Dedica um tópico específico à eliminação de papéis. Anota: "A destruição de documentos sigilosos deve ser centralizada, de forma a evitar desvios". Meticuloso, o texto recomenda que "os documentos sejam triturados e depois queimados". Anota ainda que a queima deve ser precedida da "lavratura de um termo de destruição".
Viegas falou de fogueira sem mostrar o “termo” que autorizou o fósforo. Jobim nem de fogo fala. Os papéis simplesmente “desapareceram”, “foram consumidos”.
O signatário do blog ajudou a preparar uma série de reportagens sobre o Araguaia. A coisa foi veiculada pela Folha em agosto de 2001, ainda sob FHC.
As notícias basearam-se em papéis oficiais, desses que Jobim vende como desaparecidos. [não existindo prova irrefutável da existência dos ‘papéis oficiais’ não pode prevalecer nenhuma versão sustentada nos mesmos.]
Num dos documentos, o Exército indicava que, ao desembarcar no sul do Pará, sua tropa sabia o que fazer com os corpos dos “subversivos” do Araguaia.
Os cadáveres não poderiam ser desovados a esmo na selva. Depois de identificados, teriam de ser depositados em covas previamente selecionadas.
Naquela ocasião, o repórter enviou um questionário ao Exército, que respondeu por escrito.
O texto repetia a pantomima da ausência de dados sobre o destino dos corpos da turma do PCdoB. Porém…
…Porém, o Exército admitia a existência dos arquivos que Viegas apresentaria como “queimados” e que Jobim agora declara “desaparecidos”.
Li-se na nota, datada de 7 de agosto de 2001: "Quanto aos desaparecidos nos combates travados naquela região…”
“… É importante salientar o que o Exército tem reiterado exaustivamente quando consultado a respeito do assunto…:”
“… Nos arquivos existentes, nada foi encontrado que pudesse indicar a localização de seus corpos".
Se não quiser que sua biografia também desapareça, convém a Dilma exigir de Jobim ao menos a apresentação dos “termos de destruição”. Sugere-se conferir a idade dos papéis. Não ficaria bem trazer à luz "termos" que ruíssem à primeira análise tipográfica.
Fonte: Blog do Josias
[é sempre oportuno destacar que se considerando a afirmativa do General GENÉRICO Jobim – aqui beneficiado pela dúvida – os documentos ‘desapareceram’ mas não existe um rol preciso do que desapareceu, sendo o desaparecimento de caráter genérico o que impede – salvo melhor juízo – que alguma autoridade militar seja responsabilizada pelo ‘sumiço’ dos documentos.
A única coisa sensata é parar a procura do que não se sabe sequer se existiu e se existiu não é sabido do que consiste.]

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