O descaso do Governo do Distrito Federal (GDF) em conservar e fazer a manutenção das 16 passagens subterrâneas que ligam as quadras 100 às 200 do Plano Piloto tem obrigado os pedestres a disputar espaço com os carros nas pistas do Eixão e dos Eixos L e W. Dessa forma, os atropelamentos nas vias são frequentes, pois os cidadãos preferem enfrentar o trânsito a correr o risco de assalto, estupro ou morte. Na última terça-feira, a doméstica Maria Justina de Andrade, 39 anos, perdeu a vida ao atravessar o Eixo L, na altura da 209 Sul. Ela estava acompanhada da filha, que sofreu ferimentos leves.
Entre a noite do atropelamento fatal e a manhã de ontem, o Correio visitou todas as passarelas e encontrou diversos problemas nas estruturas (veja arte). Em muitas delas, há fezes e urina no chão e tampas de esgoto quebradas ou insuficientes. A falta de iluminação também é preocupante, pois os túneis se transformam em abrigo para moradores de rua e pontos para o consumo ou tráfico de drogas — não é raro encontrar nas passagens latas usadas para consumo de crack. A situação é mais preocupante nas passarelas das duas últimas quadras da Asa Norte. Nesses locais, não há nenhuma lâmpada. Os azulejos das paredes estão destruídos ou descolados. E o piso revela buracos.
A autônoma Liége Almeida enfrenta a passagem subterrânea da altura da 111 para levar a filha, Julia, à escola: "Toda segunda - feira encontramos latinhas de crack espalhadas pelo piso"
Leitores/as esta foto é de uma passagem localizada no coração do Plano Piloto de Brasília, Asa Sul, um local que é considerado área nobre
A diarista Loiane Dias Caldeira, 25 anos, mora em Planaltina e trabalha na 116. Duas vezes por semana, ela caminha pelo atalho subterrâneo com medo de ser assaltada. Além da falta de policiamento, ela reclama que a passarela precisa de reforma e de limpeza periódicas. “À noite, os túneis ficam cheios de usuários de drogas. Tenho que passar pelos Eixinhos e pelo Eixão para chegar até a parada de ônibus e, assim, coloco a vida em risco”, comentou.
Quem também teme pela própria segurança é a autônoma Liége Almeida, 27 anos. Ela mora na 111 Norte há três meses e, quatro vezes por semana, leva a filha, Julia, 3, à escola, na 212 Norte. Ela contou que, nas primeiras semanas, se recusava a passar pela passarela, porque o medo de ser assaltada a incomodava. “Ainda tenho medo, mas me acostumei. Prefiro trazer a Julia no carrinho, porque caminho mais rápido. Toda segunda-feira encontramos latinhas de crack espalhadas pelo piso. É horrível”, lamentou.
Este é o mapa do Plano Piloto de Brasília, o mundialmente famoso ‘avião’ e o Hospital mencionado na reportagem fica no cruzamento das ‘asas’ com o ‘corpo’ do avião – podemos dizer o CENTRO do CENTRO da Capital Federal
Escuridão
À noite, os problemas estruturais das passagens subterrâneas do Plano Piloto se somam a outros. A escuridão e o forte cheiro de urina se transformam em refúgio para ratazanas, usuários de crack e ladrões. Entre às 23h e 0h35, nenhum policial militar foi visto nos arredores das passagens. Sem policiamento em ambas as regiões, quem tem de atravessar de um lado a outro do Eixão prefere arriscar a vida no asfalto.
Na madrugada de ontem, por volta das 0h20, próximo ao Hospital de Base do Distrito Federal, na passagem entre as quadras 101/102 Sul e 201/202 Sul, a reportagem flagrou traficantes vendendo crack na entrada do buraco. Três homens, um deles com uma mochila, passaram a droga para outros dois. Ao reparar no carro do Correio, o trio fugiu. Enquanto isso, a dupla desceu as escadas, sentou-se na passarela e consumiu o entorpecente. O uso de crack não é exclusivo das quadras mais próximas do centro de Brasília. Na passagem que liga a 109/110 Sul com a 209/210, a reportagem encontrou latinhas de refrigerante furadas, que são utilizadas como cachimbo para o consumo da droga.
Fonte: Correio Braziliense



0 comentários:
Postar um comentário