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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Os levantes no Oriente Médio mostram que o fim da Ocupação da Palestina por Israel é o melhor, talvez o único, caminho para a paz

Em favor do Estado palestino

O pessimismo é uma constante na vida do palestino Shadi Al-Khawaja. Em seus 30 anos, sempre viveu em Ramallah, cidade da Cisjordânia onde está a sede da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Trabalha em uma ONG que coordena projetos comunitários, mas não acredita que seu trabalho possa melhorar a vida dos outros ou a sua. “Para mim, não existe felicidade. Como posso ser feliz diante de uma situação que não muda?”, diz Al-Khawaja.


A “situação” a que ele se refere é o permanente controle do vizinho Estado de Israel sobre os territórios palestinos, mesmo em partes onde a comunidade local tem seu próprio governo e suas próprias leis. O peso de 44 anos de ocupação desanima Al-Khawaja, personagem de um conflito que fez incontáveis vítimas de ambos os lados e relega mais de 4 milhões de árabes a uma vida sem nacionalidade e soberania. Após sangrentas guerras que semearam ódio e violência pelo Oriente Médio, o futuro deixa apenas um caminho na busca por paz e prosperidade na Terra Santa, tanto para árabes como para judeus: a criação de um efetivo Estado palestino.

O atual clima entre autoridades palestinas e israelenses faz parecer risível a esperança na criação de uma nação palestina independente, vivendo lado a lado de Israel. O diálogo entre os dois lados só não é pior do que nos períodos em que houve confronto militar aberto: a saber, a segunda intifada, entre 2000 e 2005, quando civis palestinos foram às ruas para enfrentar o Exército de Israel (mais de 7 mil mortos), e a invasão militar israelense na Faixa de Gaza, o outro território palestino, na virada de 2008 para 2009 (cerca de 1.500 vítimas). O conservador premiê israelense, Benjamin Netanyahu, nem pensa em sentar-se à mesma mesa que o presidente da ANP, Mahmoud Abbas.

Netanyahu impõe como precondição o reconhecimento palestino de que Israel é um Estado judeu, algo que Abbas se recusa a fazer. Não bastasse isso, o Hamas – grupo radical que governa Gaza, considerado terrorista por Israel e pelos Estados Unidos – anunciou em abril um acordo com o Fatah, o partido de Abbas que controla a Cisjordânia. As duas facções entraram em confronto pelo comando da Palestina, e o Fatah acabou expulso de Gaza em 2007. A reaproximação e a promessa de um governo interino unificado para convocar novas eleições levaram Netanyahu a interromper qualquer negociação, sob o argumento de que não pode dialogar com quem apoia o terror. Depois de dois meses de relativa calmaria, foguetes disparados de Gaza voltaram a atingir o sul de Israel na semana passada. Nenhum dos lados parece disposto a ceder.

Diante de um cenário desanimador, por que dar crédito ao recente discurso do presidente americano, Barack Obama, em favor de urgência na retomada das negociações para a criação de um Estado palestino? Primeiro porque “o mundo está se movimentando muito rápido”, como disse Obama. Suas palavras vêm no momento em que vários países do Oriente Médio passam por transformações políticas a partir de levantes populares. Os desdobramentos colocam em xeque a estratégia israelense de alianças com ditaduras na região.

COTIDIANO
Crianças e adultos passam por uma viela de Ramallah. Com ou sem paz, os palestinos constroem uma vida independente

O principal revés foi a queda de Hosni Mubarak, o ditador egípcio que foi parceiro de Israel por 30 anos na contenção de movimentos populares. O novo governo do Egito cumpriu uma promessa feita durante os protestos por democracia e abriu o posto de fronteira com a Faixa de Gaza. A medida permitiu o fluxo de pessoas e mercadorias pelo posto de controle de Rafah, antes monitorado de perto para evitar o envio de armas ao Hamas.

O espírito de contestação a regimes autoritários árabes pode dar mais força aos palestinos para que se revoltem contra a ocupação da Cisjordânia e o bloqueio exercido por Israel em torno de Gaza – de onde Israel se retirou em 2005. Richard Bulliet, professor de história islâmica da Universidade Colúmbia, em Nova York, alerta para possíveis efeitos das revoltas na região sobre a situação na Palestina. “O dilema Israel-Palestina é, em si, insolúvel. Mas terremotos políticos externos podem vir da Primavera Árabe e sacudir tudo”, afirma. Para Aaron David Miller, que atuou no Departamento de Estado americano como negociador do conflito árabe-israelense por 25 anos, retardar as negociações de paz só dificulta esse processo. “A falta de uma negociação com a Palestina enfraquece a segurança de Israel. Também enfraquece o caráter democrático do Estado israelense.”

Ao momento desfavorável à atual política linha-dura de Israel soma-se a possibilidade de a Autoridade Palestina pedir o reconhecimento de seu Estado na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro. Dos 192 países-membros, mais de 140 já declararam apoio à ideia. Entre eles está o Brasil, que em dezembro reconheceu o Estado palestino com base nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, de 1967, que deu início à ocupação israelense.

A realidade dos dois povos que disputam a região bíblica dá mais peso ainda à ideia de um acordo urgente que estabeleça uma nova nação árabe ao lado do Estado judeu. Israel é uma democracia que precisa de fronteiras seguras. A continuidade do controle dos territórios palestinos ameaça tanto seu caráter democrático (como justificar uma ocupação militar quando até o Egito se liberta do autoritarismo?) como sua integridade territorial, baseada em fronteiras indefinidas e sem reconhecimento internacional. Além disso, o crescimento populacional palestino – de 3,2% ao ano na Faixa de Gaza, ante 1,5% dos israelenses – ameaça o caráter judaico do Estado nascido em 1948. Para o bem de Israel, nada mais lógico do que criar bases políticas sólidas para transformar ocupação em colaboração. [sobre o crescimento populacional palestino é bem considerar que Israel, sempre que lhe convém, cuida em reduzia à população palestina com bombardeios a civis palestinos, especialmente na Faixa de Gaza – os palestinos armados com pedras tem que enfrentar modernos e poderosos caças israelenses.]

Essa necessidade é compartilhada por quem conhece bem a realidade israelense. André Wajnberg, judeu de 38 anos, retornou recentemente a São Paulo depois de 17 anos em Israel. Lá estudou história e geografia e fez um curso para guias turísticos. O trabalho permitiu que ele visitasse a Cisjordânia em diferentes ocasiões e se relacionasse com moradores da região. Nos grupos que guiava, costumava viajar em ônibus conduzidos por palestinos. “Muitos judeus e palestinos não convivem entre si, não conhecem o outro lado, só o radicalismo, o terror, o medo. Percebi pelos meus colegas que o objetivo deles era o mesmo que o meu: ganhar seu sustento em paz, ver os filhos estudar e crescer”, diz Wajnberg. Ele enxerga nessa cooperação o caminho para o fim do conflito. “Quando o Estado palestino for criado, ao lado do Estado de Israel, eles terão de se ajudar. Os cientistas israelenses precisarão fornecer aos palestinos conhecimento para que possam plantar nas montanhas da Cisjordânia. Ao mesmo tempo, nós, judeus, poderemos ter em nossas mesas os tomates produzidos no território palestino.”

Wajnberg diz que a maioria dos israelenses leva uma vida praticamente normal, como se não houvesse um conflito ao lado. “Mas ao mesmo tempo existe o temor latente de que um atentado terrorista aconteça, de que uma guerra comece”, afirma. Segundo ele, a cada hora há um boletim jornalístico numa rádio de Jerusalém apenas para confirmar a ausência de notícias ruins. “As pessoas não admitem, mas todo mundo ouve para saber se não aconteceu nada grave. É um costume.”

Do lado palestino o clamor por independência atende a necessidades ainda mais básicas, como a de ir e vir. O palestino brasileiro Hasan Zarif, de 37 anos, passou um ano, entre 1997 e 1998, em Ramallah. Lá, viveu na casa de seus tios, na aldeia de Al-Janiya. Chegou a ver uma família implorar a militares israelenses que sua casa, construída parcialmente em terreno ocupado por colonos judeus, não fosse derrubada. Como motorista de van, levava operários e moradores para outras cidades da Cisjordânia. Testemunhou as dificuldades de quem tenta se movimentar dentro dos territórios, devido aos postos de controle instalados por Israel. “Isso é uma humilhação diária para o povo palestino. Quando as passagens eram fechadas por causa de uma celebração num assentamento, ou você desistia de visitar um parente ou tinha de dar voltas enormes”, diz.

"Quando as passagens eram fechadas (por Israel), você tinha de dar voltas enormes"
HASAN ZARIF,
morador de São Paulo,
viveu em Ramallah, na Cisjordânia

A presença militar israelense desperta ódio e indignação na população ocupada. Mas um futuro Estado palestino não poderá virar as costas para Israel, que terá de ser visto como parceiro econômico, além de geográfico. Atualmente, 80% dos produtos importados pela Cisjordânia vêm do vizinho, que também absorve quase 90% das exportações palestinas. Água, um bem valioso na região, é comprada de Israel, mas ainda revendida a um preço alto para a população. Aquilo que pode ser feito sem a aprovação de Israel ou da comunidade internacional já vem sendo adotado pela Autoridade Palestina. [o POVO PALESTINO tem que pagar um preço extorsivo pela água extraída de seu próprio território que foi invadido por Israel.]


O jornalista e escritor americano Lawrence Wright, da prestigiada revista The New Yorker, esteve em Gaza em 2009, meses após o conflito entre Israel e o Hamas. Diz ter ficado surpreso com a existência de uma rotina de serviços locais, apesar da estrutura precária. “Muitos caminhões de lixo foram destruídos no conflito, mas vi homens fazendo a coleta nas ruas e colocando em carroças puxadas por burros.”

Os serviços básicos atendem boa parte da população, mas o Acordo de Oslo, de 1993, que viabilizou a administração da ANP em partes da Cisjordânia e na Faixa de Gaza, não autorizou a formação de um Exército palestino – só há uma polícia, considerada incompetente pela população. A proposta de Barack Obama para um novo Estado independente atende ao desejo israelense de impedir o estabelecimento de uma estrutura militar, condição que os palestinos terão inicialmente de aceitar em troca de soberania em outras áreas. Enquanto a ideia do novo Estado, defendida pelos EUA desde o governo de George W. Bush, não se torna realidade, aos poucos a Autoridade Palestina estabelece novos laços com a comunidade internacional.

Não apenas políticos, como econômicos. Na Cisjordânia, produtos chineses começam a se impor no comércio. Vendido nos mercados da Cisjordânia, o tradicional keffiyeh, pano que cobre a cabeça de muitos árabes e se tornou marca do líder palestino Yasser Arafat, é fabricado na China. Só sobrou uma confecção local, na cidade de Hebron. Para a Faixa de Gaza, impedida de estabelecer relações comerciais com o resto do mundo, um Estado palestino traria ainda mais benefícios.

Empresários locais se queixam de que o bloqueio de Israel afugenta investimentos estrangeiros – há um promissor mercado de turismo nas praias do território. Quem se beneficia do isolamento geográfico e econômico imposto por Israel é exatamente a estrutura burocrática do Hamas. Sem opções de emprego na iniciativa privada, os trabalhadores de Gaza recorrem ao setor público, controlado pelo grupo radical. A obtenção da paz, com uma estrutura política definitiva na região, só não atende aos desejos dos extremistas, obstáculo ainda existente dos dois lados.

PORTA ABERTA
Um palestino de Gaza (à dir.) abraça parente no Egito depois de cruzar o posto de Rafah. A abertura foi decidida pelo governo egípcio

Nesta semana, uma lembrança viva desse extremismo e dos confrontos entre palestinos e israelenses completa cinco anos. Em 25 de junho de 2006, o soldado israelense Gilad Shalit, na ocasião com 19 anos, foi capturado por forças do Hamas. Obter a libertação de Shalit tornou-se uma obsessão em Israel, mas nenhuma negociação avançou até agora. Algo sintomático, na opinião de Lawrence Wright, que escreveu e apresentou em Tel Aviv o monólogo A escala humana, inspirado no caso. “O fracasso em tentar achar uma solução para libertar um único soldado é uma forma de entender a paralisia que afeta essa região por tanto tempo”, diz. O radicalismo em parte das relações entre israelenses e palestinos também é apontado como um problema pelo historiador israelense Tom Segev. “Problemas racionais são mais fáceis de resolver. Aqueles ligados à religião, à história, à identidade são irracionais. Na política, as pessoas sempre acreditam que haja interesses racionais, mas é o oposto”, afirma Segev, para quem não há tempo a perder na busca por uma solução definitiva para o conflito. “A democracia israelense já está correndo muito perigo, como resultado de 44 anos de ocupação. E a qualidade de vida dos palestinos é deplorável.”

O governo israelense aposta na manutenção do statu quo. Acredita que Fatah e Hamas não conseguirão manter seu acordo político – o que é provável – e crê em sua força militar como garantia de segurança. Para o historiador militar israelense Martin Van Creveld, o poderio bélico do país continua grande o suficiente para conter as ameaças de extremistas palestinos. Mas a um custo não apenas militar, o que torna a opção pelo conflito eterno inviável. “O fardo de controlar 2,5 milhões de pessoas ou mais, contra a nossa vontade, é intolerável”, afirma.

Especialmente quando o espírito de liberdade da Primavera Árabe se espalha e chega também à Palestina. No início do ano, quando começaram as manifestações na Tunísia, havia 600 mil palestinos com contas no Facebook, dos quais cerca de 200 mil escreviam posts sobre participação política. Sabri Saidam, ex-ministro palestino das Telecomunicações, diz que isso não pode ser despreza-do. “As redes sociais estão sendo usadas para propagar mensagens de liberdade”, afirma Saidam. O Oriente Médio aos poucos compreende o valor da democracia. Mas, antes de promover estabilidade política e paz, a luta por direitos civis no Oriente Médio trouxe uma realidade delicada e de incertezas na região. O Estado palestino tornou-se uma necessidade urgente, cujo adiamento pode reiniciar um novo ciclo de ódio e violência. Trata-se do caminho mais promissor para a solução de um dos mais longos e complexos conflitos da história.

Fonte: ÉPOCA On Line

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