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segunda-feira, 27 de junho de 2011

FHC sempre defendeu coisas erradas, inclusive a simpatia dele pela maconha é antiga. Valeu agora a 'volta' que a Miriam Dutra deu nele

FHC e o fim de uma história errada

Pode-se afirmar que 100% dos políticos, dos amigos e mesmo boa parte dos principais envolvidos no caso ficaram surpresos com os dois exames de DNA que apontaram que Thomas Dutra, hoje estudante nos Estados Unidos, não é filho de Fernando Henrique Cardoso.

Após os dois exames, que tem aquele grau de precisão que parece ficção científica, não há contestação possível. Sabe-se que mesmo no círculo da jornalista Miriam Dutra, a mãe do rapaz, com quem o então Senador paulista teve um relacionamento em Brasília, duas décadas atrás, a reação foi de grande surpresa. Não se questiona, porém, o valor científico do resultado.

É difícil negar que um episódio dessa envergadura ajuda a sublinhar uma velha verdade sobre a condição humana e também sobre nossos costumes. Uma história que estava errada desde o início foi capaz de mobilizar secretamente diversos centros nervosos do país, por tantos anos, sem que fosse possível usar a ciência para passar tudo a limpo. Por quê?

A resposta é curiosamente simples, constata-se agora. Para começar, a história parecia verossímil, em função do relacionamento entre o senador e a jornalista.

A mãe de Thomas sempre alegou, em conversas privadas, que jamais teve dúvidas sobre a paternidade. De sua parte, não havia interesse nem necessidade de uma apuração.

No círculo de FHC poderiam até haver dúvidas sobre a paternidade. Mas se o DNA comprovasse que ele tivera um filho fora do casamento, essa revelação poderia lhe trazer complicações difíceis de enfrentar, na vida pública e na vida doméstica, em especial enquanto sua mulher Ruth Cardoso estivesse viva. A simples sugestão de fazer um exame poderia ser vista como uma tentativa de fugir de suas responsabilidades.

Havia, também, uma consideração política. Em caso positivo, ninguém poderia prever a reação dos eleitores diante de uma revelação desse tipo. Até a divulgação do DNA, a convicção de que FHC teve um filho fora de seu casamento era uma espécie de unanimidade secreta nos meios políticos.

Informados de que FHC e Mirian Dutra tiveram um relacionamento quando o futuro presidente era Senador, mesmo amigos de Fernando Henrique se encarregaram de comentar a história como verdadeira, anos atrás, quando o menino nasceu, numa maternidade em Brasília, e o então ministro da Fazenda iniciava sua trajetória para tornar-se presidente da República. Durante um bom período da campanha presidencial de 1994, este episódio foi tratado como um segredo estratégico.

A discussão sobre fazer ou não reportagens sobre o caso mobilizou redações de várias publicações do país, naquele momento. Não faltaram rumores, espalhados pelo método boca-a-boca. Criou-se um ambiente de tamanha certeza que uma revista de São Paulo chegou a realizar uma reportagem, depois da eleição, cuja pauta consistia numa pergunta que era também uma cobrança: por que a mídia escondeu o filho de FHC?

Não havia filho, vemos agora.

A explicação da imprensa para ficar em silêncio é que não havia uma informação categórica, com base em documentos, para sustentar a paternidade. A certidão de nascimento de Thomas não dizia quem era o pai e Mirian Dutra, mãe do menino, não dava entrevistas sobre o assunto. Tampouco entrou com uma ação na Justiça que pudesse trazer a questão para o espaço público, como já aconteceu em tantas situações semelhantes, que envolveram até outros ex-presidentes, como João Figueiredo, do regime militar.

Há um ano o próprio FHC decidiu entrar com um processo de reconhecimento de paternidade, numa atitude que mereceu aplauso discreto de quem seguia o caso de perto. Não parecia uma atitude que poderia chegar a um resultado tão surpreendente. Pelo contrário: era uma medida que parecia destinada a corrigir uma situação errada que parecia prolongar-se por muito tempo.

Considerava-se que, ao manter-se omisso diante de uma paternidade fora do casamento, FHC dava uma demonstração de fraqueza, como se fosse incapaz de enfrentar dificuldades e contradições que a vida pode colocar na existência de muitas pessoas. Mesmo assim, naquela época não faltou quem o criticasse duramente por uma demora de tantos anos.

Há duas décadas, quando as primeiras notícias do caso começaram a circular, ainda em Brasília, FHC chegou a manifestar sua descrença na paternidade.

A pelo menos uma pessoa Fernando Henrique expressou essa opinião de forma categórica. Entre seus familiares, chegou a circular a hipótese de que ele fizera vasectomia e não poderia gerar novos descendentes. Com o passar dos anos, FHC manteve silencio sobre o caso. Recusava-se a tratar do assunto com pessoas que não fossem de sua inteira intimidade. Simultaneamente, o ex-presidente nunca deixou de auxiliar Thomas, com orientação, conselhos e apoio financeiro.

Não há dúvida que esse desfecho faz bem à biografia do ex-presidente.

Aquelas publicações que, ao se recusar a publicar informações sobre o caso, foram acusadas de agir de modo covarde e até bajulatório, tem direito a um reconhecimento. Pode-se até dizer que pretendiam, mesmo, agradar ao ex-presidente, exibindo um rigor no controle da informação que nem sempre foi tão apurado com outros homens públicos que enfrentaram situações análogas. Seja como for, acertaram por linhas tortas: os fatos mostraram que a prudência foi uma atitude correta, mesmo em situação em que o comportamento dos próprios envolvidos se mostrava afoito.

O restabelecimento da verdade é um valor positivo em si.

A dúvida mais importante diz respeito ao próprio Thomas.

O uso de DNA em provas de reconhecimento de paternidade é um fenômeno recente. A maioria dos estudos conhecidos envolve as conseqüências para quem se descobre o pai errado, depois de passar décadas consumindo suas reservas afetivas – sem falar em outras – na criação de uma criança que pensava ser sua descendência genética.

O DNA é obra do mundo dos adultos e compreensivelmente envolve muitas questões emocionais, como afeto, fidelidade, lealdade. O detalhe é que nunca se prestou atenção naquela pessoa que, conforme a situação pode ser o principal beneficiário ou vitima dos exames — a criança.

Sempre cabe perguntar como uma criança faz para recuperar o equilíbrio emocional e o controle da existência após uma mudança tão dramática na vida de todo ser humano, pois envolve o começo de tudo, pela qual não tem a menor responsabilidade.

FHC tem dito e repetido que, para ele, nada mudará em sua relação com Thomas.

É a única atitude possível.

Por: Paulo Moreira Leite - ÉPOCA

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